O ponto de vista psicossocial pode ser entendido segundo diversos enfoques teóricos (cf. Álvaro Estramiana & Garrido Luque, 2003; Álvaro Estramiana et al., 2007)30. De entre elas destaca-se o Interaccionismo Simbólico, de George Mead (1963-1931). Para este enfoque psicossociológico, toda a relação do indivíduo com a sociedade tem uma dimensão simbólica. Também é assim no trabalho. «A dimensão simbólica condiciona a relação com o mundo», diz Le Breton (2008, p. 49), «o mundo não existe senão através das interpretações que os homens fazem dele, o mundo não é um dado em si» (id., ibid., p. 11). O mundo actual, particularmente o mundo do trabalho, encerra uma dimensão cada vez mais simbólica. O Interaccionismo Simbólico parece ser o enfoque teórico psicossocial mais adequado à compreensão do fenómeno psicossocial do trabalho actual, mormente à compreensão do risco psicossocial no trabalho31.
30 Tais como, o funcionalismo, a teoria do intercâmbio, o interaccionismo simbólico, a sociologia
fenomenológica, o construccionismo social e a etnometodología (Álvaro Estramiana et al., 2007).
31 «As consequências que derivam de incluir esta dimensão na análise do comportamento humano são
diversas e entre elas podemos destacar as seguintes: 1) As pessoas não respondem aos estímulos do meio de uma forma pré-fixada senão que o comportamento é o resultado dos significados atribuídos a tais estímulos. Portanto, no caso do comportamento humano, este encontra-se mediado pelo universo simbólico em que as pessoas vivem; 2) Os significados que as pessoas atribuem ao meio são o resultado da interacção social. É da interacção com os outros que vamos aprendendo os significados que damos aos objectos do meio. Vivemos num meio simbólico através do qual aprendemos os significados da nossa cultura; 3) A realidade social é uma construção humana, produto da interacção social. Esta antecede os indivíduos, contudo, é um produto dos seus actos. As pessoas têm a capacidade de transformar o meio em que vivem. O interaccionismo simbólico reconhece a capacidade de agência aos indivíduos; 4) O ser humano, diferentemente dos animais, tem a capacidade de ser um objecto para si mesmo. Esta capacidade de interactuar reflexivamente consigo mesma, permite antecipar as consequências que derivam de diferentes cursos de acção e eleger entre eles; 5) O pensamento é o resultado da interacção simbólica. Graças à linguagem somos capazes de pensar a realidade e imaginar outras possíveis realidades, assim como ter uma imagem de nós próprios» (Álvaro Estramiana & Garrido Luque, 2003, pp. 36-37).
O Interaccionismo Simbólico é uma corrente da sociologia americana, com origem na Escola de Chicago. Foi a que mais se preocupou com os aspectos simbólicos das interacções sociais. O Interaccionismo Simbólico teve origem no fim do século XIX tendo-se destacado na sua teorização George Herbert Mead, Herbert Blumer e Erving Goffman32. A actualidade e pertinência do Interaccionismo Simbólico são defendidas, em termos gerais, por autores como Hans (1987) e Plummer (1996, 2002). Diz o primeiro autor (p. 168) que «a riqueza analítica do Interaccionismo Simbólico permanece, assim, intocada para um diagnóstico dos tempos actuais (…)», enquanto o segundo autor refere (op.cit., pp. 224) haver autores que defendem o Interaccionismo Simbólico como sendo «o arauto da teoria social da pósmodernidade»33.
O Interaccionismo destaca a natureza simbólica da vida social, fundando-se em três premissas básicas, segundo Blumer (1968): a) o ser humano orienta os seus actos face às coisas em função do que estas significam para ele, ou, o que significa o mesmo, com base no significado que atribui aos objectos e às situações que o rodeiam; b) a fonte deste significado é um produto social, que emana da interacção social que um indivíduo tem com os demais actores; c) estes significados são utilizados pelo sujeito através de um processo de interpretação própria, que supõe auto-interacção e manipulação de significados.
Le Breton (2004, pp. 45 e seg.), mais desenvolvidamente, refere que o Interaccionismo Simbólico assenta nos seguintes eixos teóricos fundamentais:
32 Dentro do enfoque do Interaccionismo Simbólico destaca-se, nos anos sessenta e setenta, o enfoque
dramatúrgico de Erving Goffman (1922-1982). Goffman (cit. in. Álvaro Estramiana et al., p. 81) define o seu enfoque do modo seguinte: «Neste estudo empregamos a perspectiva da actuação ou representação teatral; os princípios resultantes são de índole dramática. Nas páginas que se seguem considerarei de que maneira o indivíduo se apresenta e representa a sua actividade diante dos outros, nas situações de trabalho corrente, de que forma influencia e controla a impressão que os outros formam dele, e de que tipo de coisas pode e não pode fazer enquanto actua diante deles». «A ideia do mundo como um grande teatro é a que serve a este sociólogo para analisar como influenciamos e exercemos controlo sobre os demais por meio da forma representarmos, ou, dito de outra forma, do manejo das impressões» (Álvaro Estramiana et
al., 2007, p. 81). «A interacção social assume, aqui, o seu significado social mais importante na produção de aparências, de impressões de verosimilhança da acção em cursos» diz Rizo (op. cit., p. 59).
33 Esta corrente psicossociológica é, no entanto, muito pouco referenciada em trabalhos de investigação.
Não se encontrou qualquer referência bibliográfica que relacionasse o Interaccionismo simbólico com a prevenção de riscos psicossociais no trabalho. A sua pertinência e actualidade no domínio da prevenção de riscos psicossociais parecem, no entanto, inquestionáveis, se tivermos em conta em conta a crescente dimensão simbólica do trabalho e da vida.
1) O sujeito como actor. O indivíduo é um actor que interage com os elementos sociais e não um agente passivo que sofre todo o peso da estrutura social devido aos seus hábitos, à «pressão» do sistema ou à sua cultura de pertença. Ele constrói o seu universo de significado não a partir de atributos psicológicos ou de uma imposição externa mas através de uma deliberada atribuição de significado. Neste sentido, o comportamento do indivíduo não é nem totalmente determinados pelas circunstâncias nem é totalmente livre delas. A sua acção exerce-se no contexto de um debate permanente entre o indivíduo e o sistema social. Ela resulta de uma quantidade infinita de transacções;
2) A dimensão simbólica. A dimensão simbólica condiciona a relação com o mundo. O mundo é sempre o resultado da interpretação de um actor poderoso num quadro de referências sociais e culturais. A cultura é um recurso para o indivíduo se situar face ao mundo. A interpretação faz do indivíduo um actor da sua existência e não um mero agente de comportamentos determinados do exterior. A interacção é comandada pela auto-reflexão do indivíduo e pela sua capacidade de se colocar no lugar de outrem para o compreender;
3) A interacção. O Interaccionismo não toma o indivíduo como princípio de análise, mas raciocina em termos de acções recíprocas, que se determinam umas às outras. Uma interacção é um campo mútuo de influência. O Interaccionismo considera a sociedade como uma estrutura viva em situação permanente de se fazer e desfazer. A interacção faz-se pela linguagem e pela comunicação. Não é uma interacção apenas verbal, mas é feita, igualmente, de uma simbólica corporal: de olhares, de mímicas, de gestos, de posturas, da distância relativamente ao outro, da maneira de tocar ou de o evitar ao falar. A interacção é feita também de uma figuração simbólica dos corpos no espaço, de rituais, de representações, de sinais;
4) Um paradigma interpretativo. Para os interaccionistas, as regras não pré-existem à acção, elas são realizadas pelos actores através da sua definição da situação34. O contexto não é o elemento condicionante e exterior que determina a acção, ele é o resultado de uma interpretação. A realidade social não é a repetição de um modelo, mas
uma permanente construção social. As regras, as normas, as estruturas são processos sempre em criação. Os processos interpretativos postos em acção pelos actores conferem significados aos acontecimentos à medida que se vão desenrolando. Os processos interpretativos fornecem «normas» operatórias e significativas para a interacção. O papel de um indivíduo não é dado antecipadamente, é induzido à medida que avança a interacção na base de uma interpretação mútua dos respectivos comportamentos;
5) O Self. O Self é, para os que se reconhecem no seio do Interaccionismo Simbólico, a pedra angular do edifício conceptual. O Self é um produto de construção social, é herdeiro de uma história pessoal, dependente das situações mas que também influencia. O Self é o resultado sempre provisório da experiência adquirida, mas é ele que determina as situações, é ele quem dá sentido à relação do indivíduo com o mundo. A existência social só é possível através da capacidade do actor de assumir uma sucessão de papéis diferentes segundo os públicos do momento. O Self é impensável sem os outros. 35
Aspectos importantes para o Interaccionismo Simbólico e para a compreensão das interacções sociais são, para Mead, o conceito de comunicação e de linguagem (cf. Yncera, 1991, pp. 150 e seg) e, para Goffman, o conceito de ritual. «A comunicação é o princípio básico de organização da comunidade humana», dizia Mead (cit. in Yncera, ibid.). O ritual é, para Goffman, parte constitutiva da vida diária do ser humano, podendo dizer-se que a tecedura da vida quotidiana está conformada por ritualizações que ordenam os nossos actos e os nossos gestos corporais (Goffman, 1959, 1993). Diz Rizo que:
35 Para Mead, segundo Marta Rizo, «em termos gerais, o self («si mesmo») refere-se à capacidade de uma
pessoa se considerar a si mesmo como objecto; o self tem a peculiar capacidade de ser tanto sujeito como objecto e pressupõe um processo social: a comunicação entre os seres humanos. O mecanismo geral para o desenvolvimento do self é a reflexão, ou a capacidade de nos pormos inconscientemente no lugar dos outros e de actuar como eles fariam. É mediante a reflexão que o processo social é interiorizado na experiência dos indivíduos implicados nele. Por tais meios, que permitem ao indivíduo adoptar a atitude do outro face a ele, o indivíduo está conscientemente capacitado para adaptar-se a esse processo e para modificar a resultante de tal processo em qualquer acto social dado. Mead identifica dois aspectos ou fases do self: o eu e o mim. O eu é a resposta imediata de um indivíduo a outro; é o aspecto incalculável, imprevisível e criativo do self. As pessoas não sabem com antecedência qual será a acção do eu. O eu reage contra o mim, que é o conjunto organizado de atitudes dos demais que a pessoa assume (Rizo, 2006, p. 58).
Neste sentido, os rituais aparecem como uma cultura encarnada, interiorizada, cuja expressão é o domínio do gesto, da manifestação das emoções e da capacidade de apresentar actuações convincentes perante os outros. As pessoas mostram as suas posições na escala do prestígio e do poder através de uma máscara expressiva, uma “cara social” (Goffman, 1972) que lhe foi emprestada e atribuída pela sociedade, e que lhe será retirada se não se conduz de modo que resulte digno dela; as pessoas interessadas em manter a cara devem cuidar que se mantenha uma certa ordem expressiva. Do conceito de ritual proposto por Goffman derivam duas ideias importantes. A primeira, a de relacionar os rituais com o processo de comunicação, pois os rituais integram a categoria de actos humanos expressivos, em oposição aos instrumentais. Alem de ser um código de conduta, o ritual é um complexo de símbolos, pois transmite informação significativa para os outros. A segunda ideia consiste em relacionais os rituais com os movimentos do corpo, no sentido de que a ritualização actua sobre o corpo produzindo a obrigatoriedade e a assimilação de posturas corporais específicas em cada cultura (Rizo, 2006, p. 59).