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Jurisdictional Issues

De acordo com Neves (inédito), cada vez que o sintagma nominal de núcleo comum é usado na cadeia referencial, seja para introduzir seja para retomar o referente, registra-se uma informação (física, psicológica, etc.) a esse referente. Isso quer dizer que quanto maior o número de sintagmas nominais usados na teia referencial (além de sua complexidade, é óbvio) maior será o número de informações correspondentes à personagem. Por essa razão, o sintagma nominal é classificado pela autora no grau intermediário de descrição: ele não individualiza, mas seu uso continuado acumula informações que contribuem para a construção do referente.

Compreende-se por aí que o sintagma nominal que traz em seu núcleo um substantivo comum (um nome) está na base do processo referencial. Relacionando o nome às metafunções, propostas por Halliday (1973; 1978), que estão atreladas ao processo interativo, Neves (2004, p. 65) diz que:

(i) na função ideacional, o nome pode ser configurado em diferentes esferas do discurso, pois, quando o que está em estudo é “a língua enquanto representação da realidade, o nome é, em primeiro lugar, um referenciador, remetendo necessariamente a uma pessoa ou coisa”;

(ii) na função interpessoal, “que põe em exame a língua enquanto troca ou interação, o nome constitui uma não pessoa do discurso”, pois sua escolha como sujeito ocorre no nível da interação verbal;

(iii) na função textual, de acordo com a sonoridade e a posição ocupada na frase, o nome traz uma informação dada, o tema; no nível do texto, os nomes “mapeiam uma rede de recuperações, remissões, projeções baseadas nas relações de sentido, como a sinonímia, a antonímia, a hiperonímia, a hiponímia, ou a colocação em campo semântico comum”.

Carvalho (1989, p. 213), dissertando sobre a linguagem usada em textos infantis, mostra que “o substantivo é a pedra de toque, porque ele é que oferece a essência da ideia; é palavra-ideia, principal, enunciativa, capaz de ‘dizer’ por si mesma: é definição, como o verbo é ação”. Além disso, a autora lembra que o artigo posto ao lado do substantivo contribui para concretizar a coisa (o referente), enquanto sua ausência pode indicar uma valorização subjetiva da essência da coisa.

Sob o ponto de vista referencial, o artigo definido pode ser usado para retomar um referente introduzido anteriormente no texto, função que também pode ser exercida pelos pronomes possessivo e demonstrativo. Embora esses pronomes não tenham o mesmo papel “configurador” do artigo (termo usado por Carvalho, 1989, p. 213), especialmente em textos infantis, eles são igualmente necessários para manter a relação entre as pessoas do discurso e, consequentemente, a coesão textual.

2.5.1.3 Os pronomes

O pronome pessoal de terceira pessoa funciona, na organização formal dos enunciados (distribucionalmente) como substantivo, pois preenche a casa referencial, ou seja, ele tem natureza referenciadora (NEVES, 2011). De acordo com a autora, esse tipo de pronome representa os interlocutores que se alternam e os que são referidos na enunciação. Por essa razão, o pronome pessoal é classificado por Neves (inédito) no grau baixo de identificação, pois, ao representar um referente, ele não traz uma informação nova, mas retoma (ou antecipa) outra que já foi oferecida anteriormente, inclusive informações de gênero e número, que são próprias de sua natureza gramatical.

Além do pronome pessoal, os possessivos e os demonstrativos também exercem função referencial, mas diferentemente do primeiro, eles funcionam como adjetivos/adjuntos, atuando ao lado do substantivo como determinantes.

Tratando dos pronomes que funcionam como referenciadores textuais, Diessel (2006) mostra que os demonstrativos são as primeiras palavras que as crianças aprendem, justamente pelo hábito que a maioria delas tem de apontar para as coisas. Como o objeto de estudo deste

trabalho são textos destinados a crianças, saber um pouco mais sobre a natureza desse pronome pode ser, em certa medida, significativo para o resultado das análises.

Neves (no prelo, p. 550) lembra que a função básica do demonstrativo é “fazer referência a outro(s) elemento(s), seja na situação seja no texto, apontando-o(s) por menção à posição relativa desses elementos (na situação ou no texto)”, ou seja, o pronome demonstrativo é o responsável por situar o referente em um determinado espaço configurado em contexto.

Fillmore (1982, 1997) diz, explicitamente, que o demonstrativo, em sua função dêitica, configura-se, no processo de interação verbal, como uma unidade usada pelo enunciador para indicar a localização de um referente. Diessel (2006) acrescenta a ideia de que os dêiticos também podem ser usados para manter o foco de atenção dos interlocutores no ato comunicativo, o que se mostra particularmente relevante quando o que está em observação é o processo de aquisição da linguagem – foco de seu estudo –, no qual a atenção conjunta entre a criança e seu interlocutor costuma estabelecer-se por meio de gestos e do ato de apontar para aquilo que se quer focalizar.

Compreende-se por aí que esse tipo de pronome colabora para manter o fluxo de atenção entre falante e ouvinte, questão de particular relevância quando se examina a interlocução. O demonstrativo direciona para um referente que não estava no foco partilhado, criando um foco conjunto, podendo também indicar um referente previamente estabelecido dentre as outras referências que já estão no foco de atenção dos interlocutores (DIESSEL, 2006). Provavelmente essa seja a razão pela qual o demonstrativo seja comumente usado em textos infantis nos quais a oralidade é evidente. Veja-se este exemplo (esquematizado) extraído da obra A Arca de Noé, de Ruth Rocha (2004c, p. 4-25), no qual vem destacado em negrito o demonstrativo esse (em duas ocorrências):

Um dia, Deus chamou Noé.

E mandou que ele construísse um barco bem grande.

Não sei por quê, mas todo mundo chama esse barco de Arca de Noé. Deus mandou que ele pusesse dentro do barco um bicho de cada qualidade. [...]

Quando a bicharada estava toda embarcada [...[ começou a cair uma chuvarada.

[...] a água foi cobrindo tudo, tudo...

Só mesmo a Arca de Noé, que boiava em cima das águas, é que não ficou coberta.

[...] depois que a tempestade passou [...] e as águas começaram a baixar. [...] a Arca pousou sobre um monte.

E todo mundo pôde sair. [...]

E Deus pendurou no céu um arco colorido, todo de listras.

E esse arco queria dizer que Deus era amigo dos homens, e que nunca mais ia chover assim na terra.

Você já viu, depois da chuva, o arco-íris redondinho no céu?

Pois é pra sossegar a gente. Pra gente nunca mais ter medo de chuva!

Conta-se, desde o princípio, a história de Noé e sua Arca: a ordem recebida de Deus; a construção da Arca; os bichos que foram acolhidos nela; o antes e o depois da tempestade. O pronome demonstrativo esse que vem na terceira linha do excerto (“Não sei por quê, mas todo mundo chama esse barco de Arca de Noé”) retoma um referente que já havia sido previamente estabelecido no texto (um barco). No momento da trama em que todos puderam sair da Arca, vem introduzido um novo referente: um arco colorido (“E Deus pendurou no céu um arco colorido, todo de listras”). Em seguida vem novamente o demonstrativo esse, que, nesse caso, chama a atenção para um referente que acaba de ser estabelecido sem nenhum expediente de focalização dentre outros referentes que já estavam no foco dos interlocutores. Não por acaso, o referente um arco colorido tem função relevante no desfecho da história (“E esse arco queria dizer que Deus era amigo dos homens, e que nunca mais ia chover assim na terra”): ele funciona como um símbolo que representa a alegria e a certeza de que tudo está bem.

Embora cada tipo de pronome tenha a sua particularidade – justamente o que interessa à criação textual –, o uso de cada um dos elementos fóricos pronominais, bem como o de outros elementos que funcionam no processo referencial é fundamental para manter a relação coesiva.