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Com isso, tem-se delineados os traços da repetição do ponto de vista estético em Kierkegaard. As consequências desta relação direcionam-se para muitos sentidos, tanto no que diz respeito à uma dogmática religiosa que consiga lidar de maneira satisfatória com a injunção da ética com a estética (tanto no sentido de conceber uma boa arte como uma bela ética, o que só é possível na medida em que o religioso se encontra como substrato capaz de unir as duas instâncias), quanto no que diz respeito à instauração uma discurso duplamente refletido cuja relação com o movimento religioso da repetição o impede de prescindir de categorias estéticas em sua manifestação.

A repetição é e permanece uma categoria religiosa; contudo, o próprio religioso, na medida em que instaura-se numa interioridade cuja inefabilidade impõe um método de comunicação exterior a ele próprio, deve ser concebido como estabelecendo uma relação de completude com o estético e vice-versa911. A dimensão religiosa deve, pois, instituir-se como o substrato para o desenvolvimento do estético, seja sob a forma da melancolia (que, em última instância, pressupunha a repetição desde o início), seja sob a forma da produtividade poética que se manifesta na repetição atingida pelo jovem. No que concerne à repetição, distinção entre o estético e o religioso não pode, portanto, ser qualificada como nítida ou peremptória, e deve-se penetrar nos meandros de uma e de outra relacionando-as de modo constante. Mas a insuficiência da repetição ela própria enquanto conceito para designar o religioso enquanto eternidade indica que o salto para o infinito requer, em última instância, que se abandone no seu efetivar-se a própria noção de repetição enquanto tal, o que faz com que ela venha a se tornar apenas uma nova representação de algo que a ultrapassa,ou seja, um elemento estético cujo “vigor expressivo” encontra-se a serviço de um movimento interior que ela é incapaz de esgotar.

Desse modo, a pergunta sobre a repetição de um ponto de vista estético deve situar-se sobre o significado do estético dentro da característica da repetição como categoria produtiva, ou seja, como a repetição se dá, do ponto de vista estético, como um movimento que circunda a interioridade religiosa numa pulsão constante em exprimi-lo, sem, contudo, jamais esgotá-lo; e em função dela o poético deve se estabelecer. Nesses meandros, a pergunta sobre o estético deve também ser posta sob vários ângulos distintos, movimento este a partir do qual surgirão articulações como o sacrifício lírico-poético e a transfiguração religiosa no sublime, que sugerem que a aproximação entre o estético e o religioso sustentam, de certa forma, uma possibilidade de reconciliação paradoxal; mas cujo fundamento depende não mais de uma concepção do estético

911Como Marcio Gimenes de Paula afirma dos estádios da existência, todos eles "espelham facetas da existência humana e, de certa forma, se completam". Cf. PAULA, M. G.; A Repetição e o Instante em Kierkegaard: um

como aquele esteticismo melancólico do jovem in suspensu grado, do esteta A de Either/ Or, ou mesmo do sedutor Johannes, mas sim de um outro tipo de concepção do estético que é engendrado pelo próprio movimento produtivo cujo fundamento é a repetição, num movimento de retomada daquilo que para ela é o ensejo fundamental apontado no texto, ou seja, a categoria viva e pulsante do poético, cujo limiar com o religioso consiste na articulação fundamental da repetição enquanto categoria.

A intenção de conceber esta perspectiva em que a associação do estético com o religioso, ou, dito de outro modo, o entrelaçamento entre fé e poesia912, se desdobra em outros registros, como por

exemplo na concepção de uma retomada da ética e da estética num sentido mais elevado a partir da repetição, será, não obstante, apenas sugerida como conclusão deste trabalho. A formulação paradoxal da repetição do ponto de vista estético – que, ao mesmo tempo em que mostra-se como uma impossibilidade efetiva, pressupõe a própria repetição e eleva o próprio estético a um outro patamar – abre precedente para que se conceba um esteticismo dominado através do religioso como uma segunda estética913, cuja reduplicação tem como fundamento principal a categoria do sublime. Esse movimento caracterizar-se-ia como uma elevação do estético acima de si próprio, e cuja reflexividade transcendente engendraria a produtividade na subjetividade. Nesse sentido, a noção de indivíduo fica concebida do ponto de vista da repetição, enquanto confinium do estético e do religioso, sob a determinação do sacrifício poético; a produtividade poética portanto revela a concepção religiosa do indivíduo na medida em que ela encontra naquela a sua única possibilidade de expressão, no que o poético toma a forma da comunicação indireta.

Dessa forma, o poético atinge uma reduplicação que incide na linguagem de forma em que ela num só movimento eleva-se acima de si mesma, e revela a instância do não-dito como aquilo a partir do que ela vem a ser limitada. Esta articulação tem seu efeito na medida em que a repetição é considerada um movimento que engendra uma metaperspectiva; aqui, a divisão da estética entre uma teoria da arte e um modo de vida adquire contornos absolutamente distintos, em que se poderia falar de uma meta-estética cuja perspectiva possibilita uma qualificação poética que, justamente por efetuar esse movimento de reduplicação, instaura-se como uma modalidade da existência que vai além do mero contemplativo exigido por uma teoria do belo. No entanto, na medida em que a repetição se define como uma categoria do vir-a-ser, ela aponta para o futuro e revela o movimento para a frente como um paradoxo, cuja efetividade só pode revelar-se no presente por meio de uma perspectiva que se determina pela finitude daquilo que ainda não se realizou, e que se manifesta esteticamente na atualidade por meio do humorístico. A importância da farsa para a categoria da

912Para usar uma expressão de de Paula. Cf. PAULA, M. G.; Repetição e Instante: um entrelaçamento de conceitos, p. 65.

913Esse esteticismo dominado se institui de maneira análoga à secunda philosophia aludida por Haufniensis, “cuja essência é a transcendência ou a repetição”. Cf. O Conceito de Angústia, p. 23.

repetição se revela então na modalidade estética por meio da qual a repetição se faz presente para o poético, o qual, por sua vez, dará a ela a sua forma de expressão por meio de uma comunicação que aponta para o estético como um meta-discurso que permite expressá-la indiretamente.

Desse forma, há a necessidade incontornável de uma retomada do estético e do ético a partir da transubstanciação paradoxal efetivada pelo movimento efetivo da reduplicação sob uma perspectiva também interpenetrada pela alteridade que dele resulta. Mas desse modo, a condição de possibilidade de uma meta-estética é a mesma que a de uma metaética, o que implica que ambas só podem subsistir uma ao lado da outra, e interpenetrando-se mutuamente numa relação dialética calcada na ausência de síntese específica do paradoxo gerado pelo indivíduo enquanto exceção. Dessa forma, não pode ser dada como gratuita a designação da exceção como uma exceção poética, pois o estético – bem como o poeta como aquele que vive em função do serviço à ideia – possui, nessas condições, a tarefa de servir ao mais elevado, e sua autêntica repetição, em que ele vem-a-ser ele próprio um esteticismo mais belo, deve dar-se nesse registro.

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