A teoria da enunciação serve especialmente à análise deste trabalho (que verifica o processo referencial em textos infantis) por comportar as categorias de pessoa (incluindo-se aí a não pessoa), de tempo e de espaço. Pode-se dizer, de acordo com Lyons (1979), que essas categorias foram inicialmente tratadas na filosofia aristotélica, segundo a qual as palavras significam por si mesmas, independentemente de combinarem-se ou não umas com as outras.
Já dentro da ciência linguística, Benveniste (2005) tratou essas categorias como categorias do processo de enunciação (pessoa, tempo e espaço). Na proposta desenvolvida pelo autor, a relação, ou a interligação, entre as pessoas que atuam no enunciado, e os elementos espaciais e temporais é o que forma o tecido do texto. Assim que, como bem desenvolveu a Linguística do texto, em suporte funcionalista, configura-se o processo de referenciação textual, no qual a introdução e a manutenção de um referente, seja de qualquer categoria, e, consequentemente, a interligação desse referente como outros elementos do texto, mantém a coesão.
Como explicita Benveniste (1989), a referenciação só se estabelece na interação entre dois ou mais interlocutores que, ao se comunicarem, colocam a língua em funcionamento por um ato individual de utilização. Tal processo interativo, realiza-se, em geral, “num lugar particular e num tempo particular: ocorre numa certa situação espacio-temporal” (LYONS, 1979, p. 290). Ou seja, as pessoas que participam do ato comunicativo são instituídas no tempo e no espaço da enunciação: eu-aqui-agora (BENVENISTE 2005).
O ato individual de cada participante, explica Fiorin (2004), concretiza-se exatamente quando o falante se apropria das formas linguísticas da língua para comunicar-se. É nesse sentido que a referenciação é vista como parte da enunciação, pois, ao apropriar-se da língua, o falante institui uma relação com o mundo por meio do discurso, enquanto ao ouvinte cabe correferir no diálogo (FLORES et al., 2011), assimilando as ideias que lhe são apresentadas, de acordo com o seu conhecimento de mundo.
Embora as três categorias enunciativas estejam inerentemente relacionadas em qualquer processo interativo, a categoria pessoa é a central, isso porque, como lembra Flores
et al. (2011), é o sujeito que, ao colocar-se como pessoa do discurso, temporaliza e espacializa
os fatos do enunciado.
Assim, como bem diz Benveniste (1989), o que caracteriza a enunciação é a relação discursiva entre os articuladores do discurso, o locutor e o interlocutor, “seja este real ou imaginário, individual ou coletivo” (p.87). De acordo com o autor, a primeira pessoa (eu) e a
segunda (tu) estão implicadas no discurso, alternando constantemente os papéis de falante e ouvinte, em dependência de quem toma a palavra, enquanto a terceira pessoa, ao contrário, não representa um indivíduo instaurado no discurso. A terceira pessoa é nomeada por ele como a não pessoa, aquela que está ausente (BENVENISTE, 2005), está fora do eixo (eu-tu) e pode referir-se a qualquer coisa ou pessoa; ou seja, não há algo específico que determine a não pessoa. Considerando-se particularmente o processo de referenciação, entende-se que a terceira pessoa pode representar diferentes sujeitos do discurso (animais, objetos, indivíduos, etc), ou até mesmo representar casa fórica vazia (o zero – ᴓ), na qual se retoma o sujeito.
Diferentemente dos indicadores de pessoa eu e tu, o indicador de uma terceira pessoa, introduzindo, antecipando ou retomando um elemento do texto, contribui para manter a coesão textual, isso porque, ao contrário da primeira pessoa, a terceira pessoa, em princípio, representa um referente no texto. Enquanto a primeira e a segunda pessoas configuram a referenciação exofórica (referência a um interlocutor que pertence ao circuito de comunicação), a terceira pessoa configura a referenciação endofórica (referência a um elemento que pertence ao texto) (NEVES, 2011). O referente endofórico pode ter forma idêntica à do termo anterior, o que se caracterizaria como repetição (lembrando-se aqui que a não pessoa pode ser representada ora por nome próprio, ora por sintagma nominal, ora por pronome, ora por zero).
Quanto à temporalização, segundo Fiorin (1999), todos os tempos da língua são definidos pelo momento da enunciação, o agora, que ordena a categoria da concomitância x não concomitância, já que a sucessão de estados e/ou transformações instauradas no enunciado podem, ou não, respeitar a ordem natural dos acontecimentos, dependendo do propósito do falante. Isso quer dizer que o momento do acontecimento (MA), como mostra Fiorin (2003), pode ser concomitante com o momento da enunciação (ME), caso em que, o momento de referência (MR) é presente; ou pode não ser concomitante com o momento da enunciação, caso em que, o momento do acontecimento tanto pode ser anterior ao momento da enunciação (constituindo o MR pretérito) como pode ser posterior ao momento da enunciação (configurando o MR futuro) (FIORIN, 2003). Em qualquer modalidade de texto a configuração textual da ordem dos acontecimentos (concomitância x não concomitância) é essencial para o sentido do texto, e especialmente na criação de tramas, ela é determinante. Considere-se, ainda, que, nas tramas criadas para leitura infantil, ela há de ser particularmente relevante, considerada a necessária interpretabilidade. Pense-se, por exemplo, nos casos de atemporalidade da trama, em que ancoragem temporal é o simples “era uma vez”.
Ao contrário do que ocorre com as categorias de pessoa e de tempo, o espaço pode estar fora do enunciado. Essa categoria é marcada no texto por elementos (pronome demonstrativo, advérbio de lugar ou adjunto adnominal) que indicam o lugar no qual a cena enunciativa se realiza (FIORIN, 1999). Proposições de Neves (no prelo) mostram como esses elementos atuam em função dêitica, invocando como exemplo o uso dos demonstrativos que instauram no texto relações de proximidade ou de distância entre duas categorias de modo que se monte a coesão textual.
Os mecanismos de instauração de pessoas, espaços e tempos no enunciado, segundo Fiorin (1995), são dois: a debreagem e a embreagem. A primeira “é a operação em que a instância de enunciação disjungue de si e projeta para fora de si, no momento da discursivização, certos termos ligados a sua estrutura de base com vista à constituição dos elementos fundadores do enunciado, isto é, pessoa, espaço e tempo” (GREIMAS & COURTÉS, 1979, p. 79). Por outro lado, a embreagem é “o efeito de retorno à enunciação, produzido pela neutralização das categorias de pessoa e/ou espaço e/ou tempo, assim como pela denegação da instância do enunciado” (FIORIN, 1995, p. 29).
Obviamente esses mecanismos não são foco de análise neste trabalho, no entanto a verificação deles, em alguns dos textos selecionados para este estudo, pode direcionar um caminho para a análise dos efeitos de proximidade ou de distanciamento (por exemplo, a partir da mudança de voz do enunciador) bem como das implicações disso para a construção coesiva.
A enunciação pode ser construída ou reconstruída a partir das marcas que se espalham pelo discurso, pois é “nas estruturas discursivas que a enunciação mais se revela e onde mais facilmente se apreendem os valores sobre os quais ou para os quais o texto foi construído” (BARROS, 2005, p. 54). Segundo a autora, o discurso define-se simultaneamente como objeto produzido pelo sujeito e como objeto de comunicação entre o enunciador e o enunciatário.
Em geral, as marcas, os recursos ativados na produção do discurso servem também de meios de persuasão, utilizados pelo enunciador para produzir os efeitos de sentido necessários para convencer o enunciatário da “verdade” do seu texto. De acordo com Barros (2005), os dois principais efeitos de sentido produzidos pelo discurso são: o de proximidade ou distanciamento da enunciação e o de realidade.
As principais marcas do distanciamento da enunciação são o discurso em terceira pessoa (no tempo do então, no espaço do lá) e a objetividade (que produz efeito de verdade), enquanto as de proximidade são o discurso em primeira pessoa (aqui/agora) e a subjetividade
(BARROS, 2005). Na maioria das vezes, os efeitos de distanciamento e de proximidade alternam-se no mesmo enunciado.
Por outro lado, o efeito de realidade ocorre, em geral, quando há uma debreagem interna, por exemplo, quando as personagens ganham voz. Isso dá veracidade a suas falas e cria a ilusão de que elas são reais (BARROS, 2005). Como mostra a autora, os efeitos de realidade se concretizam por meio de procedimentos da semântica discursiva, denominados ancoragem. Trata-se de “atar o discurso a pessoas, espaços e datas que o receptor reconhece como ‘reais’ ou ‘existentes’, pelo procedimento semântico de concretizar cada vez mais os atores, os espaços e o tempo do discurso, preenchendo-os com traços sensoriais que os ‘iconizam’, os fazem ‘cópias da realidade’” (p. 60). Informar o horário no qual a cena se desenrola, a idade ou o nome da personagem são alguns dos recursos que ajudam a construir o efeito de realidade.
Tanto as marcas que configuram o efeito de proximidade quanto os recursos que configuram o efeito de realidade são constantemente observados em textos infantis. Na verdade, pode-se dizer que essas marcas são inerentes à quase totalidade dos textos dessa modalidade literária. Uma das razões pode estar no fato de o leitor infantil identificar-se com textos que trazem essas marcas, isso porque, para a criança, quanto maior o número de recursos que a aproxime do texto e a faça acreditar naquilo que está sendo contado, maior será o seu interesse pela trama.
Um exemplo de proximidade bastante comum pode ser verificado neste excerto retirado da última página da obra A coisa, de Ruth Rocha (1997a, p. 23, grifo desta pesquisadora), que é um dos textos selecionados para a proposta firmada nesta tese:
Cada um que descia as escadas, no escuro, via uma coisa diferente no espelho.
E todos eles pensavam que tinham visto... a Coisa A Coisa eram eles mesmos!
Não ria, não.
Você já reparou como um espelho no escuro é esquisito?
O enunciador em terceira pessoa instaura o interlocutor no texto, usando para isso o pronome de tratamento você. O uso do pronome além de aproximar o ouvinte da história e do próprio enunciador, pois vivifica a interlocução, convida-o não só a refletir como também a “soltar” a imaginação sobre as esquisitices de um espelho no escuro. Aliás, “o Espelho, na Literatura Infantil como na de adultos, tem sido o mais expressivo veículo de operações mágicas do subconsciente e do inconsciente, explorado como plano onde se refletem todos os conflitos do Eu” (CARVALHO, 1989, p. 71).
Além disso, nos textos infantis, comumente o enunciador, instaurado em primeira pessoa, acumula as funções de narrador e de personagem protagonista. Por outro lado, quando o enunciador/narrador é instaurado em terceira pessoa, o efeito de realidade evidencia-se não só pelo estabelecimento de diálogos entre os atores da enunciação como também pelo uso do nome próprio, que se repete comumente antes ou depois da fala.
Esses diálogos são fundamentais para o andamento do texto, no entanto, em uma proposta como a desta tese, que visa a verificar a construção referencial endofórica, eles são pouco aproveitados, pois neles, obviamente, instauram-se apenas a primeira e a segunda pessoas do discurso. No caso da análise endofórica, o que direciona o estudo do pesquisador é a investigação dos elementos fóricos (coesivos) usados pelo enunciador para introduzir ou retomar a não pessoa do discurso, que, no caso deste trabalho, configura-se como a personagem de quem se fala (terceira pessoa do discurso). O que ocorre é que o texto cujo enunciador é instaurado em terceira pessoa facilita a realização da averiguação, pois nele necessariamente está implicada a não pessoa, ou seja, o referente do discurso, enfim, as personagens das histórias.