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5. RESULTAT – KVALITATIV STUDIE

5.6. JOSTEIN VIK OG GRO FOLLO

Entre os jovens de percursos militantes mais longos, é possível observar mais claramente oscilações no investimento militante – que também se apresentará entre os jovens de percursos mais recentes, mas de maneira menos intensa. Ademir pode ser apontado como um exemplo típico de variações de intensidade no investimento militante, variações determinadas pela passagem de um momento do ciclo escolar para outro, por necessidade de reorientação da militância e devido à troca de partido. O jovem afirmou que militou de maneira muito intensa ao longo do ensino fundamental e dos dois primeiros do ensino médio, foi presidente do grêmio de sua escola, presidiu associação municipal de estudantes secundaristas, foi um dos líderes das mobilizações estudantis que garantiram o direito ao Passe-Livre para estudantes no ano de 2002, entre outros feitos. Mas, ao iniciar o 3º ano do ensino médio, disse que avisou a todos os companheiros de militância que precisava se afastar temporariamente das atividades, para se dedicar aos estudos para o vestibular. Ademir disse que o acordo estabelecido com seus pais, que permitiu que ele militasse de maneira tão intensa, sem objeções familiares, era de que não prejudicaria os estudos; para cumprir sua parte no acordo, precisava garantir a aprovação no vestibular e, para isso, precisava de tempo para estudar. Ademir não se desengajou, apenas transferiu algumas de suas responsabilidades para outros militantes e reduziu a frequência a reuniões e outras atividades do partido, mas manteve-se informado sobre as pautas, conquistas e tensões do movimento estudantil e de seu partido. O esforço foi recompensado pela aprovação no vestibular, mas seguiu-se a crise no PT e ele acabou mudando de partido.

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A entrada na universidade e a mudança de partido ocorreram no mesmo período, o que implicou em duas mudanças significativas de rotinas. Engajar-se em um partido novo significou um recomeço para todos os militantes, e recomeçar pode ser instigante, por trazer novos desafios, mas, pelo mesmo motivo, pode ser um tanto desanimador. A mudança do movimento estudantil secundarista para o universitário também traz modificações que foram claramente marcadas por Ademir72.

É... e aí... aí começa um trabalho de recomeçar militar no ambiente universitário, é diferente do ambiente secundarista. Eu demorei para entender que era diferente, que o ambiente secundarista é muito mais politizado, é muito melhor. É muito mais interessante fazer política no... é um troço extremamente interessante, sabe? As pessoas ficam [gesto que indica falatório] a qualidade das discussões, sabe? Todo mundo da universidade acha que sabe tudo de política, que entende, que é politizado. Arrogância é um troço... todo mundo já... as pessoas são informadas, elas não são politizadas, sabe? Elas leem jornal todo dia e acham que podem ter opinião para tudo, o secundarista é um menino desinformado, mas ele tem decisões muito mais... até porque ele usa como referencial mais a realidade dele, né? E não o mundo de informações que existem. Então, acaba que é um troço muito melhor para fazer política, é muito mais honesto [no movimento secundarista]. (Ademir, PSOL)

O ritmo de atividades militantes reduziu significativamente; segundo Ademir, devido à falta de estrutura, organização e capacidade de ação de um partido que estava ainda em construção. Passado um ano, porém, em nova entrevista, Ademir tinha encontrado novas formas de realizar sua militância no partido, ainda através do movimento estudantil73. Estava, assim, aumentando o seu investimento na militância, que tinha se reduzido durante algum tempo, redução determinada por razões pessoais, num primeiro momento, e depois, por questões conjunturais do partido. O “desânimo” do jovem ficou mais claro quando se comparou o modo de falar sobre sua militância na primeira entrevista e na segunda entrevista. Ao vê-lo falando animadamente sobre seus feitos militantes na segunda entrevista – ocorrida um ano depois da primeira –, questionei-o sobre o fato de parecer, naquele momento, muito mais animado do que na primeira vez:

Isso é verdade. Mas aí teve um amadurecimento nesses seis meses mesmo, porque essas coisas são muito doidas. Você vive uma experiência assim

72 Jovens como Julião e Luciano também relataram diferenças entre o movimento estudantil secundarista e o uiversitário, seguindo mais ou menos os mesmos argumentos de Ademir.

73 Os espaços de engajamento serão mais bem apresentados no capítulo seguinte; aqui estão em questão, apenas, as variações de intensidade e investimento no engajamento.

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durante um tempo, uma experiência militante, mas até você digerir ela toda e conseguir, do que você viveu, elaborar uma teoria que você possa transformá-la em algo que não é só seu, mas algo que é pro conjunto da sua organização, do movimento... isso leva um tempo. E eu acho que foi isso que a gente viveu durante um tempo, a gente viveu essas experiências e tal. Mudo os eixos pra cá [para a universidade]… essa mudança dos eixos na atuação, eles são mais recentes, o que dá uma animada mesmo e tal, você consegue enxergar uma perspectiva militante. (Ademir, PSOL)

Guinevere é a única, entre todos os militantes entrevistados, que estava com seu investimento militante no partido em baixa. No mercado de Guinevere, as ações do partido estavam em queda, se desvalorizavam. Depois de alguns desgostos e decepções com colegas de militância partidária, ela questionava se realmente havia vantagens na militância partidária.

A jovem esteve vinculada a uma determinada corrente do partido e trabalhou na campanha eleitoral de um candidato a vereador dessa corrente.

Como eu já tinha falado anteriormente com você, eu me decepcionei mesmo com as pessoas que eram meus companheiros, sabe? Que não valorizam realmente o trabalho das mulheres, sabe? Eu tive momentos horrorosos, fiquei assim... momentos horríveis, não de política, mas a nível pessoal que foram... que eu não tive ajuda de ninguém, sabe? As pessoas pareciam que quando precisavam de você precisavam, mas... quando você não era mais útil... (Guinevere, PT)

Guinevere alegou que ficou em situação financeira difícil depois de trabalhar para a campanha e não receber nada por isso. É por esta razão que afirmou não haver problemas políticos, mas pessoais. Ela se sentiu abandonada pelo grupo com o qual militava, em um momento em que precisava de apoio. Com isso, desligou-se da corrente e se mantinha independente, tendo reduzido drasticamente sua participação no partido.

Mas, mesmo tendo afirmado estar decepcionada com seu grupo, continua acreditando na força transformadora dos partidos, e é daí que vem sua “crise militante”. Perdeu seu grupo no partido, mas não perdeu suas convicções sobre o papel dos partidos. Sua militância na ONG fez com que elaborasse alguns projetos de lei, que estava apresentando a vereadores do partido. Essa era uma das razões de seu investimento partidário, pois considerava que era desde os partidos que mudanças mais significativas na sociedade poderiam ser alcançadas – mudanças que passavam pela elaboração de leis que poderiam alterar a cultura local.

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Por isso é bacana você passar esse momento, essa força do Partido, digamos assim, pra você ver quem está do seu lado e quem não está. Realmente, o Partido, às vezes, ele oferece esse meio de você militar mais, de você ter mais o aparelho, mas, em compensação, você está reunindo ali pessoas que não estão ali às vezes por um ideal, mas estão ali por um objetivozinho de asfaltar sua ruazinha, ali onde sua casa fica, entendeu? ...de conseguir um jogo de uniforme de futebol pro seu time, mas não... Eu acho que fazer por amor, eu acho muito mais legal. (Guinevere, PT)

São dois relatos de variações de investimento militante que apontam para razões bastante distintas. As variações de investimento de Ademir se relacionaram com o momento do ciclo escolar (transição do ensino básico para a universidade) e com a mudança de um partido bem estruturado para um partido recém-criado. Guinevere, por sua vez, relatou variações de investimento que se relacionaram com suas experiências com o grupo de militantes e suas práticas de engajamento, que envolveram tanto um partido quanto uma ONG de luta pelos direitos dos homossexuais. Ambas tem reflexos na relação do militante com seu núcleo de engajamento. Ademir obteve apoio de seus colegas para seu afastamento, notadamente porque era temporário e porque seus companheiros confiavam que o jovem retomaria suas atividades assim que suas demandas pessoais estivessem atendidas – realização das provas de vestibular. Guinevere queria contar com o apoio dos seus companheiros de militância, mas, ao contrário, se sentiu desprestigiada e sem suporte dos colegas.

Entre os jovens de militância mais recente, as variações de investimento não são tão perceptíveis, suas trajetórias são marcadas por maior equilíbrio, de baixo, mediano ou grande investimento ou por trajetórias ascendentes de investimento.

Welington foi entrevistado em três momentos diferentes e seu investimento militante pode ser observado não apenas pelas narrativas sobre o passado, mas por 3 narrativas do presente. Foi o jovem que deixou transparecer maiores variações entre os 3 momentos observados, mas sempre num nível mediano de investimento. Na primeira entrevista, descrevia suas atividades militantes dizendo que participava de reuniões do núcleo de sua universidade, ajudava a fazer e reproduzir documentos, eventualmente passava em salas de aula para eleger delagados para congressos e conferências estudantis e, o mais empolgante de tudo, viajava para congressos e conferências estudantis. A circulação por lugares nunca antes frequentados parecia ser um grande atrativo para o jovem. Mas esse cenário se modificou na segunda entrevista, quando ele disse que já não aguentava mais viajar, porque tinha viajado a infância toda: “eu já viajei a minha infância toda, não quero mais viajar”. As viagens da infância eram em função de mudanças, ocorridas, entre outras razões, em função de possibilidades de trabalho do pai. Se

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na primeira entrevista as viagens foram apresentadas como algo interessante e como possibilidades de conhecer novos lugares, na segunda já pareciam algo um pouco tedioso. Na segunda entrevista ele estava responsável por mais tarefas do partido, estava mais envolvido e com mais responsabilidades. Se, por um lado, isso implicava em um investimento maior e era sinal de seu envolvimento, por outro, parecia estar incomodando um pouco ao jovem: as viagens já não eram mais apenas para participar, mas para organizar, era responsável por acompanhar militantes mais recentes que ele, assim como ocorria com ele no ano anterior. Disse, entre risos, que “porque antes eu ia me divertir, né? Não tinha nada pra fazer. Agora, tem que fazer as coisas”.

Ou seja, de jovem militante que ainda precisa ser orientado e participa das atividades quase como um ouvinte, ele passou a ser o jovem que orienta e acompanha os novatos. Na terceira entrevista, mais um ano passado e Welington continuava com o trabalho de recrutar e orientar novatos no partido, mas já parecia completamente adaptado à tarefa e estava gostando dela. Roberto chama a atenção pelo grande investimento feito na militância. Em pouco tempo de engajamento ele já falava como um militante de longa jornada. Narrou, ao longo da entrevista, inúmeros acontecimentos e fatos relevantes do partido, como se tivessem sido vividos por ele. Parecia tão envolvido pelas histórias que foi preciso certificar-me se ele falava de uma experiência vivida por ele – o que parecia improvável, pelas datas e idade do jovem - ou se era a história que ele tinha aprendido no convívio com seus pares de militância e nas leituras de documentos históricos. Estava engajado no PSOL havia apenas 2 anos – o menor tempo de militância, depois de Antônia –, mas dominava as dinâmicas do partido muito mais do que outros jovens de militância mais longeva. Era um jovem articulado e parecia estar sendo preparado para suceder as lideranças do partido no movimento estudantil que estavam para se graduar74.

Depreende-se, dos percursos desses 4 jovens, que o investimento e a intensidade da militância dependem de fatores internos e externos ao partido. As dinâmicas partidárias estimulam mais ou menos cada militante e suas dinâmicas pessoais também interferem nesse processo. Guinevere parecia a ponto de se desengajar, mas mantinha a percepção de que os partidos políticos eram um instrumento importante de garantia de conquistas sociais e, por isso, continuava filiada. Ela pensava em se associar a outra corrente, já analisava possibilidades,

74 Entrevista realizada com outro militante do PSOL, que estava justamente se preparando para deixar o ME, porque se aproximava a conclusão do curso, revelou que esse era, de fato, o plano do partido.

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mas parecia querer “dar um tempo” para elaborar a frustração, antes de encontrar uma nova turma de militância partidária. Ademir oscilou mais em seus investimentos, levado por questões pessoais. Welington oscilou menos, mas suas variações também se relacionavam com questões pessoais. A diferença de Welington para Ademir é que as questões pessoais de Welington se associavam diretamente à dinâmica do partido: falta de vontade de viajar e necessidade de fazê-lo, por ser tarefa do partido, é um exemplo da articulação de vontade pessoal e demanda partidária.

As mulheres merecem, contudo, uma análise à parte. Guinevere destaca-se por uma razão peculiar de variações de investimento, como vimos acima, e Antônia ainda tinha engajamento muito recente, mas as demais mulheres podem ser agrupadas em jovens de alto investimento militante e jovens mães de baixo investimento. As jovens que não são mães têm, todas, grande investimento na militância. São elas: Denise, Cíntia, Joana, Fernanda e Núbia. As jovens de menor investimento são: Tamara, Marina e Poliana. A maternidade reduziu, necessariamente, o tempo disponível para a militância, assim como reduziu também a disponibilidade para os estudos. Todas as jovens mães atrasaram a conclusão dos estudos devido ao nascimento dos filhos. As questões de gênero e as consequências da maternidade na militância serão aprofundadas no próximo caítulo, mas aqui vale chamar a atenção para o fato de que apenas as mulheres mães têm militância de menor intensidade. Os homens têm intensidades variadas de militância, por razões diversas, mas, entre as mulheres, a maternidade aparece como único determinante de menores investimentos – com as exceções de Guinevere e Antônia.