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Given two orders: merging algorithm

1.6 Thesis structure

2.1.3 Given two orders: merging algorithm

A governância na ciência está intrinsecamente ligada ao modo como se dá a construção do conhecimento. Gibbons362 apresenta dois modos (1 e 2) de produção do conhecimento que explicam a evolução do lugar da ciência na política e na sociedade. O modo 1 tem uma estrutura disciplinar e é suportado por uma dinâmica que garante o impacto dos resultados científicos obtidos. A estrutura disciplinar, por sua vez, aprova a afirmação do especialista, residindo neste a garantia do avanço do conhecimento. Este modelo norteia ainda a organização da transmissão do saber em meio académico e garante a conexão entre a investigação e a docência. Para este autor, a maioria das universidades e das instituições de investigação científica rege-se por este modelo de produção do conhecimento, “in brief, the disciplinary structure defines what shall count as ‘good science’”363.

361 Callon et al, 2001, 307 362 2001

O modo 2 representa obviamente um corte com o raciocínio exposto anteriormente. Refira-se que a partir da década de oitenta, a ciência que se faz no mundo ocidental começou a orientar-se por uma política para a inovação tecnológica, entendendo ser esta a resposta à alargada competitividade que o sector da indústria sentia e a uma escala global364. No caso europeu, são implementadas diversas medidas de apoio à inovação, reconhecendo que a tecnologia é a base mais efectiva para suportar o crescimento das indústrias nacionais por um lado, e europeias por outro. Assiste-se a uma subordinação da investigação científica à lógica económica ou a uma capitalização do conhecimento365. Esta lógica acabou por não trazer o esperado desenvolvimento, pelo que actualmente assistimos a uma “junção” funcional entre as lógicas da “política para a ciência” (que caracterizámos com a explanação da Big Science e com a influência de V. Bush), da “ciência na política” (que continua a ser marcante para a OCDE, ela própria instituição-charneira para o desenvolvimento mundial) e a “política para a inovação tecnológica”. O modo 2 exprime esta complexidade, trazendo um conjunto de novas práticas sociais e cognitivas. “In Mode 2, knowledge is produced in the contexte of application. It is transdisciplinary, involves a variety of different skills in problem-solving and utilizes more flexible organizational structures. (…) is more socially accountable and makes use of a wider range or expertise in its quality control processes”366. Entende-se que o conhecimento é produzido com vista a ser útil para alguém, na indústria, no governo ou na sociedade, sendo a definição dessa utilidade o motor de produção do conhecimento. A conduta dos cientistas académicos em relação ao valor económico da sua investigação (o quer dizer que os resultados da investigação passaram a ser definidos como propriedade, propriedade essa que não é só simbólica mas é também monetária) está a sofrer actualmente um processo de redefinição e de mudança normativa, pondo em causa o ethos mertoniano367. Para estes autores368 estamos num período de transição, na aceitação da capitalização da ciência. E isto porque a concepção de ‘desinteresse’, uma das normas mertonianas, é difícil de sustentar quando entram em causa questões de propriedade intelectual inerentes à difusão dos resultados. Por outro lado, as inúmeras controvérsias em torno da comercialização mostram que de alguma forma, o ethos mertoniano ainda persiste. 364 Gibbons, 2001, 34 365 Etzkowitz e Webster, 1995 366 Gibbons, 2001, 37 367 Etzkowitz e Webster, 1995 368 Idem

“Commercialization of science (…) may involve a normative shift in attitudes toward intellectual property so that the ethical presumptions of science themselves get redefined by the social actors involved”369.

De onde se conclui que este modo seja atravessado por uma negociação em torno da definição de utilidade, sendo essa a definição de “contexto de aplicação”. Aliás, este conceito, e todos os significados que reúne, é central para compreender a mudança operada com a passagem ao modo 2 de produção do conhecimento.

Contrariamente à lógica fechada e defensiva que encerrava a estrutura disciplinar do modo 1, o conhecimento que se produz sob o modo 2 “is the outcome of a process in which supply and demand factors can be said to operate, but the sources of supply are increasingly diverse, as are the demands for differentiated forms of specialist knowledge”370. Sendo assim, o conhecimento pode ser produzido em diversos locais, levando à emergência de novas “disciplinas” que se caracterizam por romper com as fronteiras estabelecidas entre investigação básica ou fundamental, investigação aplicada e design dos produtos e processos em causa. A produção do conhecimento perde a tradicional linearidade pois cada um dos três tipos de investigação que referimos pode surgir a todo o momento e influenciar os restantes. É uma dinâmica de funcionamento e de “fazer ciência” radicalmente diferente mas que só desta forma consegue dar resposta às múltiplas solicitações que são colocadas em jogo. Por essa razão, os novos conhecimentos são transdisciplinares, já que é pouco provável que um novo conhecimento tenha apenas um saber disciplinar por origem. “… genuine creativity is involved and the theorectical consensus, once attained, cannot easily be reduced to disciplinary parts”371. Esta característica, que habitualmente já se encontrava nas ciências sociais e humanas, estende-se agora aos domínios das ciências exactas e das engenharias. Também os locais de produção do conhecimento deixam de estar reduzidos aos convencionais, “no longer only universities and colleges but non- university institutes, research centers, government agencies, industrial laboratories, think-tanks, consultancies, in their interaction”372.

O modo 2 de produção do conhecimento prevê a integração de saberes heterogéneos, de diversificadas proveniências, daí que a sua estrutura organizativa deva

369 Etzkowitz e Webster, 1995, 503 370 Gibbons, 2001, 38

371 Gibbons, 2001, 39 372 Gibbons, 2001, 40

ser aberta e flexível. Gibbons373 recupera o conceito de “forum híbrido”374 como estrutura de funcionamento de um conhecimento que surge para conter e contrariar os riscos que se apresentam. A composição das equipas de investigação exprime a necessidade de contemplar as exigências de um crescente número de grupos de interesse, que pretendem ser tidos em consideração e influenciar o desenrolar do processo de construção social do conhecimento, donde se compreende que todos os intervenientes “become active agents in the definition and solution of problems as well as in the evaluation of performance”375. A necessidade de uma responsabilidade social (“social accountability”) vem animar as redes de intervenientes que se constituem através de práticas de comunicação e interacção, que devem ser suficientemente flexíveis para se recomporem a todo o momento bem como devem partir da capacidade de reflexividade dos membros dessas redes. Gibbons corrobora a perspectiva de que este modo de conhecimento só pode surgir num contexto onde os sujeitos intervenientes têm não só conhecimentos precisos e preciosos como manifestam um forte sentido, uma visão, de interesse público. O que implica, ainda, que os mecanismos de controlo de qualidade já não podem ser reduzidos ao peer-reviewing pois nem só entre investigadores se produz o conhecimento. “Quality is determined by a wider set of criteria that reflects the broadening social composition of the review system. This implies that ‘good science’ is more difficult to determine”376.

O facto de Gibbons distinguir claramente estes dois modos de produção do conhecimento não deve fazer crer que teríamos passado de um para o outro mas antes que ambos estão presentes na sociedade actual, coabitando num mesmo espaço.

373 2001

374 Callon et al, 2001 375 Gibbons, 2001, 42 376 Gibbons, 2001, 43

VII – Compreensão Pública da Ciência

O debate sobre a relação actual entre a ciência e a tecnologia na e com a sociedade fez emergir duas ordens de questões: do foro ético e do foro cognitivo. A primeira questão remete-nos para o debate em torno da responsabilidade social, e foi já desenvolvida. A segunda questão transporta-nos para a questão da comunicação pública da ciência, do seu valor social, do seu enquadramento político e dos seus modelos de organização. Nesta parte, abordaremos a Compreensão Pública da Ciência.

A expressão de Compreensão Pública da Ciência (em inglês, public understanding of science, com o acrónimo PUS) tem um passado relativamente recente. O seu documento fundador é, inequivocamente, o Relatório da Royal Society of London, datado de 1985 e intitulado The Public Understanding of Science377. Este

Relatório referia-se apenas à situação britânica mas veio a tornar-se no documento de base para todos os temas adjacentes ao estudo da compreensão e da comunicação da ciência. Este Relatório apresenta uma concepção do que deve ser a compreensão, do lugar que o público ocupa (na distribuição do conhecimento) e ainda dos modelos de comunicação que melhor servem o que fora definido em relação à compreensão e aos públicos da ciência. O modelo prosposto correspondia a uma determinada concepção de ciência que era, e é ainda em diversas ocasiões, dominante, apoiada numa estruturação disciplinar do saber, numa perspectiva realista do conhecimento científico e na afirmação do lugar único ocupado pelos investigadores, como produtores exclusivos desse mesmo conhecimento. Consequentemente, o modelo da Royal Society of London propunha-se traduzir este entendimento através da justificação que apresentava sobre a necessidade de haver compreensão, na identificação dos emissores que legitimava ao nomear e nas práticas de comunicação que apontava como adequadas. O modelo da Royal Society definiu-se então como modelo dominante da compreensão pública da ciência.