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JANUAR-APRIL

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Tendo em mente o facto de que ambos “educação” e “interpretação” são termos utilizados para se referir à função pedagógica do ecoturismo, importa, pois, debruçarmo-nos sobre o sentido de cada um, e, sobretudo, as suas respectivas potencialidades por serem o meio através do qual são (ou não) influenciados os ecoturistas. Não são um fim em si. A aprendizagem, o desafio das crenças, e a adopção de comportamentos mais sustentáveis na vida quotidiana, sim. Esta ideia é expressa de forma clara por Schleicher (1989) que apela à necessidade de ir para além do conceito da educação ambiental, tornando evidente que esta última é um meio para um fim: o da consciência ecológica (“ecological awareness”).

Vejamos, então, o que significa falar de interpretação ou educação para nos referirmos à experiência pedagógica do ecoturismo. Comecemos por referir que, na literatura, o debate relativamente ao uso dos termos 'interpretação' ou 'educação' é frequentemente evitado ao incluir a intepretação na educação, contornando a questão, ou recorrendo ao termo 'aprendizagem' em vez de 'educação' ou 'interpretação'. A diferença fundamental entre estes dois últimos termos depreende-se sobretudo com as circunstâncias em que cada uma, strictu sensu, tem lugar, nomeadamente pelo facto de a interpretação ser uma ferramenta pedagógica temporalmente limitada enquanto que a educação é um processo mais longo. Em comum têm o facto de serem levadas a cabo por terceiros, sendo esta a razão que traz para a linha da frente o objectivo de desenvolver as estratégias adequadas para que essa função seja concretizada de forma a que sejam atingidos os objectivos do ecoturismo, como referimos. Ou seja, o potencial existe, mas há que concretizá-lo através de uma comunicação eficaz. Importa, então, perceber de que se trata quando nos debruçamos sobre a componente pedagógica do ecoturismo. Interpretação ou educação? E o que pode cada uma?

Kohl (2008) estuda e compara ambos estes conceitos no contexto específico do ecoturismo e considera que a interpretação é o termo mais adequado para descrever o tipo de abordagem que ocorre no ecoturismo. Para o autor, “perhaps the biggest problem with the successful use of interpretation for conservation in developing countries has been the very conception of interpretation. It is very often confused with environmental education, even among academics (Knapp et al, 1997)” (Kohl, 2008: 129). No contexto do ecoturismo, a pedagogia concretiza-se na

interpretação, e não na educação, ocorre num contexto lúdico e de curta duração (de algumas horas a alguns dias), e resulta de um compromisso entre “os interesses da audiência” e os recursos circundantes. A educação, pelo contrário, considera Kohl, é baseada no conhecimento, envolve um processo que precisa de mais tempo para se desenvolver e define-se pelo “expressed goal of developping an environmentally conscious and active citizenry” (Kohl, 2008: 130). Tais definições levam Kohl a considerar que a interpretação, em que consiste a experiência pedagógica no ecoturismo, pelas suas características, não deve aspirar à alteração de comportamentos por parte da sua “audiência”, como refere o autor.

Do seu lado, Kimmel (1999) subentende a diferença entre interpretação e educação, ao preferir o termo 'interpretação' no contexto da função pedagógica do ecoturismo, e não 'educação'. Através da análise do papel da interpretação nas práticas do ecoturismo, o autor realça o potencial do ecoturismo para a promoção de atitudes sustentáveis para além do contexto pontual em que ocorreu a referida interpretação. Desta forma, o autor considera que “ecoturism brings many people into environments in which they can learn about the locale and learn environmental principles that can heighten their awareness of and commitment to environmental protection in general. Ecotourism presents an important opportunity to advance the cause of environmental education.” (Kimmel, 1999: s/ pp). Realcemos que a formulação de Kimmel subentende que a eventual distinção entre interpretação e educação não impede que ambas procurem transmitir a mesma mensagem. Essa ideia está presente, aliás, na clássica definição de Tilden de interpretação ambiental: “environmental interpretation [is] an educational effort directed at revealing the relationships and meanings behind aspects of the natural environment” (Tilden, 1957 apud Orams, 1997: 295). Ou seja, não é natural ou de esperar que uma experiência turística não desafie valores nem resulte na adopção de comportamentos mais sustentáveis, como teria considerado Kohl (2008). Pelo contrário, caso isso acontecesse, “this represents a lost opportunity to make a real difference both to visitor's lives and the environment” (Packer & Ballantyne, 2012: 1244)

À semelhança de Kimmel (1999), também Weaver (2005) considera existir potencial na interpretação para a divulgação de mensagens “transformadoras”, como refere o autor, consoante a forma como é comunicada (Weaver, 2005: 441). Na acepção de Weaver, a interpretação posta em prática é associada a uma certa plasticidade, podendo ser formal ou informal, mais superficial ou mais profunda, consoante a orientação ou tipo do projecto de ecoturismo. A dicotomia, criada por Weaver, entre ecoturismo minimalista e ecoturismo compreensivo, com as suas correspondentes formas de interpretação ou aprendizagem, sugere uma relação existente entre formas específicas de interpretação e formas específicas de ecoturismo. O ecoturismo minimalista e o ecoturismo compreensivo são as extremidades, referidas como ideiais-tipo, de um contínuo onde se situam as

várias manifestações da realidade heterogénea do ecoturismo. Para Weaver, o ecoturismo minimalista consiste numa abordagem a elementos de um ecossistema, como espécies da “megafauna carismática”; promove uma aprendizagem superficial que não é transformadora; procura manter as condições ambientais e actua a um nível local. No extremo oposto, existe o ecoturismo compreensivo, caracterizado por uma abordagem holística a um ecossistema, integrando aspectos naturais e culturais; promove uma aprendizagem profunda e transformadora; procura melhorar as condições ambientais e culturais e actua ao nível global.

Efectivamente, a forma como Kohl entende a interpretação no ecoturismo é distinta, não lhe reconhecendo um poder transformador, e parece pender mais para o lado do ecoturismo minimalista. Além disso, o autor considera o seguinte: “environmental interpretation, rather than environmental education, is the appropriate communication intervention for ecotourists, especially if the objective is to make ecotourism an effective tool for conserving cultural and biological diversity in protected areas” (Kohl, 2008: 131). Esta formulação sugere uma abordagem do ecoturismo orientada apenas para o local onde o ecoturismo é desenvolvido, sendo referidas, neste caso, as áreas protegidas, o que é igualmente coerente com um pendor para o ecoturismo minimalista.

Desta forma, apesar de Kohl problematizar estes conceitos no contexto específico da dimensão pedagógica do ecoturismo, e reconhecer que a interpretação pode promover um melhor entendimento dos problemas sociais e ecológicos da região (Kohl, 2008: 128), parece-nos que a falta de plasticidade da definição que propõe de interpretação, quando aplicada ao ecoturismo, não se enquadra na heterogeidade de realidades do ecoturismo. Existem, aliás, vários estudos de caso que apontam para a possibilidade de o ecoturismo efectivamente promover a adopção de comportamentos sustentáveis através da sua função pedagógica (Moscardo, 2005; Orams, 1997; Tubb, 2003; Weaver, 2005: 451). Consoante a forma como é concretizada, a interpretação não só constitui uma parte fundamental do ecoturismo, como pode ser utilizada como um meio para atingir formas mais “benignas” (Weaver, 2005) ou “desejáveis” (Orams, 1995) de ecoturismo, em que se procura, através da interpretação, transmitir conhecimentos e/ou interesse na matéria que ultrapassem a superfície, ou seja, alguns factos. Assim, o objectivo e, simultaneamente, desafio, destas formas ditas benignas e desejáveis de ecoturismo passa, não só, mas também, por procurar transmitir conhecimentos, justamente, sendo esta uma propriedade que Kohl não reconhece na interpretação, mesmo no contexto do ecoturismo.

Desta forma, no ecoturismo, falamos de interpretação, o que, contudo, não impede que se procurem atingir objectivos educacionais como procurar transmitir conhecimentos e fomentar o interesse por questões ecológicas mais amplas, que possam eventualmente traduzir-se em

comportamentos mais sustentáveis. Este desafio é defendido por vários académicos, que reconhecem na interpretação a capacidade de o concretizar, como referimos.

A par deste debate, sobretudo semântico se considerarmos o fim a atingir, realcemos desde já que, apesar de se contornar esta questão optando pelo termo 'aprendizagem', existe uma diferença fundamental nos processos envolvidos na interpretação/educação, e na aprendizagem. Enquanto que na primeira situação se trata de uma dinâmica que envolve terceiros, a segunda depende de uma dinâmica interna, mesmo que inserida num contexto social, naturalmente. Assim, “Falk (2005) defines learning as a cumulative, combined process of knowledge acquisition and construction within social and cultural contexts” (Kachel & Jennings, 2010: 135). Além disso, “learning is a biological process with deep evolutionary roots (…) Education is the process by which learning is supported by other individuals” (Falk et al, 2012: 913).

Como referem Falk et al (2012) grande parte da nossa aprendizagem ocorre fora das salas de aula. Os autores Ballantyne & Packer sublinham que “although much of the literature examining sustainability education is concerned with formal education programmes, only a small percentage of the public's understanding of the world in general, and environmental conservation and sustainability in particular, is gleaned from such sources (Falk, 2001)” (Ballantyne & Packer, 2005: 281). Antevemos, desde já, que as características próprias ao ecoturismo, impeditivas para a sua função pedagógica de acordo com Kohl (2008), podem também ser vistas como potencialidades a explorar tendo em vista a consciência ecológica que referimos. Assim, ultrapassando agora a questão de se tratar de interpretação ou educação, importa debruçarmo-nos sobre o processo de aprendizagem.

II – Particularidades e potencialidades da pedagogia no contexto do ecoturismo II.1 – Uma aprendizagem voluntária em contextos informais

Como referimos, a experiência de aprendizagem que ocorre no contexto do ecoturismo é de natureza voluntária e lúdica. A partir de uma análise de várias definições de interpretação, Moscardo realça a importância da experiência pedagógica e, simultaneamente, sugere uma caracterização, ainda que indirecta, do processo: “Clearly interpretation is about communicating and education but the definitions of interpretation also concentrate on the importance of visitor enjoyment, on exciting curiosity and on contributing to conservation. Interpretation is a special kind of communication that is particularly relevant to tourism and recreation” (Moscardo, 1998: 3). Pela dimensão lúdica envolvida, poderíamos pensar que a eficácia da pedagogia está comprometida. Contudo, pelo contrário, tendo em conta o resultado que se pretende da experiência, a componente voluntária e de lazer pode ser benéfica. Aliás, existe uma necessidade de reconceptualizar a aprendizagem no

contexto do turismo, ultrapassando a ideia de que educação e entretenimento são contraditórios (Falk et al, 2012: 915)

Antes de mais, sobre a aprendizagem voluntária ('free-choice'), adoptaremos a perspectiva assumida por Ballantyne & Packard (2005), que consiste no seguinte: “learning that is driven by the needs and interests of the learner, rather than by the dictates and needs of an external authority” (Ballantyne & Packard, 2005: 283). Em consonância com esta definição está a de Falk et al (2012), para quem se trata de “learning characterized by a reasonable amount of choice and control over what, where, when, with whom and why they learn” (Falk et al, 2012: 913). Estas definições de aprendizagem voluntária não são isentas de pressupostos do ponto de vista das dinâmicas comunicativas estabelecidas no processo, como veremos no capítulo seguinte, quando nos debruçarmos sobre tipos de sociabilidade e implicações para o processo discursivo.

Para caracterizar o processo de aprendizagem voluntária, Falk e Dierking (2000) desenvolvem o Modelo Contextual de Aprendizagem, de acordo com o qual a aprendizagem é um processo cumulativo, e resulta da interligação entre os contextos pessoal, socio-cultural e físico. Daí decorre que cada um tenha motivações e expectativas diferentes em relação a experiências de aprendizagem – bem como 'pontos de partida' diferentes – tornando a aprendizagem voluntária e informal algo difícil de medir quantitativamente (Ballantyne & Packard, 2005), sendo que a aprendizagem em geral é um processo extremamente complexo e não apenas uma colectânea de conhecimentos (Falk et al, 2012). Contudo, apesar dessa limitação, a aprendizagem voluntária em particular pode ser uma via privilegiada para promover a adopção de valores e comportamentos mais sustentáveis no quotidiano. Posto isto, parece-nos corente afirmar que, pelo potencial que apresenta, a aprendizagem voluntária que ocorre numa experiência ecoturistica merece ser objecto de reflexão, nomeadamente no que diz respeito às estratégias de comunicação utilizadas no processo pedagógico.

Acrescentemos o facto de que a iniciativa partir do próprio indivíduo, por oposição a ser imposto algum tipo de regra, parece ser uma abordagem mais eficaz quando se trata da adopção de certos comportamentos ou estilos de vida. Um dos principais objectivos é “generate quality of life for all, and for good” (Sustainable Consumption Roundtable, 2006: i). Não retiramos, claro está, a importância a outros actores no processo de tornar os nossos estilos de vida mais sustentáveis, como o governo e as empresas. Contudo, no lar de cada cidadão, ao nível de decisões que o relatório “I Will If You Will refere como “deep-seated changes to habits and routines, like restoring a sense of seasonality to what we eat, turning off lights and opting to walk or cycle” (idem: 1) dificilmente serão alteradas a longo termo apenas através de políticas ou leis, que são mutáveis com o tempo, e contornáveis onde existe a vontade. Daí que o relatório considere que “the key now is to take action

that enables people to take up the more sustainable habits and choices that they want” (idem). É também nesta perspectiva de empowerment que incluímos este estudo. Ou seja, mais do que através de leis, a adopção de um certo estilo de vida a longo termo parece estar nos costumes, numa naturalização colectiva de valores que seja possível sustentar ao longo do tempo. O caso do ecoturismo é paradigmático desta ideia: os hóspedes de um empreendimento ecoturístico são frequentemente deixados às suas actividades, nem sempre com a presença de guias. Mesmo sendo explicadas as regras de comportamento que permitem conservar os recursos naturais de uma área, o ecoturista pode não colocar em prática essas regras, e não será punido por isso, por o espaço a controlar ser demasiado grande para monitorizar o comportamento de cada um. Arrancar flores, deitar lixo no chão, entre outros, são comportamentos que serão evitados se assim for decidido pelo ecoturista, não pela mera transmissão/imposição de regras cujo cumprimento é extremamente difícil de monitorizar. O mesmo é aplicável a muitas decisões tomadas no dia-a-dia na privacidade do lar de cada um. Ora, “to act, [people] need the confidence that they will not be acting alone, against the grain and to no purpose” (idem: 6). O cerne da questão, neste estudo, está justamente em desenvolver formas mais eficazes de operacionalizar a função pedagógica do ecoturismo numa perspectiva de empowerment dos cidadãos. Acrescenta-se que a importância da adopção de um certo tipo de comportamentos é fundamental para o ecoturismo, algo que é tornado claro pelo exemplo que acabamos de mencionar. Como referem Ballantyne et al., evidenciando desde já o papel da problemática comunicacional nesta questão, “management strategies could build on this sense of “good-will” by enlisting tourists' assistance as conservation partners wherever possible, rather than enforcing rules and regulations to control tourist behaviour (…) The findings of this study suggest that the key to balancing the needs of tourists with the need of wildlife is to clearly communicate the reasons behind particular management practices in terms that relate directly to protecting the animals from human impacts” (Ballantyne et al, 2009: 663). Debruçar-nos-emos sobre as formas específicas de estabelecer estas situações de comunicação mais adiante.

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