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Jobbkarakteristika-modeller

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DEL III: TEORETISK GRUNNLAG

5.4 Jobbkarakteristika-modeller

poder

Segundo levantamento do Centro de Apoio ao Escritor (CAE) da Casa das Rosas de São Paulo, o Anuário de Poesia de 2013 registra a quantidade de 464 livros de poemas publicados naquele ano. Em 2014, o número está próximo de 40, segundo dados do mês de maio (CAE, 2013, 2014). Apenas em São Paulo, o número de saraus de poesia por mês é de cerca de cem (RIBEIRO, 2014). Na década de 1970, João Luiz Lafetá iniciava um texto com as seguintes palavras: “Cada vez fica mais complicado ler e entender poesia contemporânea”.

Não tem sido mais fácil desde então.

Para entender o que está em jogo quando se fala em crítica de poesia brasileira contemporânea talvez seja melhor fazer um recuo tático, antes de nomear os atores e colocá-los em cena, de modo a perceber o campo simbólico no qual se trava essa disputa. A teoria de Pierre Bourdieu auxilia a descrever o problema. Segundo o autor francês, apenas o conteúdo textual e a produção textual não bastam para compreender determinada produção cultural: “existe um universo intermediário que chamo o campo

literário, artístico, jurídico ou científico, isto é, o universo no qual estão inseridos os agentes e as instituições que produzem, reproduzem ou difundem a arte, a literatura ou a ciência” (BOURDIEU, 2004, p. 20). Trata-se, portanto, de notar o que Bourdieu nomeia de “estrutura das relações objetivas”, ou seja, a posição e o lugar que o agente ocupa determinam, positiva e negativamente, suas ações:

[...] o campo científico, enquanto lugar de luta política pela dominação científica, que designa a cada pesquisador, em função da posição que ele ocupa, seus problemas, indissociavelmente políticos e científicos, e seus métodos, estratégias científicas que, pelo fato de se definirem expressa ou objetivamente pela referência ao sistema de posições políticas e científicas constitutivas do campo científico, são ao mesmo tempo estratégias políticas (BOURDIEU, 1983, p. 126).

Outro conceito importante é o de capital simbólico, o qual

[...] repousa sobre o reconhecimento de uma competência que, para além dos efeitos que ela produz e em parte mediante esses efeitos, proporciona autoridade e contribui para definir não somente as regras do jogo, mas também suas regularidades, as leis segundo as quais vão se distribuir os lucros nesse jogo, as leis que fazem que seja ou não importante escrever sobre tal tema, que é brilhante ou ultrapassado (BOURDIEU, 2004, p. 27).

Há que se ter em mente “uma ambiguidade estrutural: os conflitos intelectuais são também, sempre, de algum aspecto, conflitos de poder” (BOURDIEU, 2004, p. 41). Como afirmamos na introdução, apoiados nas considerações de Silviano Santiago, o que está em disputa não é apenas a capacidade de julgamento – isto é bom, isto é ruim65 – como também a autoridade de quem julga.

No caso específico da poesia, quando se diz que determinado poeta ou livro de poemas não tem valor, a afirmação que sustenta tal discurso é a seguinte: eu, crítico, sei dizer o que pode ou não ser considerado poesia (ou literatura ou arte). Como esclarece Antoine Compagnon: “Todo estudo literário depende de um sistema de preferências, consciente ou não” (2006, p. 226). Logo, quando se questiona o julgamento do crítico, questiona-se sua capacidade e sua autoridade no campo literário – em suma, sua posição, e além: seu poder, e mais: a própria estrutura que lhe permite um lugar de fala.

Felizmente, essas disputas permitem a Bourdieu reconhecer que “o campo é um jogo no qual as regras do jogo estão elas próprias postas em jogo” (2004, p. 29), e onde “nem tudo nele é igualmente possível e impossível em cada momento” (2004, p. 27).

65 Cf. o texto “Crítica é cara ou coroa” de Luiz Bras (2012): “livros são propostas de civilização. Cada livro publicado é, antes de tudo, uma atitude política. E crítica literária é cara ou coroa, num mundo definido pelo acaso. Ao elogiar ou condenar um livro, o crítico não está dizendo aos seus leitores o que o livro é. Ele não está revelando sua essência oculta, simplesmente porque não há essência oculta a ser revelada, nunca há. O crítico está, na verdade, defendendo ou atacando o tipo de civilização que o livro propõe. O primeiro equívoco de um crítico é crer que os livros têm uma essência oculta, intrínseca, perene, que precisa ser colocada no foco para que os leitores míopes consigam enxergar. Nunca têm. O segundo equívoco, o maior deles, é acreditar que seu ataque ou sua defesa fará diferença a favor ou contra o tipo de civilização proposto pelo livro. Nunca faz. A probabilidade é sempre de cinquenta por cento para o sim e para o não. Um cara ou coroa”.

Assim, nota-se a mobilidade inerente ao próprio sistema. Compagnon (2006, p. 254), ao ponderar sobre o conflito entre o cânone e a abertura para uma lista arbitrária de livros, afirma:

O cânone não é fixo, mas também não é aleatório e, sobretudo, não se move constantemente. É uma classificação relativamente estável, e, se os clássicos mudam, é à margem, através de um jogo, analisável, entre o centro e a periferia. Há entradas e saídas, mas elas não são tão numerosas assim, nem completamente imprevisíveis.

Paulo Franchetti, acadêmico, crítico e poeta, se refere ao problema em texto intitulado “A demissão da crítica” (2005), no qual deslinda o fio que une o “fortalecimento do mercado” ao “enfraquecimento do meio intelectual”, este derivado da prática agora banal da publicação de abaixo-assinados quando há um desacordo em relação a alguma crítica66, resultando em uma “forma de censura pública”. A questão do compadrio é vista como um entrave ao debate democrático, uma estrutura viciada que interdita o diálogo, empobrecendo a cultura.

A opção pela abordagem sistêmica se justifica pelas seguintes razões, interligadas: a) como o título indica – Tensões críticas e culturais em Rilke shake, de Angélica Freitas – existe um panorama do qual a obra de Freitas participa e se constitui como um dos exemplos representativos; b) decorrente do item anterior, a derivação para o sistema cultural exige aprofundamento, motivo do presente capítulo; dessa maneira, discutir a obra Rilke shake significa também discutir o modo como a crítica contemporânea pensa a poesia contemporânea, configurando o movimento dialético do particular para o geral e retornando ao particular; c) por fim, a abordagem sistêmica oferta ao leitor uma visada mais ampla, permitindo-lhe compreender a importância e o valor de Rilke shake no interior das discussões relativas às obras contemporâneas. Como defende Ricardo Domeneck (2008, s.p.):

Seja para seguir tais parâmetros ou para resistir a eles, dependendo da personalidade individual de cada jovem poeta a adentrar tal cenário coletivo, o "clima crítico" de seu tempo define, muitas vezes, o contexto de inserção de um novo trabalho poético. A compreensão de um período crítico criativo exige a observação de vários fatores concorrentes, não apenas os livros de poesia publicados no intervalo de tempo em questão. As movimentações críticas em vigor, os poetas

66 O momento inaugural dessa prática pode ser considerado a contenda verbal entre Bruno Tolentino e Augusto de Campos em 1994. Para mais detalhes, conferir o artigo de John Milton (1996), “Augusto de Campos e Bruno Tolentino: A Guerra das Traduções”.

sendo resenhados na imprensa oficial, os autores ocupando cargos de poder em instituições e editoras que definem, muitas vezes, os publicados e convidados da Empresa da Poesia Ltda., todos esses fatores contribuem para a formação da personalidade poética de uma década, período geralmente usado para delimitar um grupo de poetas contemporâneos.

Assim sendo, a compreensão de uma obra poética não pode estar desligada de um conhecimento aprofundado das discussões críticas que lhes são contemporâneas – a discussão da obra poética passa também pela discussão da própria crítica. Essa convicção perpassa todo este capítulo. As questões levantadas na discussão dos poemas serão aqui aprofundadas.

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