Quando uma pessoa sabe ler bem não existem fronteiras para ela. Ela pode viajar não apenas para outros países mas também no passado, no futuro, no mundo cósmico. Descobre também o caminho para a porção mais íntima da alma humana, passando a conhecer melhor a si mesmo e aos outros. Bamberger (cit. Pontes e Barros in Azevedo, 2007:70)
Uma das preocupações da escola é o desenvolvimento de competências literárias a par das competências literácitas.
Nesta perspectiva, nesta parte do nosso estudo, cabe discorrer acerca do conceito de leitura de hoje.
Tal como refere Mesquita (2007:142) “…a leitura é uma fonte inesgotável de assuntos para a melhor compreensão de nós próprios e do mundo que nos rodeia.”
Com efeito, actualmente, falar de leitura implica recorrer a um leitor activo e interventivo que consiga interagir com o texto que lê.
O professor deve estar consciente de que a leitura de histórias para crianças não se limita à aprendizagem da leitura. É importante sensibilizar as crianças a tornarem-se leitoras, conduzindo-as através de experiências absolutamente significativas, por um caminho infinito de descobertas e de compreensão do mundo.
Os livros para crianças desempenham um papel vital neste campo. A criança identifica-se com múltiplas personagens inscritas em espaços, hábitos, sensibilidades diferentes, habituam-se a “estar no lugar do outro”, aceitando o caminho da aceitação enriquecedora da diversidade.
A capacidade de ler e de converter-se em leitores entusiastas e informadas contribui para a igualdade de oportunidades para todas as crianças, ajudando-as a resolver e enfrentar os desafios da sociedade actual.
A leitura promove um contexto de integração social, direitos iguais entre os sexos e a compreensão da diversidade cultural do mundo.
O contacto com o universo dos livros deverá ser iniciado o mais cedo possível, para que o jovem leitor comece a amar a leitura e se sinta o protagonista do seu aprendizado, como aponta Mesquita (2007). O seio familiar deverá ser o primeiro lugar de influência para despertar e fomentar o gosto pelo livro, bem como o hábito de leitura na criança.
É importante que as actividades de aprendizagem da pré-leitura e leitura sejam feitas o mais cedo possível, ou seja, durante o período pré-escolar.
Mesquita (2007:144) vem corroborar o exposto afirmando que:« este é o melhor período para começar, pois enquanto pequenas, as crianças estão mais aptas a encetar a aquisição da competências básicas da leitura, contribuindo fortemente para o êxito da literacia.»
Partindo do conceito de literacia, referido por Mesquita, podemos entendê-la como um processo em permanente actualização, ao longo de toda a vida humana. Temos consciência de que certas competências linguísticas e comunicativas devem ser estimuladas em determinadas etapas do desenvolvimento cognitivo e que a sua não estimulação atempada pode trazer consequências negativas para aprendizagens subsequentes.
A promoção da literacia deve iniciar-se o mais cedo possível em contexto familiar, o desenvolvimento sistemático das competências básicas de literacia linguística, nas sociedades ocidentais, deve ocorrer aquando da entrada da criança no ensino pré-escolar e o seu ensino explícito, durante toda a escolaridade, com uma incidência particular no primeiro ciclo do ensino básico, particularmente nos dois primeiros anos, onde se inicia, de forma sistemática, a aprendizagem formal da leitura e da escrita e se promove o desenvolvimento da consciência linguística.
Mas, ao ler a criança não desenvolve apenas as competências literácitas, mas também as competências literárias, pois tal como afirma Azevedo (2006):
[…] é, aliás, esta profunda relação de interaccionismo sígnico e solidariedade semiótica entre os vários códigos que compõem a obra literária – referimo-nos aos códigos icónicos-grafemáticos, códigos fonológicos, códigos semântico-pragmáticos e códigos retórico-discursivos – que em larga medida, assegura ao texto a sua intínseca plurisignificação e pluiri-isotopia. (Azevedo, 2006:20-21)
De acordo com Solé (1998), e numa perspectiva sócio-interaccionista, entendemos que, hoje em dia, a produção de sentidos na leitura resulta da interacção entre o leitor e os textos. O leitor não pode ser um mero descodificador, pelo contrário utiliza para ler todos os seus conhecimentos prévios, bem como a capacidade de actualizar as suas próprias expectativas; o texto não é um projecto estático e absoluto, mas permanentemente interpretável, em todas as suas marcas explícitas e implícitas. Ler é, assim, uma actividade diferente conforme as capacidades cognitivas, as características psico-sociológicas do leitor, os objectivos da leitura e os tipos de textos.
A leitura é um acto intrinsecamente solidário quando a partilhamos com os outros, é também um acto que pode permitir-nos compreender o outro em todas as suas dimensões e complexidades. Ler, segundo Mesquita (2007:144) é “viver, é sentir emoções, é viajar, é conhecer mundos, é questionar e encontrar respostas, é sentir-se no meio da multidão, embora estando só.”
No entanto, não nos podemos esquecer da importância da função dos mediadores de leitura na análise crítica das mensagens presentes nos livros.
De acordo com Senis (2004:49) “os textos podem encerrar mensagens que só são claras após um certo trabalho de exegese ou de educação”. Logo a figura do mediador é fundamental, uma vez que pode contribuir para que a criança efectue leituras mais profundas do texto literário, auxiliando-a nesse trabalho de exegese.
Sintetizando, para gostar de ler, é fundamental saber ler, (sem esforço), e ter motivação para o fazer. Para que estas duas condições possam ser satisfeitas a ajuda do professor como mediador é imprescindível. O professor deverá contribuir para o desenvolvimento do gosto pela leitura criando estratégias em que a leitura não seja sinónimo de aborrecimento, trabalho, mas sim de interacção e relação de diálogo do leitor com o texto. Esta relação permite ao leitor inferir, prever, comparar leituras e experiências anteriores, para construir conhecimento e desenvolver-se cognitivamente.