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A pesca de peixes recifais com armadilhas no Nordeste do Brasil, bem como em outras regiões do mundo, é uma atividade que envolve uma considerável riqueza de organismos. No presente estudo 91 espécies e 29 famílias foram registradas nas observações realizadas ao longo dos últimos anos neste país. O total dos táxons identificados representa cerca de 20% das espécies recifais conhecidas para a costa brasileira, que são 437 (FLOETER et al., 2008).

Labridae, a principal família registrada nas capturas é citada por Price et al. (2015) como uma das famílias mais bem sucedidas na ocupação dos ambientes recifais e também como estando entre as mais diversas. Esta família, assim como Carangidae, Lutjanidae, Epinephelidae, Haemulidae e Scombridae, as quais apresentaram os maiores números de táxons capturados, são também bastante valorizadastanto no mercado local quanto no internacional (JOHNSON, 2010). As famílias citadas representaram menos de um terço do total observado, porém, continham mais da metade das espécies desembarcadas.

Espécies, como as ornamentais das famílias Pomacanthidae e Chaetodontidae, por exemplo, ou aquelas pertencentes à família Labridae (Bodianus rufus e Halichoeres dimidiatus), apresentaram volumes pouco significantes nos desembarques. A ocorrência de espécies pouco observadas nas capturas pode ser explicada pela baixa seletividade do petrecho utilizado, que culmina com a captura acidental de alguns organismos e seu respectivo descarte (MARQUES; FERREIRA, 2010). Este descarte ocorre, muitas vezes, pelo baixo valor comercial das espécies ou tamanho reduzido dos indivíduos, mesmo aqueles considerados importantespara a economia (FAO, 2014).

Organismos de interesse no mercado da aquariofilia são capturados comumente como fauna acompanhante nesse tipo de pescaria. As avaliações realizadas com indivíduos de quatro espécies capturadas em Pernambuco resultaram na classificação de todas como susceptíveis à captura e metade destas com baixa capacidade de recuperação em relação à pressão pesqueira exercida sobre as populações (FEITOSA et al., 2008).

Algumas espécies registradas como componentes da captura não são consideradas tipicamente recifais, como é o caso de alguns indivíduos das famílias Clupeidae, Centropomidae, Coryphaenidae, Istiophoridae, Mugilidae, Sciaenidae e Scombridae, presentes nos desembarques monitorados por Marques e Ferreira (2010) e Ivo, Vasconcelos e Osório (2010). Isto pode ser explicado pelo uso comum de outras artes de pesca simultaneamente às armadilhas, tal como anzol e linha e redes (MARIANO; ROSA, 2010; CARVALHO et al., 2013).

Sabe–se que os organismos que ocupam posições de topo na cadeia alimentar são indiretamente responsáveis pela estrutura das populações em diversos ambientes, como é o caso dos recifes, e é exatamente sobre elas que se exerce a maior pressão pesqueira (FLOETER; HALPERN; FERREIRA, 2006; BOADEN; KINGSFORD, 2015). Portanto, a presença de indivíduos pertencentes a níveis tróficos inferiores, como foi o caso dos predadores de invertebrados móveis e

dos herbívoros, pode representar a ocorrência de efeito cascata nesses ecossistemas.

Em relação à classificação das espécies quanto ao seu grau de ameaça, os dados resultantes apresentaram diferenças significativas. A Lista Vermelha da IUCN, classificou apenas quatro espécies dentro das três categorias de maior ameaça, entre elas está Scarus trispinosus, endêmica para a costa brasileira e identificada como ameaçada de extinção. Na classificação do FishBase, no entanto, 22 espécies estão nas categorias de maior vulnerabilidade. Dentre as espécies assim classificadas, metade diz respeito às famílias Muraenidae, com os três táxons observados nos desembarques estando sob algum grau de ameaça, Epinephelidae e Lutjanidae, cada uma com cinco espécies entre as mais vulneráveis.

A lista de espécies vulneráveis publicada na portaria 445 do MMA contém apenas 10 táxons entre os observados nas capturas. Dentre eles, Scarus zelindae, Sparisoma axillare, Sparisoma frondosume Hippocampus reidi não foram citados por nenhuma das outras fontes consultadas.O documento citado acima indica 475 espécies de peixes e invertebrados aquáticos ameaçados de extinção no Brasil e propõe algumas medidas de conservação para estes, porém ainda não entrou em vigor, devido a uma liminar que suspende os efeitos de tal portaria e que não possui data estimada para julgamento (VALE, 2016).

Estas diferenças denotam a necessidade de se analisarem cuidadosamente os critérios aplicados na classificação das espécies (STRONA, 2014). A presença das espécies do gênero Scarus, endêmicas da costa brasileira chama a atenção para a necessidade do monitoramento mais efetivo das capturas, uma vez que caso estas espécies sejam extintas, não será apenas a nível local, e sim global (FLOETER; HALPERN; FERREIRA, 2006).

Foi observado que os organismos classificados com maior grau de ameaça estão nos níveis superiores da cadeia trófica (principalmente carnívoros) (FLOETER et al., 2013). Estes animais são de grande importância econômica, pois geralmente possuem o maior tamanho corporal e consequentemente, maior valor entre os indivíduos comercializados, como descrito por Marques e Ferreira (2010).

Quanto ao emprego desta arte de pesca, a preferência dos pescadores pelo uso de armadilhas de formato retangular foi justificada por estas serem mais compactas e pela maior resistência do material utilizado em sua composição (PEAD), em comparação às de formato V, que eram compostas por cana brava (RIBEIRO, 2004; IVO; VASCONCELOS; OSÓRIO, 2010). Pode-se afirmar que não existe padronização do esforço de pesca aplicado nos estados avaliados, com base nas variações observadas no uso das embarcações e armadilhas registradas em todos os estudos avaliados, como é o caso do tamanho das embarcações, da quantidade e tempo de submersão dos covos e da abertura da malha destes petrechos.

Observou-se também diferenças entre os estados quanto à distribuição dos produtos da pesca. Os organismos capturados no Rio Grande do Norte foram

em sua maioria exportados para outros países. Apenas quando não cumpriam as exigências feitas pelos compradores eram devolvidos aos pescadores e vendidos localmente (CARVALHO et al., 2013). Em Pernambuco, no entanto, os peixes de maior valor e maior tamanho eram vendidos no próprio estado, em peixarias ou feiras livres e, apenas os budiões, caraúnas e saramunetes eram exportados, sendo os saramunetes o principal alvo de captura e exportação (MARQUES; FERREIRA, 2010). Esta afirmação é justificada pela ocorrência das espécies componentes destas categorias junto com espécies de importância comercial, como os lutjanídeos e epinefelideos e pela consequente aprovação dos consumidores finais (Roberto A. A. de Carvalho, comunicação pessoal).

Os períodos de maior captura registrados por Ribeiro (2004), Cunha, Carvalho e Araújo (2012) Carvalho et al. (2013) se concentraram entre os meses de dezembro e abril, dados que corroboram com a afirmação de que o uso das armadilhas na capturade peixes recifais ocorre durante o período dedefeso da lagosta e confirmam a efetividade da prática como uma alternativa de fonte renda para os pescadores. No que diz respeito às exportações, foi observada a relação entre os maiores e os períodos de melhor cotação do dólar, moeda utilizada no mercado (Roberto A. A. de Carvalho, comunicação pessoal).

Embora a exportação seja uma atividade com forte presença na região, pôde-se perceber a incapacidade das empresas em fornecer informações científicas adequadas sobre as espécies comercializadas, como foi observado para algumas famílias exportadas no Rio Grande do Norte. As falhas na fiscalização realizada pelos órgãos governamentais responsáveis (principalmente o MAPA), também é um obstáculo ao monitoramento adequado da atividade, como identificado por CUNHA, CARVALHO e ARAÚJO, (2012). No entanto, os autores citados acima justificam a dificuldade de identificação dos animais, em parte, com o argumento de que os indivíduos de uma mesma espécie podem apresentar padrões variados em sua coloração e que os compradores não exigem separação por espécie para algumas famílias, como ocorre com a família Labridae.

O conjunto de dados obtidos comprova o aumento indiscriminado do aumento nas capturas de fontes marinhas de proteína para consumo humano, uma vez que os estoques daquelas consideradas como principais alvos não conseguem suprir a demanda atual, como é o caso da lagosta (IVO; VASCONCELOS; OSÓRIO, 2010). Isto indica que os principais atores envolvidos nesta atividade, que são pescadores e os responsáveis pela comercialização dos produtos, aparentam interesse principalmente em suprir a demanda existente, sem considerar os diversos fatores que são intrínsecos ao equilíbrio ambiental, como por exemplo, a manutenção das populações explotadas e, por sua vez, influenciam diretamente a oferta dos produtos procurados.

Devido ao declínio registrado nas populações de lagostas no Nordeste do Brasil pela sobrepesca, atividade tradicional na região, têm sido tomadas algumas providências para proteger os indivíduos sobreviventes, como o período de defeso por exemplo (MARQUES; FERREIRA, 2010). No entanto, acredita-se que o período determinado para a execução desta medida (dezembro a maio) não é o mais eficaz, em relação à recuperação das populações (observou-se que o período de

reprodução destes animais ocorre entre os meses de julho e setembro) e aos custos da prática (no período de captura os esforços aplicados pode atingir altos valores, no intuito de gerar bons rendimentos) para as espécies capturadas (SILVA; FONTELES FILHO, 2011).

Estas informações podem ser utilizadas como exemplo na tomada de atitudes em relação à preservação de espécies de peixes recifais, antes que estas entrem em colapso, bem como demonstrar a necessidade de estudar profundamente o ciclo de vida das espécies as quais se deseja direcionar a medida de proteção, garantindoo cumprimento de seus objetivos.

A criação de áreas protegidas, que permitam a recuperação de espécies com ciclo de vida mais longo, e alterações na malha das armadilhas, bem como da criação de aberturas de escape, que evitam a captura de indivíduos menores e imaturos, são medidas que apresentam resultados favoráveis à recuperação das populações de peixes, como observado na ilha de Curaçao (Caribe), no Quênia (África) e em algumas regiões da costa brasileira, como no arquipélado de Abrolhos (FLOETER; HALPERN; FERREIRA, 2006; JOHNSON, 2010; GOMES; ERZINI; MCCLANAHAN, 2013).