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1. januar-26. juni
O conceito psicológico central da Psicologia Analítica é o processo de individuação44, que, antes de ser trazido por Jung para a Psicologia, foi utilizado por Schopenhauer em sua filosofia, demonstrando que tudo, na natureza, busca se objetivar e se realizar no máximo de sua potência. O processo de individuação, ao ser tratado no campo psicológico, é visto como o processo de desenvolvimento da Consciência. É no contato com as emoções reprimidas pelos mecanismos de defesa inconscientes, com as imagens arquetípicas que vêm dos nossos sonhos, com as sincronicidades e outros eventos significativos e transformadores, que desenvolveremos, gradualmente, maior maturidade afetiva e a ampliação da Consciência. Só assim poderemos, naturalmente, sentir a verdadeira compaixão, em vez de desejos egocêntricos.
A religião, ao seu modo, nos fala também em individuação – é a conversão, a qual podemos entender como a conscientização do homem interior. O processo de conversão diz respeito ao processo contínuo de desapego das ilusões de felicidade propostas pela cultura. O homem religioso empenha-se na instauração do Reino dos Céus na Terra. Psicologicamente, o Reino é uma metáfora da relação do indivíduo consigo mesmo e com o outro, em uma nova dimensão – em que o egocentrismo foi redimensionado e transcendido, ou está em vias de ser transcendido, uma vez que a conquista do Reino não é um evento, mas um processo que transcende o indivíduo, seus relacionamentos e sua geração. John A. Sanford45 analista junguiano e
teólogo, expressa assim a dimensão desse processo:
44 Jung (2002b, p. 113) definiu a individuação como o “tornar-se si-mesmo”. Nise da Silveira (1988, p. 88) afirma
que a individuação é a “tendência instintiva a realizar plenamente potencialidades inatas. [...] Aquele que visa individuar-se [...] visa completar-se [...]. Para completar-se, terá de aceitar o fardo de conviver conscientemente com tendências opostas, irreconciliáveis, inerentes à sua natureza, tragam estas as conotações de bem ou de mal, sejam escuras ou claras”. Segundo Jung (2001, § 269), “A meta da individuação não é outra senão a de despojar o si-mesmo dos invólucros falsos da persona, assim como do poder sugestivo das imagens primordiais.
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John A. Sanford (1929-2005), americano, foi pastor da igreja Episcopal, teólogo e analista junguiano. Em entrevista publicada no site Inner Explorations (s/d), Sanford afirmou: “Identificar nossos complexos e entender a psicologia de nosso ego é extremamente importante. As pessoas que não experimentam um pouco disso não irão muito longe na vida espiritual, e não irão muito longe nas suas relações com os outros” (tradução livre). Entre seus livros, estão Mystical Christianity: a psychological commentary on the Gospel of John e de Dreams: God’s forgotten language.
Quando uma pessoa alcançou uma nova consciência, de modo que o centro de sua personalidade mudou do ego para o Self, então essa pessoa adquire um efeito invisível, mas profundo, sobre outras pessoas. Aqueles nos quais as sementes da nova consciência estão se enraizando veem sua própria consciência expandir, e isso cria um efeito que se espalha invisivelmente pelos outros. Essas podem ser pessoas simples, [...] talvez uma avó que amadureceu para tornar-se uma senhora consciente e sábia e que vive em nossa memória como um guia espiritual. [...] O desenvolvimento consciente [...] nunca morre, mas faz brotar seus frutos para sempre no mundo espiritual. Assim o ego, ao morrer, libera sua reserva de consciência em prol da abundância de uma nova vida. Por essa razão, Jung disse, certa vez, que a emergência do Self é sempre a morte do ego, que pode receber sua vida de volta, mas em um terreno totalmente diferente da existência. (SANFORD, 1993, p. 248, tradução livre).
A Psicologia postula que, para que surja uma nova Consciência, é necessário o desenvolvimento da capacidade de simbolização. A função psíquica responsável por essa capacidade foi denominada, por Jung, de Função Transcendente46. A religião parte de um princípio similar no que diz respeito à autotranscendência ou à conversão. A tradição judaico-cristã postula que o Espírito de Deus é a única força capaz de elevar a Consciência do homem para além do imediato e de sua identificação com os sentidos. Essa função divina foi denominada de Espírito Santo. O budismo, por sua vez, ao nos falar do caminho de individuação, fala-nos do rompimento do carma e da instauração do darma. Fala-nos, também, do difícil caminho do meio alcançado por Buda. O taoísmo resume o processo de autotranscendência ao nos lembrar que existe um Tao que não deve ser adorado, mas integrado pela Consciência de Totalidade. Se o sagrado, o que se revela apontando ao sujeito o caminho da conversão ou da autorrealização, se encontra no centro profundo e misterioso que mal podemos definir, o Espírito Santo é a função psíquica e espiritual, que faz a ponte entre a Consciência e a divindade que funda e mantém o indivíduo.
A Psicologia da Religião identifica pontos de contato entre a Função Transcendente e o Espírito Santo. Neste momento, basta dizer que a Psicologia observa que a religião se arvora da linguagem simbólica para transmitir revelações que vêm do inconsciente. O símbolo é a linguagem que viabiliza a relação ego-Self ou, em termos religiosos, a relação entre o homem e Deus. Edinger comenta a
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A Função Transcendente, para Jung (1980, p. 72), “representa uma função que, fundada em dados reais e imaginários ou racionais e irracionais, lança uma ponte sobre a brecha existente entre o consciente e o inconsciente. É um processo natural, uma manifestação de energia produzida pela tensão entre os contrários, formado por uma sucessão de processos de fantasia que surgem espontaneamente em sonhos e visões”.
etimologia da palavra símbolo e sua ligação com a relação ego-Self e a relevância da vida simbólica:
A palavra símbolo vem da palavra grega symbolon, que combina duas raízes – sym, que significa “junto” ou “com”, e bolon, que significa “aquilo que foi colocado”. O significado básico é, por conseguinte, “aquilo que foi colocado junto”. No uso grego original, os símbolos referiam-se às duas metades de um objeto, tal como uma vara ou uma moeda, que duas partes dividem entre si como um sinal de compromisso e que, mais tarde, serve de prova de identidade daquele que apresentar uma das partes diante daquele que está de posse da outra. [...] O símbolo nos leva à parte que falta do homem inteiro. Ele nos põe em relação com nossa totalidade original e cura nossa divisão, nossa alienação da vida. E, como o homem total é bem maior que o ego, o símbolo nos põe em relação com as forças suprapessoais que constituem a fonte de nossa existência e do significado que temos. Essa é a razão para que se honre a subjetividade e para que se cultive a vida simbólica. (EDINGER, 1995, p.182).
A busca do indivíduo pelos próprios símbolos47, isto é, o desenvolvimento de uma intimidade criativa com o inconsciente, praticamente não faz parte de nossa cultura, que é extremamente extrovertida, narcisista e cientificista. A proposta da Psicologia Profunda é a contramão do ideal normativo da sociedade. Não que, com isso, se pregue uma inadaptação aos aspectos coletivos e criativos da realização social, já que o ser humano vive e sobrevive apenas em sociedade. O intuito é que a Consciência esteja inserida no mundo externo da mesma maneira com que deve estar conectada ao mundo interno e inconsciente.
Pelo viés psicológico, não existe autotranscendência sem a vivência profunda dos símbolos inconscientes que se alojam na sombra. A repressão de aspectos da personalidade que não coincidem com o ideal do ego transforma-se em sintomas somáticos ou sociais. O ideal de ego (ou de si mesmo), promovido pela religião institucionalizada ou por outras instâncias sociais que moldam o pensamento coletivo, como a cultura midiática e a ciência, não garante a transformação da personalidade. Ao contrário, pode fixar a identidade a modelos rígidos, dificultando a relação da Consciência com a centralidade profunda do indivíduo e com o seu próprio corpo. Esse ideal de ego molda a persona defensiva48 e a sombra, que, mais
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De acordo com Jung, “Os símbolos representam tentativas naturais para a reconciliação e união dos elementos antagônicos da psique” (JUNG et al, 1996, p. 94).
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Persona defensiva é a máscara que esconde os verdadeiros propósitos ou anseios do sujeito; equivale ao falso-self definido pela Psicanálise, assunto abordado em detalhes no capítulo “Narcisismo e falso-self”.
cedo ou mais tarde, por ser autônoma, poderá desalojar o ego e tomar o seu lugar. A persona defensiva (religiosa ou não) é decorrência de uma atitude defensiva que, em nome da divindade ou de qualquer objeto idealizado, promove, pelo mecanismo de identificação projetiva, um ideal que está muito acima das possibilidades do ego de realizar. Essa dinâmica pode acarretar a repressão de características que fazem parte da totalidade do sujeito e às consequentes dissociações da personalidade.
O cotidiano de um analista se faz numa realidade de difícil mensuração. Deparar-se, durante a maior parte do dia, com a criatividade e o sofrimento humanos instiga relatar as descobertas. É estar frente a frente com os fenômenos do relacionamento analista-analisando e consciente-inconsciente. O processo de individuação, tão bem descrito por Jung, pode ser observado na psicodinâmica que se estabelece na análise, envolvendo profundamente tanto o analisando quanto o analista. É um trabalho sui generis e alguns de seus aspectos, que entendo como religiosos, serão aqui descritos.