A sequência sedimentar paleozoica da região de Mação foi revista recentemente por Romão (2000) e, corresponde à sequência descrita na folha 28A da Carta Geológica de Portugal à escala 1:50 000. O texto apresentado neste subcapítulo irá incluir as designações formais definidas nesse trabalho (Romão, 2000), sendo apenas realizada uma sucinta descrição dos grupos e das formações estabelecidas (tab. 2.2). Não será feita referência aos membros estratigráficos definidos, exceto quando se justifique.
Os sedimentos do Grupo Vale do Grou (Romão, 2000), que se encontram em discordância estratigráfica sobre os sedimentos do Grupo das Beiras, correspondem à base da sequência pós-câmbrica. Este grupo, da base para o topo, é constituído por uma sucessão detrítica que se inicia por possantes bancadas conglomerático-areníticas (Formação Ribeira do Ameal), que passam a bancadas areníticas intercaladas por níveis laminados de silto-arenitos e arenitos finos (Formação Vale dos Massos). Termina, a topo, com bancadas de arenitos arcósicos, onde se verificam intercalações por níveis de siltitos e pelitos de cor cinzenta a negra (Formação Pedreira do Ameal) (Ribeiro et al., 1991; Romão, 2000; Vaz, 2010). Limitado por discordâncias (Ribeiro et al., 1991; Romão, 2000), a este grupo tem sido atribuída a idade de Tremadociano, embora este dado não esteja confirmado por dados biostratigráficos, apenas por correlações estratigráficas estabelecidas (Oliveira et al., 1992a; Romão, 2000). Esta formação é correlacionável lateralmente, com a Formação Sarnelha, no Buçaco (Oliveira et
al., 1992a; Romão, 2000).
Na sequência segue-se estratigraficamente a Formação Quartzito Armoricano, que se correlaciona lateralmente com a formação com o mesmo nome na região do Buçaco e, com a Formação Serra do Brejo, em Dornes. Esta formação é constituída por conglomerados, arenitos arcósicos, arenitos, siltitos micáceos laminados, siltitos e, um nível de ferro muito alterado. Apresenta níveis bioturbados, bancadas amalgamadas e estratificação entrecruzada (Romão, 2000; Vaz, 2010). A presença de icnofósseis nesta unidade (Delgado, 1908; Romano, 1982; Romão, 2000) permite datá-la do Arenigiano.
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A topo da Formação Quartzito Armoricano encontram-se depositados os sedimentos correspondentes ao Grupo de Cácemes (Young 1985, 1988). Na sua base o grupo de Cácemes apresenta uma descontinuidade erosiva e, tal como nas regiões anteriores (tab 2.2), é constituído pela Formação Brejo Fundeiro (Cooper, 1980), correlacionável lateralmente com as formações homónimas nas regiões do Buçaco e Dornes. Esta formação apresenta, na sua base, um nível microconglomerático rico em lumachelas e braquiópodes e, a unidade continua para topo, com siltitos intercalados em arenitos finos, pelitos, pelitos negros e microconglomerados (Romão, 2000; Vaz, 2010). Nesta formação é possível observar-se bioturbação, oólitos de ferro e concentrações de minerais de ferro e fosfatos (Romão, 2000; Vaz, 2010). Os diferentes grupos fósseis presentes (artrópodes, braquiópodes, lamelibrânquios, celenterados, graptólitos e quitinozoários) permitiram datar a unidade do Oretaniano inferior a Dobrotiviano inferior (Delgado, 1908; Cooper, 1980; Romão, 2000; Vaz, 2010).
Em continuidade na sequência depositaram-se os sedimentos da Formação Monte da Sombadeira (Cooper, 1980), correlativa lateral das formações homónimas presentes na região do Buçaco e Dornes. Esta formação é constituída por arenitos laminados, intercalados por níveis pelíticos e siltíticos, com bancada quartzíticas a topo (Romão, 2000; Vaz, 2010). Nesta sequência é possível observarem-se estruturas sedimentares como, estratificação entrecruzada do tipo hummocky. A presença de trilobites, braquiópodes, moluscos e ostracodes, permitiu datar a unidade do Dobrotiviano inferior (Delgado, 1908; Cooper, 1980; Gutiérrez-Marco et
al., 1990; Romão, 2000; Vaz, 2010).
Os sedimentos da Formação Fonte da Horta (Young, 1985, 1988) depositaram-se em continuidade estratigráfica sobre a Formação Monte da Sombadeira. Correlacionável com as formações com o mesmo nome descritas para Dornes e Buçaco, esta formação é constituída por pelitos negros fossilíferos intercalados com siltitos e raros níveis de arenitos impuros e microconglomerados (Romão, 2000; Vaz, 2010). Corresponde a uma unidade abundante em fósseis, encontrando-se representados diversos grupos (e.g. braquiópodes, graptólitos, trilobites e quitinozoários) que permitiram datar a unidade da parte superior do Dobrotiviano inferior à parte inferior do Dobrotiviano superior (Cooper, 1980; Young, 1985, 1988; Gutiérrez-Marco et al., 1995, Vaz, 2010).
Na sequência segue-se estratigraficamente a Formação Ribeira de Casalinho (Romão, 2000). Esta nova formação, definida por Romão (2000), pertence ao Grupo de Cácemes e resulta da junção das Formações Cabril e Carregueira, para esta região.
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Romão (2000) estabeleceu dois membros nesta formação: Membro Cabril e Membro Carregueira que equivalem, respetivamente, às Formações Cabril e Carregueira presentes na região do Buçaco e de Dornes.
A Formação Ribeira do Casalinho é formada por níveis de arenitos impuros laminados, intercalados com siltitos micáceos e pelitos maciços ou laminados. As bancadas areníticas podem apresentar estratificação entrecruzada do tipo hummocky. Entre ambos os membros (Membro Cabril e Membro Carregueira) verifica-se a presença de um nível conglomerático com clastos de material frequentemente fosfatado e remobilizado, sendo que, a topo do Membro Cabril se observa a existência de uma superfície erosiva (Romão, 2000; Vaz, 2010). A Formação Ribeira do Casalinho é rica do ponto de vista fossilífero, tendo sido identificadas trilobites, moluscos, braquiópodes, ostracodes, briozoários, crinóides, icnofósseis e quitinozoários (Vaz, 2010). Com base neste conteúdo fóssil foi possível datar o Membro Cabril do Dobrotiviano superior (Romão, 2000) e, o Membro Carregueira do Dobrotiviano inferior ao Berouniano inferior (Romão et al., 1995; Vaz, 2010).
Estratigraficamente a topo da Formação Ribeira do Casalinho depositaram-se os sedimentos da Formação Cabeço do Peão (Young, 1985, 1988), única unidade constituinte do Grupo da Sanguinheira (Young, 1985, 1988) e, correlativa lateral da Formação Louredo, na região do Buçaco, assim como, da formação com o mesmo nome na região de Dornes. Esta formação possui na base um nível de ferro oolítico (Camada do Favaçal), observado nas outras duas regiões, ao qual se sobrepõem pelitos micáceos e níveis silto-areníticos bioturbados com intercalações de arenitos, sendo que, para o topo se tornam mais ferruginosos (Romão, 2000; Vaz, 2010). A presença de trilobites, braquiópodes, briozoários, equinodermes e quitinozoários permitiram datar esta unidade do Berouniano (Delgado, 1908; Cooper, 1980; Romano, 1991; Romano e Henry, 1982; Young, 1985, 1988; Vaz, 2010).
Na sequência da região de Mação foi definido, a topo da Formação Cabeço do Peão, o Grupo do Rio Ceira (Young, 1985, 1988), composto pela Formação de Ribeira da Lage (Young, 1985, 1988), correlativa lateral da formação homónima presente na região de Dornes. Por sua vez, na região do Buçaco, a parte inferior desta formação correlaciona-se lateralmente com a Formação Ribeira do Braçal.
A Formação Ribeira da Lage, nesta região, é constituída por pelitos, níveis silto-areníticos bioturbados e bancadas areníticas com estratificação entrecruzada do tipo hummocky, terminando com arenitos maciços (Young, 1985, 1988; Romão, 2000). Essencialmente por correlação estratigráfica com o Buçaco e, devido ao escasso conteúdo fossilífero (braquiópodes), esta unidade foi datada do Kosoviano. No entanto, Vaz (2010) com recurso a
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quitinozários, conseguiu identificar a Biozona Euconochitina tanvillensis na base desta formação, o que indica uma idade de Berouniano superior. Este autor verifica, desta forma, a existência de uma possível continuidade cronostratigráfica entre a base desta formação e a unidade subjacente, Formação Cabeço do Peão. Esta unidade pode ter, assim, uma idade compreendida entre o Berouniano superior e o Kosoviano (Vaz, 2010).
A Formação Casal Carvalhal (Young 1985, 1988), correlacionável lateralmente com as formações homónimas na região do Buçaco e de Dornes, encontra-se a topo da Formação de Ribeira da Lage e, é constituída por pelitos maciços com fragmentos, com aspeto esferoidal, siltitos e arenitos, que a topo podem evidenciar slumps (Romão, 2000; Vaz, 2010). A idade desta unidade é atribuída com base em correlações estabelecidas com sequências similares a nível europeu, que permitiram datá-la do Kosoviano (Vaz, 2010).
Os sedimentos da Formação Vale da Ursa (Young 1985, 1988) depositaram-se em sequência estratigráfica, sobre os sedimentos constituintes da Formação Casal Carvalhal. Esta unidade é formada por bancadas quartzíticas e níveis areníticos micáceos, seguidos de arenitos com nódulos de marcassite e arenitos negros laminados e bioturbados, a topo da sequência (Romão, 2000, Vaz, 2010). Correlaciona-se lateralmente com as formações com o mesmo nome, da região do Buçaco e de Dornes. Com base no seu conteúdo fossilífero (graptólitos), os níveis do topo da sucessão foram datados do Aeroniano (Llandovery médio) por Piçarra (2007), enquanto à base da sucessão é atribuída uma idade provável de Rhuddaniano (Llandovery inferior) (Young, 1985, 1988).
Estratigraficamente a topo na sequência encontra-se a Formação Aboboreira (Romão et al., 1998; Romão, 2000) que, segundo Romão (2000), é correlativa lateral da parte inferior da Formação Foz da Sertã, no sinclinal de Dornes. Esta formação é constituída por pelitos negros grafitosos laminados, com a presença de um nível de ferro oolítico fosfatado a topo (Romão, 2000; Vaz, 2010). No entanto, a unidade apresenta braquiópodes, briozoários e graptólitos, sendo que, estes últimos permitiram a identificação de biozonas na base e a topo da formação, indicando uma idade compreendida entre o Aeroniano (Llandovery médio) e o Gorstiano médio (Ludlow inferior) para esta região (Piçarra, 2007), o que implica uma correlação não só com os níveis inferiores da Formação Foz da Sertã, como com quase toda a formação (tab. 2.2).
A topo da formação anterior depositaram-se os sedimentos constituintes da Formação Castelo (Romão et al., 1998; Romão, 2000). Segundo Romão (2000), esta formação é correlacionável com a parte intermédia, da Formação Foz da Sertã, na região de Dornes. A unidade carateriza-se por apresentar pelitos cinzentos a negros, níveis finos de siltitos
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micáceos, níveis lenticulares de calcarenitos e, bancadas areníticas (Romão, 2000; Vaz, 2010). Esta formação foi datada com recurso a quitinozoários (Vaz, 2010), tendo sido identificadas as biozonas A. elongata e E. phillipi, que permitiram obter uma idade compreendida entre a parte superior do Gorstiano e a parte inferior do Ludfordiano (Ludlow superior) (Vaz et al., 2010; Vaz, 2010). Mais uma vez, os novos dados biostratigráficos implicam uma correlação não com a parte intermédia, mas com os níveis superiores da Formação Foz da Sertã (tab. 2.2).
Os sedimentos da Formação Chão Lopes (Romão et al., 1998; Romão, 2000) seguem-se estratigraficamente na sequência. Segundo Romão (2000), a formação correlaciona-se com os níveis superiores da Formação Foz da Sertã, em Dornes. Formada por pelitos escuros laminados, por vezes carbonosos, nesta unidade também se observam raras intercalações de siltitos muito finos e claros, assim como, pirite e nódulos fosfatados e argilo-siliciosos contendo fósseis (Romão, 2000; Vaz, 2010). Esta formação possui um abundante conteúdo fossilífero, contendo ortocones, gastrópodes, braquiópodes, ostracodes, heliolites, graptólitos e quitinozoários (Romão, 2000; Vaz, 2010). Os quitinozoários identificados por Vaz et al. (2010) e Vaz (2010) indicam uma idade de Pridoli para esta unidade, o que está de acordo com a idade estabelecida para o topo desta formação por Romão (2000). Ainda, nesse mesmo estudo (Vaz, 2010), é feita referência a uma comunicação oral realizada por Piçarra (2010), onde não se exclui a possibilidade de os níveis intermédios da unidade pertencerem ao Ludlow superior (datação com base em graptólitos). Desta forma e, tendo em conta os dados biostratigráficos apenas, a Formação Chão Lopes passa a correlacionar-se com a Formação Vale do Serrão (tab. 2.2).
A sequência paleozoica da região de Mação termina com a deposição, em descontinuidade, dos sedimentos pertencentes à Formação Bando dos Santos (Romão et al., 1998; Romão, 2000). A unidade é constituída por pelitos e siltitos intercalados por bancadas areníticas, por vezes, bioturbadas (Romão, 2000; Vaz, 2010). Esta formação é rica em macrofauna (e.g. trilobite, braquiópodes, gastrópodes, briozoários, graptólitos) e icnofósseis, que permitiram datar a unidade com uma idade compreendida entre o Pridoli (Piçarra e Romão, 2011) e o Lochkoviano (Romão, 2000). Tendo em conta o recente trabalho de Piçarra e Romão (2011), precisa-se a base desta formação do Pridoli inferior (graptólito da Biozona de
Neocolonograptus parultimus), o que poderá indicar a necessidade de se rever as correlações
laterais existentes, nomeadamente, na região de Dornes. A necessidade de revisão das correlações laterais estende-se à sequência silúrica, principalmente tendo em conta os novos
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dados biostratigráficos que se têm vindo a publicar na última década, muitos dos quais, acima citados.