A certeza de que o mundo e o homem não podem mudar nos encheria de dó pelo próximo. Com efeito, que podemos esperar de tais seres? Penso, às vezes, que a melhor maneira dos homens se cumprimentarem em vez de ser “Cavalheiro, Senhor, Sir”, poderia ser, “companheiro de sofrimentos,
soci malorum, my fellow-sufferer”... Por mais irritante que pareça esta
expressão, tem mais fundamento que as usuais, e recorda-nos a paciência, indulgência e amor ao próximo, e, usada por todos, beneficiaria a cada um. (SCHOPENHAUER, 1980, p. 225).
Sendo o ser humano frágil e arena do conflito entre deuses, sua vida não lhe pertence. Sua Consciência é usurpada e seu comportamento nem sempre obedece à sua expectativa ética de si mesmo. É, portanto, um ser digno de compaixão, já que, nele, quase tudo é transitório e ilusório; quase tudo lhe escapa ao controle.
Quanto mais consciente de seu aprisionamento, e da precariedade humana, mais próximo estará o homem de si e de sua base ontológica. Tendo consciência de que é um receptáculo da Vontade que nele se exerce e dele se apossa, como algo que tem vida própria, o homem percebe, como diria Freud (1976), que não é senhor de sua própria casa. Quando toma consciência disso, e observa o seu objeto imediato, isto é, o corpo, percebe que ele também não goza de controle e soberania sobre si. Sendo assim, pode perceber o outro como seu companheiro de sofrimento, como sugere Schopenhauer. Sofrimento psíquico. Daí poderá surgir a compaixão, que entendo ser um aspecto fundamental à comunicação dos homens entre si e com as demais espécies do planeta. É assim que poderemos pensar em um sentimento ecológico autêntico. Nenhum ser vivo pediu para nascer e está enclausurado pelos seus limites impostos pelos instintos de sua espécie. A fome da Vontade faz de todos suas vítimas.
A compaixão só pode ser notada, empiricamente, naqueles que romperam com o egocentrismo defensivo típico dos que não se conhecem o suficiente, nem mesmo para conseguir perceber quanto o egocentrismo é disfuncional dentro de qualquer grupo que busque a sua permanência no tempo. As religiões, que armazenam experiências arquetípicas milenares, apregoam a compaixão como prevenção e antídoto contra o mal, que pode também ser entendido como o não- reconhecimento da vulnerabilidade humana e a manutenção de uma Consciência inflada em uma condição unilateral. As Consciências de Alteridade e de Totalidade37 caracterizam-se pela busca da transcendência da unilateralidade egocêntrica.
O conflito existente entre a polaridade egocêntrica da Consciência e a polaridade altruísta é arquetípico. É, portanto, necessário. É no embate dessas polaridades, no decorrer da individuação, que sínteses se formam e, posteriormente, se dissolvem. Não só a Psicologia e a religião, mas também a Filosofia, a ciência e a arte, visam a promover a transcendência do egocentrismo.
A psicoterapia profunda busca a conscientização do egocentrismo fixado, para que a energia da Vontade, com a qual ele se identifica em sua voracidade, possa ser transformada para o bem do indivíduo e dos que estão à sua volta. Não se trata de uma mudança imediata radical, mas da assunção do conflito entre os opostos e do egocentrismo natural, bem como do chamado à autotranscendência que vem do Self. É um trabalho para toda a vida, que, em nada, se parece com as psicoterapias breves, com alguns batizados mágicos ou com os workshops que prometem o Reino dos Céus ou o Nirvana.
O egocentrismo defensivo e suas idealizações narcísicas só são sacrificados realmente, quando a Consciência alcança maior capacidade de observação de si mesma, de suas representações e do todo à sua volta. Não se trata apenas de uma auto-observância moral, que não é suficiente para a real transformação do ser humano. O egocentrismo e o narcisismo defensivos só são transformados por meio de vínculos criativos que favoreçam o desenvolvimento da Consciência e promovam a dignidade dos envolvidos nessas relações. Entre elas, a relação analítica é uma possibilidade. Ela deve promover uma profunda e árdua elaboração, na qual as vivências de dor e de prazer, e de ganho e de perda, são entendidas simbolicamente e podem, então, ser transformadas no próprio vínculo.
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Os níveis de Consciência, entre eles os de Alteridade e Totalidade, são conceituados no capítulo “O Self e o ego, Deus e o Homem” e desenvolvidos nos capítulos posteriores.
Sendo ilusórias, as idealizações levam à frustração, que promove o sofrimento narcísico, que, por sua vez, acaba sendo o motivo da busca pela psicoterapia ou pela religião por muitas pessoas na atualidade, tempo em que o culto à persona38 idealizada fomenta a chamada “sociedade do espetáculo”39 em
que estamos submersos.
A Psicologia da Religião assume para si a ideia de Deus dentro do homem, isto é, em suas representações simbólicas que emergem nas múltiplas manifestações do inconsciente. As representações do sagrado, ao ser observadas pela Consciência, transformam e redimensionam valores do ego, submetendo-o à força que o mantém vivo. O estudo psicológico das religiões é de extrema importância, pois, nelas, observamos não somente representações de um centro divino (o Arquétipo Central) que antecede o ego40, mas também representações do mal, que a Psicologia designa “sombra”41.
É importante enfatizar que a Psicologia, ao recorrer ao fenômeno religioso, está imbuída do seu maior propósito, que é o estudo do desenvolvimento da Consciência. As religiões, em sua riqueza simbólica, expressam diversos níveis de Consciência. Jesus, por exemplo, assim expressou: “Na casa de meu Pai há muitas
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Persona era a máscara dos atores gregos. Na Psicologia, a persona é também máscara. “Para estabelecer contatos com o mundo exterior, para adaptar-se às exigências do meio onde vive, o homem assume uma aparência que geralmente não corresponde ao seu modo de ser autêntico. Apresenta-se mais como os outros esperam que ele seja ou ele desejaria ser, do que realmente como é. A esta aparência artificial, Jung chama persona” (SILVEIRA, 1988, p. 89). O próprio Jung explica, ao ser entrevistado em 1957: “A persona é, em parte, uma das exigências da sociedade. Por outro lado, é fruto de um compromisso com o que uma pessoa gosta de ser ou gosta de parecer que é. [...] Ora, isso não é a personalidade real. Apesar do fato de as pessoas garantirem que tudo isso é perfeitamente honesto e real, não é. Um tal desempenho da persona está muito certo, desde que se saiba que não é idêntico ao que parece ser.” (JUNG, 1957, in Jung on Film).
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Sociedade do Espetáculo é o título do livro do filósofo Guy Debord (1931-1994), lançado na França em 1967. Ao apresentar, de diversas maneiras, o conceito de “espetáculo”, o autor afirma, por exemplo, que ele é “o momento histórico que nos contém” (DEBORD, 1997, tese 11) e também “o capital a um tal grau de acumulação que se toma imagem” (Id. Ibidem, tese 34). Debord afirma que a sociedade do espetáculo diz que "o que aparece é bom, o que é bom aparece" e que a atitude que ele exige uma aceitação passiva “que, na verdade, ele já obteve pela sua maneira de aparecer sem réplica, pelo seu monopólio da aparência” (tese 12). Meios e fins, no espetáculo são os mesmos. “Ele é o sol que não tem poente, no império da passividade moderna. Recobre toda a superfície do mundo e banha-se indefinidamente na sua própria glória”, escreve o filósofo francês (tese 13). De acordo com o psicanalista brasileiro Joel Birman (2001, p. 24), a cultura do narcisismo e a sociedade do espetáculo “enfatizam a exterioridade e o autocentramento”. Para o autor, “os destinos do desejo assumem, pois, uma direção marcadamente exibicionista e autocentrada, na qual o horizonte intersubjetivo se encontra esvaziado e desinvestido das trocas inter-humanas”.
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Ego é o centro da Consciência e, na visão junguiana, também um complexo.
41A sombra é o que se reprime ao longo do desenvolvimento da personalidade, porque não se nos apresenta como adequado ao ideal de ego. “Todo indivíduo é acompanhado por uma sombra, e quanto menos ela estiver incorporada à sua vida consciente, tanto mais escura e espessa ela se tornará” (JUNG, 1978, p. 81). Para Jung (Id. Ibidem, p. 83), “de um modo geral, a sombra é simplesmente vulgar, primitiva, inadequada e incômoda, e não de uma malignidade absoluta. Ela contém qualidades infantis e primitivas que, de algum modo, poderiam vivificar e embelezar a existência humana; mas o homem se choca contra as regras tradicionais”. Ao discorrer sobre a relevância do contato consciente com a sombra, o analista (Id. Ibidem, p. 88) resume: “se [o homem] aprender a arranjar-se com a própria sombra, já terá feito alguma coisa pelo mundo”.
moradas. Não fora assim, e eu vos teria dito; pois vou preparar-vos um lugar” (João 14,2).