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Julianne Nygård

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4 Empiri og deskriptiv analyse

4.3 Julianne Nygård

O TDAH pode ser considerado um assunto polêmico, devido, particularmente, à sua relevância e atual divulgação, o que favorece o aparecimento de questionamentos de várias ordens. Como já dito, esses questionamentos são de maior veiculação na mídia, mas também têm sido incorporados às pesquisas acadêmicas; exemplo disso, são as teses de Legnani (2003), de Lima (2005), de Costa (2006), de Mendonça (2006) e outros trabalhos que valorizam aspectos além dos descritos pela abordagem médica.

Todas essas teses acima citadas problematizam as certezas e os procedimentos da abordagem médica, ou seja, questionam o grande número de diagnósticos de disfunção orgânica e o processo de medicalização, nos quais fenômenos humanos complexos são reduzidos a categorias nosológicas. A tese de Legnani (2003) propõe uma visão psicanalítica da sintomatologia do TDAH, como expressão do inconsciente e como posição subjetiva. Lima (2005) tenta compreender a “epidemia” contemporânea do TDAH, desviando o olhar da fisiologia cerebral para a cultura atual, em sua tendência de reescrever as experiências humanas a partir dos padrões biológicos e corporais, permitindo, assim, que o TDAH se ingresse no registro das “bioidentidades”.

Costa (2006) aborda historicamente a criança indócil em sala de aula, enquadrada atualmente no diagnóstico de TDAH e para a qual a medicação é apontada como meio de

potencializar as condições de disciplinar a infância inquieta. Por fim, Mendonça (2006) observa como a forma atual de encaminhamento dos problemas escolares, na qual o diagnóstico de TDAH é predominante, teve sua raiz na primeira metade do século XX, na confluência do movimento de higiene mental e do movimento em prol da educação, tendo a psicanálise como recurso teórico.

Os especialistas têm divergentes opiniões sobre a existência ou não da doença, conforme ilustra um recente e midiático artigo da Revista Encontro (2006). Nesse artigo, enquanto Cunha, Belizário Filho, Diniz Neto e Carvalho asseguram a existência e o tratamento medicamentoso do TDAH, Salomon e Alkimim suspeitam da existência do transtorno e percebem tal sintomática como manifestação de um sofrimento. Beneti, contudo, assinala a impossibilidade de um consenso, já que estas posições, segundo ele, evidenciam formas opostas de escutar os fenômenos psíquicos (AYRES, 2006).

Na apresentação do livro “A inibição intelectual na psicanálise”, da autora Ana Lydia Santiago, Lajonquière (2005, p. 10) conta que, certa vez, ao ser interrogado em público sobre o famigerado “fracasso escolar”, respondeu a seguinte frase, para sua própria surpresa: “Ele existe, mas não acredito!”

Tomando de empréstimo a resposta do referido autor e deslocando-a para o TDAH, poderíamos pensar que tal transtorno “existe”, através da observação dos sintomas de hiperatividade, desatenção e/ou impulsividade existentes no atual cenário escolar; mas, ao mesmo tempo, questionar: é possível “acreditar” num diagnóstico que acomete tantas crianças e que busca categorizar um conjunto tão variável de sintomas, comportamentos e etiologias?

A polêmica e os questionamentos são frutos da ampla divulgação desse transtorno que, tornando-se globalizado, “destaca-se pela rapidez com que vem saltando dos ambientes médicos para outros recantos da vida cultural e social” (LIMA, 2005, p. 14). Isso se configura num processo de apropriação desse discurso da medicina psiquiátrica por outros grupos, viabilizando a construção de novas representações sobre o TDAH.

Particularmente a partir dos anos 1990, essa entidade nosológica passa a influenciar o raciocínio clínico de outros especialistas e torna-se presente no vocabulário cotidiano de pais, professores e outros adultos. Sua presença na mídia tem crescido constantemente. Best- sellers, cadernos de família, seções de saúde e comportamento de revistas e jornais, sites e grupos de ajuda, seriados de televisão, vídeos, são todos aparatos dessa divulgação (LIMA, 2005).

O termo hiperatividade, a roupagem conceitual mais popular do TDAH, nunca esteve tão evidenciado e divulgado, transformando-se até num significante atual de identificação:

“sou hiperativo?” ou “meu filho ou aluno é hiperativo?”. Surgem novos nomes para velhos problemas, como aponta Lima (2005):

Crianças anteriormente tidas como “peraltas”, “mal-educadas”, “indisciplinadas” ou “desmotivadas”,e adultos que se consideravam “desorganizados” e “irresponsáveis”, começam a ser tomados como acometidos por uma disfunção nos circuitos cerebrais, possivelmente de origem genética, que provoca uma deficiência ou inconstância na atenção e um excesso nos níveis de ação. (LIMA, 2005, p. 14).

Moscovici (1978, p. 24) nos ensina a reconhecer “que a propagação de uma ciência tem um caráter criador”, e que não pode ser percebido se nos limitarmos a interpretá-lo como distorção ou simplificação.

Mesmo com todo o apelo que o discurso médico direciona à população de pais, educadores e leigos, referindo-se à distorção da cientificidade trazida por outras representações ou interpretações do fenômeno TDAH, essas apresentam-se de formas diversas, sendo relevante citar algumas delas.

Inicia-se pela interpretação divulgada pelo discurso médico e intitulada científica, já explorada ao longo deste capítulo. Essa interpretação situa-se no campo do saber neuropsiquiátrico. Observa-se uma vasta investigação norte-americana, num rastrear científico, na tentativa de confirmar a causalidade orgânica do TDAH, revelando todo um exercício laborativo para que este possa se afirmar como entidade nosológica merecedora de tratamento específico farmacológico. Russel A. Barkley, George J. DuPaul, Sam Goldsteins e Michael Golsdtein são alguns dos representantes americanos dessa interpretação e Luís Augusto Rohde, Paulo Mattos, Giuseppe Pastura são alguns dos representantes brasileiros.

Ainda numa abordagem neuropsiquiátrica, mas diferente do ponto de vista anterior no qual o TDAH é visto na esfera do patológico, alguns autores percebem o transtorno como um “tipo de funcionamento mental específico”, “um jeito de ser”, como que um traço de personalidade saindo da esfera da doença, como retrata o livro “Mentes inquietas”, de Ana Beatriz B. Silva (2003). Também para Hallowell (1999, p. 11), o transtorno não se situa totalmente no domínio da patologia; ele é visto pelo autor “não apenas como entidade diagnóstica, mas como um estilo de vida”.

Numa abordagem psicossocial, outros teóricos evidenciam a “hiperatividade” como um “modo de vida” das novas gerações, marcadas por crianças que, desde muito cedo, são expostas a uma vasta gama de estímulos, à excitabilidade, à ansiedade e ao estresse, transmitidos através dos recursos tecnológicos e da exigência capitalista de competitividade. Seria o que Augusto Cury (2003) nomeia como “hiperatividade não genética”. Essa é uma

interpretação do fenômeno TDAH em relação à qual Barkley (2002) aconselha os pais a serem céticos:

Os pais precisam estar cientes de toda essa sorte de avanços para que consigam compreender melhor o problema e responder a críticos cientificamente iletrados que continuam insistindo que o TDAH advém de causas como dedicação insuficiente dos pais, dietas pobres ou tempo excessivo diante da TV (BARKLEY, 2002, p. 12).

Barkley (2002) faz também uma crítica à crítica de um renomado colunista americano, George Will, que manifestou suas dúvidas sobre a existência do transtorno, evidenciando o excesso de diagnóstico e apostando que uma melhor disciplina em casa e na escola, e não medicamento, resolveria o problema.

Lima (2005, p. 16) aconselha “desviar por um momento nosso olhar da fisiologia cerebral e mirar a cultura atual”. A pesquisa desse autor busca entender o TDAH “sem desprezar a influência do contexto cultural, político e econômico atuais na produção dessa categoria diagnóstica, em sua rápida disseminação por amplos estratos da sociedade e em seu impacto nos sujeitos e em suas identidades” (LIMA, 2005, p. 21).

Os teóricos que contextualizam o TDAH no tempo e no espaço apontam para uma época em que ter atenção difusa e ser “hiper-ativo” é condição de adaptação e até, num extremo, de sobrevivência.

Uma interpretação espiritualizada sobre a sintomatologia do TDAH é apresentada por Carroll & Tober (2005), em seu livro “Crianças índigo”, especificado na seção de “auto- ajuda” e considerado best-seller nos Estados Unidos. O livro fala de uma nova geração de crianças com características psicológicas incomuns e um padrão de comportamento diferenciado, que, se bem conduzidas, serão os futuros líderes desse mundo em transformação. Essas mesmas crianças são, por vezes, diagnosticadas erroneamente como portadoras do TDAH. Os autores trazem questionamentos sobre o diagnóstico de TDAH e sobre uso de medicamento (Ritalina®), propondo maneiras bem alternativas de tratamento.

O senso comum diz do “não educável”, sendo a prescrição uma firme e coerente imposição de limites. Ao analisar um caso, Corredato e Brogio (2003) descrevem que a falta de limites de uma criança pode ser, erroneamente, nomeada de hiperatividade. O que se tem percebido é uma incorporação ao senso comum de um discurso dito científico. Assim, as crianças chamadas anteriormente de “indisciplinadas”, “indóceis”, “mal-criadas”, agora, são nomeadas de hiperativas ou portadoras do TDAH.

Observa-se, assim, “um caráter criador” fruto da difusão de uma dita ciência, alastrando-se sob representações variadas de grupos específicos. Essas representações se produzem contextualizadas por um tempo e um espaço. No caso do TDAH, o momento atual e o espaço educacional são contextualizações importantes.

Mesmo com um histórico remoto, o TDAH reafirma-se, na atualidade, como patologia em coerência com sua época, assim como também ocorre com outras “ditas” patologias que têm como cenário a escola.

Segundo Cordié (1996, p. 15), “cada época produz suas patologias”, pois a evolução da sociedade favorece o nascimento de novas patologias e o sujeito encontra novas formas de expressar seu sofrimento, na esperança de ser mais bem ouvido. Dessa forma, ainda segundo a autora, patologias no âmbito escolar – ela se refere, nesse caso, ao fracasso escolar – começaram a surgir com a instauração da escolaridade obrigatória no fim do século XIX, em conseqüência da transformação radical da sociedade cada vez mais tecnicizada, assumindo posição considerável nas preocupações de nossos contemporâneos.

Não é difícil, nos dias de hoje, observar os sintomas do TDAH. Geralmente, estes encontram, no cenário escolar, suas maiores manifestações, sendo possível, pelos critérios do DSM IV e pelas queixas dos professores e pais, rapidamente diagnosticar uma criança com o transtorno. Além disso, pode-se observar também a forte relação dos sintomas do TDAH com o “fracasso escolar” e com os “desvios de comportamento”, ambos tão comuns no atual contexto escolar. A escola vem enfrentando uma crise em sua condição de instituição, crise essa manifestada pelos mais variados problemas comportamentais, tais como: a indisciplina, o desinteresse, o não reconhecimento de autoridade e a agressividade ou violência.

Em meio a esse cenário, a escola atualmente se vê pressionada a responder sobre o TDAH, o que exige, por parte dos profissionais inseridos nesse contexto, um posicionamento. O próximo capítulo busca compreender a relação do TDAH com a escola, ou seja, como o discurso médico do TDAH tem se difundido neste espaço e qual a implicação dos educadores diante desse discurso.

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