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4.3.1 O universo da pesquisa

Até dezembro de 2003, dados epidemiológicos indicavam a existência de 8.900 casos de Aids por transmissão vertical no Brasil (BRASIL, 2003). Segundo a Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal, no ano de 2003 havia, em registro ativo, aproximadamente 120 casos de AIDS e de portadores do HIV em adolescentes com até 19 anos de idade. E quase a totalidade desses casos havia sido infectada por transmissão vertical.

O grupo selecionado para o processo de investigação foi constituído por 12 adolescentes que são atendidos no serviço especializado em DST/AIDS, de uma Regional de Saúde de referência no Distrito Federal em um grupo constituído por 17 adolescentes. Um deles foi a óbito, outro estava com câncer e outros três rejeitaram serem participantes. A coleta de dados realizou-se no período de junho de 2007 a janeiro de 2008.

Bauer e Gaskell (2002: 71) descrevem que, nas entrevistas, há um número limitado de interpretações da realidade. E, embora as experiências possam parecer únicas ao indivíduo, as representações de tais experiências não surgem das mentes individuais; em alguma medida, elas são os resultados de processos sociais. Essa concepção pode ser verificada pelo pesquisador, que, ao longo das análises das entrevistas, vai percebendo que as representações e os temas passam a ser comum aos participantes da pesquisa. Ou seja, eles começam a se repetir. Em relação ao tamanho do corpo do texto a ser analisado, ele não pode ser muito extenso, uma vez que, caso o pesquisador se lembre de detalhes emocionais, ambientais e de temas-chave de cada entrevista, estará em melhores condições de descrever e perceber globalmente as situações investigadas.

Os critérios de inclusão para o estudo foram os seguintes: ser adolescente, independente do sexo, portador do vírus HIV adquirido por

transmissão vertical, ter o diagnóstico confirmado de infecção HIV e estar em atendimento no Centro de Saúde de referência em DST/AIDS de uma regional de saúde do DF. Os critérios de exclusão foram: não ter sido infectado por transmissão vertical, não aceitar participar da pesquisa.

4.3.2 Instrumentos utilizados e a realização das entrevistas

Para a coleta dos dados, utilizaram-se dois instrumentos. O primeiro deles foi um roteiro que continha questões fechadas relacionadas aos dados sociodemográficos e foi aplicado ao início da entrevista pela pesquisadora (Apêndice A). O segundo foi um roteiro com questões abertas (Apêndice B) para direcionar a realização da entrevista em profundidade, o que favoreceu a interlocução confidencial e íntima em algumas entrevistas. Nesse momento, foram explicitadas situações e comportamentos, geralmente não relatados em entrevistas formais.

O roteiro de entrevistas com questões abertas evidencia uma opção pelo método indutivo, aquele que busca os significados e não adota idéias e categorias, definições ou hipóteses pré-concebidas. Esse instrumento é especialmente apropriado para pesquisas qualitativas, por conferir uma descrição compreensiva em maior profundidade e leitura de significações, particularidades e complexidades (BARDIN, 2000; MINAYO, 2004).

Segundo Bauer e Gaskell (2002), as dificuldades que o pesquisador encontra na condução de entrevistas podem ser minimizadas com cuidado e técnicas adequadas. O rapport cria ambiente de confidencialidade e estabelece relação de confiança e de segurança. Realizar as perguntas com tranqüilidade e utilizar-se de reforço e encorajamento favorecem o bem-estar do entrevistado e maior interação nesse momento.

O local da pesquisa foi um centro de referência de uma Regional de Saúde da Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal, justamente por ser uma unidade de referência para prestação de assistência para pessoas portadoras de HIV e da Aids. Além disso, recebe pessoas provenientes de quase todas as regiões do Distrito Federal, o que permite acessar distintos perfis socioculturais e demográficos dos entrevistados, tornando a pesquisa mais rica.

As entrevistas foram realizadas pela autora desta pesquisa, em dia e horário agendados segundo a conveniência das pessoas que participaram delas. Teve duração variada: a mais curta foi realizada em 15 minutos, e a mais longa em uma hora. A mais curta aconteceu motivada pelo fato de o adolescente não querer falar sobre sua intimidade e se deter a responder as perguntas mais diretas como moradia, se houve palestra na escola, se é a favor ou não de falar quando se é portador do vírus HIV à sua companheira (o); e a mais longa dispôs desse tempo pelo sujeito da pesquisa estar disposto a falar sobre si. O local escolhido para a realização das perguntas foi a Unidade de Saúde, por decisão conjunta de participantes, responsáveis e pesquisadora, que entenderam ser um lugar neutro e, por isso, mais apropriado para a realização das mesmas.

4.3.3 Procedimentos para análise

Após a transcrição das fitas gravadas durante as entrevistas, o que foi realizada pela pesquisadora, o texto proveniente desse procedimento foi organizado para permitir o processo de decodificação e as análises. As fitas serão guardadas por cinco anos para utilização de pesquisas públicas. Essa postura foi adotada com o objetivo de manter sigilo total sobre as verbalizações dos entrevistados, a partir do entendimento de que se tratava de situação extremamente delicada. Este trabalho contou com a participação de três pessoas: o pesquisador principal e mais dois membros do Grupo de Pesquisa em Análise de Conteúdo do Instituto de Psicologia Social da Universidade de Brasília, que denominamos como equipe de análise.

Cada uma dessas pessoas realizou separadamente, e para cada entrevista, os seguintes passos: leitura flutuante do texto; novas leituras para demarcação de verbalizações de identificação de seus respectivos temas; quantificação da freqüência dos temas; organização dos temas de cada discurso, conforme critério semântico, em categorias temáticas; organização das várias categorias temáticas em um quadro geral para visualizar os temas levantados; elaboração e definição das categorias.

Com base na proposta de Bardin (2000), a identificação dos temas foi realizada a partir do entendimento dos entrevistados acerca de suas percepções, o que possibilitou a identificação dos núcleos de sentidos. Sua inclusão em

categorias buscou aglutinar os temas da mesma natureza ou que mantinham uma relação de significados através de elos de similaridade, complementaridade, causalidade, diversidade ou ambivalência.

Concluídas as etapas mencionadas acima, a equipe se reuniu e discutiu exaustivamente a análise de cada entrevista e buscou um possível consenso. Quando à identificação dos temas ou categorias, essa não coincidiu entre as três componentes da equipe, e a decisão se deu pelo voto da maioria. O processo final foi demarcado pela construção da síntese final das 13 entrevistas realizadas com adolescentes portadores do vírus HIV, o que ocorreu a partir da análise conjunta dos textos. Esse procedimento durou cerca de oito meses.

Para organização dos dados e sua análise, foi construída uma matriz (Apêndice C) com espaço para os seguintes aspectos: ações, verbalizações, temas, freqüência, categoria e definição das categorias.