5. AVKASTNINGSKRAVTEORI
5.2 K APITALVERDIMODELLEN (KVM)
Como vimos, as crianças do Tietbohl, cujas subjetividades encontravam-se dominadas pelo filme de Hogan e pelo padrão gráfico-visual da Disney, estavam em grande parte decepcionadas com a leitura do texto literário e com o objeto editorial colocado à disposição. Todas haviam iniciado a operação previamente, como combinado (com uma exceção), mas algumas a interromperam ou iniciaram a oficina sem a terem concluído, deparando-se com uma narrativa diferente e cansativa — parada —, como já vimos. Essas reações se manifestarão em suas produções verbais e visuais, majoritariamente apegadas ao imaginário composto por produtos culturais ou pela literatura de sua preferência.
O terceiro encontro realizado no Tietbohl inicia com a presença de todos, apesar da chuva forte que cai nessa quinta-feira do dia 5 de setembro. Contudo, um terço de seus integrantes — Diana, Élida, Laíza, Luíza, Lúcia e Vera — não completariam a atividade seguinte nem apareceriam mais. Permanecerão Alice, Andréia, Laura, Sílvia, Flávia e todos os meninos: Juliano, Geraldo, Fernando, Airton e Sérgio. Por isso, a partir de agora, somente seus nomes serão citados. Todos se apresentam mais tranquilos: o período de ansiedade acabou.
Em virtude do atraso no cronograma, sou obrigada a fazer algumas alterações no planejamento: a ideia é trabalhar em cima do subtema preparado para essa Oficina — a
personagem31. Após o término da atividade de desenho inicial, ainda feita apenas com base nos seus referenciais subjetivos e imaginários, a proposta é refletir oralmente sobre o modo como esse elemento narrativo se apresenta na obra literária e em suas ilustrações, verificando semelhanças e diferenças entre aquilo já conhecido através de outras versões.
As meninas me trouxeram seus desenhos terminados. Todos apresentam a personagem Sininho32 em configuração muito próxima à da Disney (o cabelo, os recortes do vestido, as sapatilhas), com exceção de Sílvia, cujo desenho diferenciou-se pela elaboração: ela representou a fada de perfil, de cabelos pretos, soltos e em movimento, corpo etéreo — uma fada-luz, tal como é descrita no livro. Para reforçar esse efeito, ela havia me perguntado se poderia fazer uso do giz azul usado para escrever no quadro [Fig 2].
Nos demais desenhos, a Fada surgiu loira e de coque, asas tipo libélula, preferencialmente suspensas no ar (à exceção da Sininho de Laura [Fig 3]) e com poucas variações: a presença de uma varinha mágica (Alice [Fig 4]) — ausente tanto na versão Disney quanto na obra literária — ou de pó mágico (Andréia [Fig 5]); vestuário em top e mini-saia (Laura), ao invés de vestido inteiro; sapatos de bailarina com laços substituindo o sapatinho com pompom, em cor azul (Flávia [Fig 6]) ao invés de verde (uma referência à fada de Pinóquio?). Tais artes indiciaram, sem exceção, uma idade infantil para Sininho: são fadas- crianças, corpo e expressão de menina e não de mulher. Chamo a atenção sobre isso porque a Sininho da Disney, na qual se basearam, é uma personagem sexuada, beirando o sensual, uma
31 Outros subtemas podem ser propostos, conforme o cronograma e interesse dos participantes, a partir do tema
principal, que é a obra ou o texto literário em questão: cenário, ação e expressão (psicológica e gestual) e elaboração técnica (composição, estudo de forma, de cores, materiais, etc.). Alguns desses subtemas foram desenvolvidos numa oficina posterior, realizada para adultos, no Atelier Livre da Prefeitura de porto Alegre.
32 Embora as meninas tenham manifestado verbalmente sua preferência especial pela fadinha, é preciso levar em
consideração a dificuldade técnica ou desinteresse meramente lúdico em configurar plasticamente a personagem Wendy, devido aos índices visuais vagos que ela apresenta: uma menina mais complexa enquanto personagem e, contudo, prosaica, ao apresentar-se caracteristicamente vestida de camisola. Embora o texto literário não tenha se mostrado interferente nas configurações visuais apresentadas pelas crianças, também é bom ressaltar que o autor não faz questão de descrevê-la fisicamente (até a roupa de dormir permanece subentendida), ao contrário de Sininho ou Peter, descritos no texto literário em passagens bem definidas. Também o ilustrador Fernando Vicente não colabora como um referencial, já que se exime de configurar a protagonista. Mais uma vez é preciso encaixar nesse comentário o caso de Andréia: embora pareça preferir a menina Darling (preferência visível em sua produção verbal, como se verá), é possível que ela acabe mais motivada, tanto esteticamente como pelo próprio grupo, a optar por Sininho, o que pode ter contribuído para sua escolha ambígua. Outra personagem que passa ao largo de possíveis identificações é a princesa índia Lírio Selvagem, citada apenas como acessório figurativo na produção verbal de Flávia.
figura que se poderia dizer voluptuosa em sua versão original, com seios, cintura fina, quadris grandes e coxas grossas — ela é uma mulher, e uma mulher ciumenta; contudo, esse fato passou ao largo das ilustrações iniciais dessas meninas, não porque não tenham competência para configurar atributos feminis33, mas porque não se conscientizaram deles ou porque não os admitem em relação à Fada. Observo que a personagem passou por algumas modificações na recente linha de produtos culturais34 lançados sob o seu nome original, em inglês — Tinker Bell —, tornando-se mais dócil e de configuração mais esguia: os atributos sexuais foram proporcionalmente reduzidos e ela assume agora um perfil entre o infantil e o adolescente. Ademais, embora o filme de Hogan tenha preservado a paixão e o ciúme do caráter da personagem (representada por uma atriz adulta, Ludivine Saignier), as causas não são bem explicitadas pelo roteiro, que privilegia a relação de Wendy com Peter; contudo, no texto literário (cujas referências foram ignoradas por todas, com exceção de Sílvia), as reações de Sininho são destacadas pela voz narrativa, embora não descreva a fada como uma mulher adulta, mas a assemelhe, como Peter, a um ser sem idade definida, um elemento da natureza.
Os meninos se dividem: Fernando e Juliano assumiram o Capitão Gancho; Sérgio e Airton (o segundo imitando o primeiro) optaram por Peter Pan. Geraldo preferiu nada
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Philipe Greig, psiquiatra e psicoterapeuta, dirá, em A criança e seu desenho, que a figura de personagem, ou seja, a estrutura corporal humana desenvolvida pela criança saudável deverá incluir as diferenças sexuais físicas entre 5 e 6 anos. Essas diferenças sexuais podem aparecer na configuração do vestuário, de elementos
decorativos (sinalizando a localização da vagina ou do pênis), ou de formas como o quadrilátero alongado (para os meninos) e triangulares, para as meninas. Nos desenhos observados por mim ao longo do meu contato com crianças de todas as idades, percebi que os órgãos sexuais são representados de forma mais explícita quanto mais jovem ela for; à medida que crescem, o pudor e o convívio social faz com que a sua grafia desapareça ou se transmute, transferida para decoração, forma ou cores das roupas e acessórios atribuídos a cada sexo. Em algumas crianças, a representação dos signos diferenciais para o sexo é desviada para formas externas ao corpo e vestuário, para as formas figurativas de árvores, cavernas, cogumelos, portas, etc. Na idade dessas meninas, é possível verificar o grau de pudor no modo como elas representam Sininho, característica apontada por Greig em referência à idade do ouro do desenho infantil (GREIG, 2008: 58-109.). Em geral ela se manifesta não apenas como resposta ao recalcamento produzido pela máquina socioeducativa, mas à própria condição de latência, que se caracteriza por eventuais conflitos entre a antiga identidade de criança e uma nova e desconhecida que se insurge através do corpo em evidente mutação. A identificação com a fada, assim, torna-se ambígua, como veremos mais adiante: por um lado, a fada é a futura jovem mulher na qual se projetam seus sonhos pubescentes, com seus sentimentos de pura paixão e energia sexual, ao contrário de Wendy, uma menina mais próxima em virtude de sua idade, respeitosa das regras sociais e parentais, aprendiz do convívio social e do papel feminino que lhe será exigido pela sociedade da época; por outro, essa identificação é ainda evitada ou se apresentará em formas atenuadas, como mostrarão os desenhos. A mesma reflexão pode ser aplicada aos meninos que optaram pelo Capitão Gancho, embora não devamos desprezar opções estéticas relacionadas ao prazer em configurar uma fada — figura mais estimulante do que a de uma menina comum, como Wendy — ou um pirata que porta armas e outros elementos mais expressivos e interessantes para os meninos do que a figura de um herói sem idade definida e que veste um traje de folhas secas. Ambas as motivações — psíquicas, socioculturais e estéticas — se entrecruzam e não será possível dissociá-las, uma vez que compõe a subjetividade complexa que, por sua vez, atua e agencia as operações como um todo e jamais em separado.
34 Além do DVD Tinker Bell (Sininho), a Disney relançou a personagem como protagonista da publicação
desenhar; aparentemente não quis tomar para si nenhum personagem. Mas não esqueçamos que ele tem 13 anos: encontra-se em plena fase crítica do desenvolvimento do desenho (embora posteriormente tenha dado provas de que sabe desenhar muito bem) e também no início da adolescência propriamente dita. Deixei-o em paz e à vontade, e o incluí na minha análise devido à sua presença assídua e por julgar importante mesmo a negatividade como uma ação responsiva. Essa divergência fará dele, mais adiante, um dado comparativo interessante para esse estudo.
Vamos aos nossos piratas: Juliano escolheu o Capitão Gancho por sua verossimilhança [Fig 7]. Para ele, era a única personagem interessante (entenda-se: não infantil), e configurou-o de perfil, dentes à mostra e olhos grandes, como se ameaçasse alguém ausente, além do espaço da folha de papel. As roupas procuraram seguir o padrão Disney. Sabemos que não gostou do livro e que também não gosta da história em qualquer versão que se apresente; por isso mesmo, a escolha do chefe dos piratas não se apresentou com firmeza e, em decorrência, temos uma figura evasiva, olhando para outro lado, falta de determinação nos traços, pouca agressividade (pena do chapéu pequena, espada empunhada para baixo). O Capitão Gancho não se ofereceu como uma figura de pirata convincente para Juliano. Mas, para ele, em Peter Pan, não havia opções melhores. Fernando já olhou o Capitão com mais veemência [Fig 8]: sua espada compensou o gancho apontado para baixo e está pronta para o ataque, seus olhos estão bem abertos (esbugalhados, eu diria), o corpo é forte e ele parece grande. O chapéu apresenta uma pena dura e agressiva (quase como uma antena de TV). Além disso, ele tem um tapa-olho e uma pistola. As cores são contrastadas (vermelho e preto, seguindo o padrão de coloração da Disney), e o modo de preencher com elas os traços bem demarcados e duros demonstrou sua determinação na escolha. Trata-se, sem dúvida, da visão de um pirata malvado e cruel — um inimigo. Sua figura ameaça inclusive a nós, quando fixamos os olhos sobre o seu desenho.
Se o compararmos com o de Juliano, veremos como o deste é mais sensível e menos agressivo; ele não representou o pirata em sua maldade, mas preferiu revelar seus medos, ansiedade e até mesmo certa fraqueza, já que sua espada não está em posição de ataque (estaria o seu capitão avistando o Crocodilo?). O interesse de Juliano residiu mais na elaboração da arte em si do que no tema representado, através do modo como ocupou o espaço da folha, o cuidado em colocar o navio com parte do casco escondido sob as ondas de um mar um tanto revolto. O fato de Gancho estar flutuando sobre o convés implica no reconhecimento de uma necessidade que requer solução formal diferente: aqui, Juliano
desejou descrever seu personagem completamente, sem esconder nem mesmo as botas e, por isso, o capitão parece suspenso, em vez de apoiado no piso; já o navio não foi considerado tão importante, constituindo apenas mais um elemento extensivo à ideia de pirata ⎯ assim, Juliano nem se preocupou em detalhá-lo. O desenho do menino forneceu algumas pistas sobre o que o impede de apreciar Peter Pan35, mas também revelou uma leitura atenta, pelo menos da sua personagem. E se ainda resolve participar e até mesmo optar por Gancho (diferente de Geraldo), é porque não só guarda um interesse especial pelas atividades desenvolvidas (de ordem lúdica ou criativa), mas por que tem 11 anos, guardando resquícios de um estado infantil prestes à reavaliação36. Já Fernando, menino pequeno e quieto, preferiu assumir a face mais popular do Capitão Gancho, configurando-a em traços duros e fortes e realçando os padrões apreciados de agressividade e maldade que serão confirmados em sua produção textual.
Sérgio e Airton escolheram Peter Pan. O procedimento de Airton foi curioso: primeiro, ele havia escolhido Miguel (lembremos que Sérgio havia dito de sua preferência por Miguel quando criança); ao perceber que Sérgio desenhava Peter, Airton resolveu mudar e fez outro desenho, dessa vez de Peter Pan, bastante parecido com o do colega. Só ao longo dos encontros fui percebendo a influência que Sérgio exerce sobre Airton, ou a dependência deste do primeiro. Uma vez que Sérgio é a referência, começaremos por ele: seu Peter [Fig 9]
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Lembro que Juliano, diferente de Felipe, critica o livro por suas próprias qualidades, sem estabelecer comparações com o filme, do qual diz também não ter gostado. Esse discernir entre obra literária e obra cinematográfica e sua tentativa de reaproximação do universo de Peter Pan através do livro, mesmo tendo detestado o filme, merece destaque, pois evidencia um comportamento crítico que se esforça em ir além do puramente impressivo.
36 Ao abandonar o período de latência, o indivíduo pubescente dá início a um longo processo que Laura Kaplan
chama de “adeus à infância”: não se trata de um rompimento, mas de uma reavaliação do passado infantil, onde as correspondências emocionais e afetivas com seus responsáveis imediatos serão deslocadas para outras formas de convívio social, adequando-se às normas civilizatórias. Se no período de latência a criança “se defiende com
valentía de las manifestaciones del deseo” [“se defende com valentia das manifestações do desejo” (KAPLAN,
2004:112, tradução minha)], ao atingir a pubescência (que segundo Kaplan, varia dos 11 aos 14 anos), ela se deparará dividida entre atender aos desejos de um corpo em incipiente transformação química e fisiológica e permanecer leal aos modelos comportamentais idealizados amorosamente durante a infância. Geraldo, mais velho, encontra-se no limiar entre essa fase e a puberdade propriamente dita, onde muitos dos conflitos iniciais já deverão ter sido ultrapassados (observe-se que a leitura de Peter Pan o interessa na medida em que propõe justamente a reavaliação de um passado infantil já percebido como distante, embora ainda não como perda). Juliano encontra-se no meio do caminho: por mais maduro que ele me pareça, realiza-se em seu corpo físico e psíquico um debate de ordem emoafetiva, que interfere claramente em suas opiniões e expressões criativas relativas à mesma obra. A maior parte das crianças aqui apresentadas encontra-se diante desse mesmo dilema de ordem não só fisiológica e emocional, mas também, segundo Guattari, de ordem sociocultural (porque o abandono da infância é também uma exigência das máquinas culturais e formativas), parte das operações para produção de suas subjetividades, manifestando-o claramente, ainda que por meio de respostas heterogêneas, como veremos.
seguiu alguns dos padrões da Disney (cabelo ruivo, presença do verde nas roupas), mas também incorporou o estilo japonês dos animes e mangás (olhos grandes e brilhantes, cabelos espetados, estilo da roupa, botas) que seu amigo imitará até certo ponto [Fig 10]. Este, Airton (que resolveu trocar de desenho após nossa reflexão interpretativa sobre os personagens), incluiria o traje de folhas descrito no livro e destacado durante a conversa. As cores de Airton também serão mais fortes, mas ele não ousou apresentar um Peter seminu (lembrando o ator do filme de Hogan): há uma espécie de macacão cor de pele sob o sumário traje de folhas. O desenho anterior de Airton, esquecido, revelava um Miguel amedrontado, vestido em amarelo gritante [Fig 11]. Por baixo da roupa, percebemos alguns círculos aplicados posteriormente, numa tentativa de transformar o desenho do caçula Darling em um desenho de Peter Pan vestido de folhas; eles indicariam a indecisão de Airton com respeito à escolha de uma personagem compositora de subjetividade. Sérgio, de certa forma, ainda não atingiu ou não pretende significar a transição biopsíquica própria da faixa etária, ao escolher Peter; a mixagem com elementos do mangá pode ser traduzida como uma opção estética deliberada, determinando a tentativa de fuga de um estereótipo mais infantil. Airton, ao observar as escolhas de Sérgio e mudar de ideia, pareceu enxergar no colega o modelo masculino a ser seguido. Ambas as representações de Peter Pan evitaram elementos agressivos, ainda que houvesse essa possibilidade, dado que a personagem se complementa com o porte de um punhal ou espada, além do chapéu em estilo caçador pelo padrão Disney; aqui, obtivemos Peters desarmados, embora o de Sérgio incluísse um pescoço forte, com pomo de adão proeminente como o de um jovem adulto. Os olhos grandes e brilhantes e demais índices gráficos de ambos os desenhos denotam, ainda assim, um Peter Pan infante (lembrando que o de Airton iniciou como cópia grosseira do desenho do amigo, alterado pelo traje de folhas); com as mãos na cintura e sorrindo com ar maroto — Sérgio ainda acrescentou as palavras “eu sou o máximo”— eles configuraram meninos que não desejam ou mesmo temem o processo de amadurecimento. Sérgio diz justamente que escolheu Peter Pan porque ele “não cresce”. Contudo, a postura de afronta de sua personagem e a relação estabelecida entre ela e a cultura dos mangás (onde o herói japonês, grafado em traços elegantes e andróginos, costuma ser, diferente do herói ocidental popular, um ser em conflito) confirmaram sua admiração pela personagem e a integração dele à sua consciência estético-criativa (pois hibrida deliberadamente a configuração padronizada a dados estéticos novos).
Entre os meninos, os diferentes agenciamentos dividiram explicitamente as escolhas e suas operações: Juliano concedeu em escolher o pirata, mas não acredita nele; Sérgio está
prestes a abrir mão do mundo aparentemente seguro da segunda infância ou da latência, e pareceu ironizar em seu Peter a farsa de auto-suficiência que ele representa. As meninas são, aparentemente, mais unânimes e homogêneas37 em sua escolha. Mesmo Andréia, fisicamente mais desenvolvida do que as demais, parecendo mais velha do que os seus 11 anos – e que em suas lembranças de primeira infância destacou a personagem Wendy, associando-a de modo negativo a Peter Pan, na leitura do livro – acabou se decidindo por Sininho, cedendo afinal à fantasia e a uma opção estética por determinado padrão combinado e aceito pelo grupo feminino (ou seja, menina de asas, loira, vestida com roupas curtas e justas)38.
Na interpretação dos índices verbais das personagens, feitas oralmente e gravadas em arquivo de áudio digital, percebemos as convergências significativas entre imaginário visual e verbal na opção por Sininho. Na emulação de suas características (listadas no quadro da sala da oficina, à medida que majoritariamente as meninas as vão ditando), apareceram as seguintes expressões: “fadinha”, “companheira de Peter Pan”, “pequena demais para ter
37 Essa homogeneidade se deve principalmente ao modo como elas se portam durante a atividade, conversando,
trocando ideias, perguntando a opinião umas das outras sobre suas configurações.
38 É possível que a indecisão de Andréia esteja ligada, como a de Juliano, à conflituosa passagem do período de
latência ao de pubescência. Nesse caso, a resistência em admitir a identificação com Wendy seria pelo fato de a personagem representar justamente esse conflito (deslocar o diálogo amoroso até então estabelecido
exclusivamente com os modelos do ser-adulto para algo ou alguém fora das relações parentais ou familiares). Andréia, como demonstrará em seu trabalho final, ainda valoriza a atitude de obediência à autoridade adulta; essa atitude caracteriza seu estado latente, tal como explica Laura Karan: “Em el período de latencia [...], el
deseo debe mantenerse inactivo, de manera que el niño pueda concentrarse em adquirir las destrezas, los conocimientos, las reglas y los modos propios de la vida civilizada. [...] Durante el período de latencia, a los niños les preocupan el acatamiento y la obediencia. Les complacen el orden y la regularidad. [...] Los niños de esta etapa son respetuosos ciudadanos de uma utopía bien organizada.” [“No período de latência (...), o desejo
deve manter-se inativo, de maneira que a criança possa concentrar-se em adquirir destrezas, conhecimentos, regras e modos próprios da vida civilizada. (...) Durante o período de latência, as crianças preocupam-se com o acatamento e a obediência. A ordem e a rotina lhes aprazem. (...) As crianças dessa etapa são respeitosos cidadãos de uma utopia bem organizada.” (KAPLAN, 2002: 107, tradução minha.)] Interessante acrescentar a convergência dessa observação com a fase de ouro do desenho infantil, tal como descrita por Philipe Greig (GREIG, 2008: 57-109.), em que, da mesma forma, a criança procura organizar e catalogar o que representa visualmente, ao estabelecer um vocabulário formal — muitas vezes definitivo para quem não supera essa etapa