6. FORRETNING ELLER VELDEDIGHET?
6.4 J A TAKK , BEGGE DELER
O presente estudo foi desenvolvido na Linha de Pesquisa de Práticas, Saberes e Políticas de Saúde, trazendo reflexões sobre a integralidade, considerada por vários estudiosos sobre essa temática como o mais desafiante, dentre os princípios, no contexto de efetivar as transformações nas maneiras dos trabalhadores de produzirem cuidados de saúde, bem como no modelo assistencial, na direção de contribuir para a consolidação das premissas do SUS.
Teve como foco descrever os sentidos de integralidade produzidos com os trabalhadores de SF, relativos ao cotidiano de suas práticas de atenção à saúde, num contexto relacional, dialógico e específico, por meio de performances construcionistas. Essas descrições foram organizadas em duas tematizações: “Quando os participantes recorrem ao discurso da integralidade, enquanto um atributo das práticas dos trabalhadores” e “Quando os participantes recorrem ao discurso da integralidade, enquanto um atributo da organização dos serviços de saúde”.
Nessa direção, as contribuições dessa pesquisa incidem numa dimensão tanto técnica como política da integralidade, enquanto princípio norteador das mudanças necessárias nos conhecimentos e nas práticas em saúde.
Durante as conversas, os participantes do grupo falaram sobre as questões deixadas para preparação e sobre histórias cotidianas, que acreditavam estar relacionadas com a integralidade.
Num primeiro conjunto de sentidos essa foi abordada numa perspectiva de apreensão abrangente do homem e de suas necessidades pelos trabalhadores, assim como das melhores maneiras de respondê-las. Após introdução de entendimentos sobre esse termo por alguns participantes foram-se produzindo, por meio de uma interação face a face, de descrições e posicionamentos, de consideração ao saber do outro uma autoanálise das práticas atuais. Isso envolveu identificações, discussões e reflexões sobre perspectivas tradicionais e biomédicas presentes na relação entre os sujeitos envolvidos no encontro, por meio do qual ocorre o trabalho em saúde; na postura dos usuários e dos trabalhadores; e na organização das práticas e dos serviços de saúde, que vinham produzindo um distanciamento da efetivação desses sentidos.
Assim, de modo mais contextualizado, colaborativo, e com a corresponsabilidade dos participantes envolvidos, à medida que se conversava novas formas de participar dos relacionamentos, novas posturas e novas maneiras de organizar as práticas e os serviços foram também organizadas.
Nessas conversações, os participantes apontaram para uma indissociabilidade operacional entre os sentidos da integralidade produzidos a partir dos discursos das práticas e os produzidos a partir da organização dos serviços. Pois, para apreender as necessidades do usuário e tratá-lo como um todo a organização dos serviços deve ser conformada a partir de relações horizontalizadas, porosas à participação dos trabalhadores, com valorização de parâmetros e necessidades da população, e ainda com articulação entre os serviços e os trabalhadores.
Já num segundo conjunto, os sentidos compreenderam a capacidade dos trabalhadores de envolverem os usuários, como cidadãos para participarem da apreensão abrangente das necessidades e da elaboração de formas de respondê- las. A possibilidade da equipe de estabelecer parcerias com outros setores, formando redes para garantir o acesso continuado, também fez parte dos entendimentos de integralidade aqui produzidos.
A produção desses sentidos ocorreu com menor distribuição das falas no grupo quando comparada ao primeiro conjunto, numa perspectiva de apreensão abrangente do homem e de suas necessidades pelo trabalhador. Essa ocorreu num caráter mais descritivo e informativo. A coordenadora contribuiu bastante nomeando e exemplificando sentidos, convidando os participantes a refletirem sobre o que falava.
No que se refere ao fluxo das conversações ocorreu algo semelhante entre os conjuntos de sentidos como, a introdução de entendimentos sobre o termo foi seguida de autoanálise sobre as organizações atuais, com identificação de elementos dificultadores da prática do sentido de integralidade produzido, convite a reflexões e nomeação de condutas desejáveis, como: postura de abertura à participação dos usuários para trazerem suas necessidades e decidirem sobre as respostas a essas; busca de articulações com outros setores, visando construir redes de saúde e comunitárias que permitam um fluxo e contrafluxo dos usuários para continuarem recebendo melhores respostas, demandadas pelas suas necessidades.
Um olhar atento ao modo como esses participantes referiram à integralidade na construção desses sentidos parece indicar previamente, que os discursos sobre esse termo, para estruturar o SUS e privilegiados pela ESF conviveram com discursos mais tradicionais, trazidos pela racionalidade científica moderna e pelo modelo biomédico de fragmentação do homem. Porém, essa convivência não foi pacífica, uma vez que os discursos tradicionais, usados para descreverem práticas de atenção e organização dos serviços vigentes, foram empregados como um dispositivo na construção de intenções de mudanças, de superações daquela estrutura, na busca de operacionalizar os sentidos produzidos com os discursos de integralidade.
Isso pode ter ocorrido, pelo fato da integralidade ter sido apreendida numa perspectiva de lente, que possibilitou, por meio de um olhar ampliado para as práticas e os serviços, desenvolver pensamentos críticos e indicar uma direção que se quer imprimir à transformação.
Franco e Merhy (2005) dizem que a mudança de atitudes, bem como a assunção de uma nova postura de modelo de atenção não se desenvolvem de forma tão fácil como parece. Pois, conforme esses autores, por os trabalhadores deterem saberes e práticas tradicionais, que refletem na forma de produção dos procedimentos, requerem uma desconstrução no aspecto cognitivo e subjetivo do projeto que veicula até então, que pode ser feito por meio de processos de autoanálise sobre sua tradicional forma de agir e de produzir saúde junto ao usuário.
Por essas discussões daria para afirmar, de antemão, que as conversas, que permearam esse grupo falaram da apreensão da integralidade em vários entendimentos. Assim, essas informações produzidas foram suficientes ora para gerar autoanálise e reflexões das práticas vigentes, visando desconstruir aspectos de um projeto tradicional, vinculado ao homem fragmentado, ora para gerar primeiras aproximações do sentido da integralidade, enquanto uma postura de articulação de diversos tipos de tecnologias para responder as necessidades de várias naturezas dos usuários.
Outra contribuição interessante dessa pesquisa diz respeito à maneira como ocorreu a produção das informações, que foram trabalhadas na análise desse estudo. Essa se constituiu de um empreendimento ativo e cooperativo de pessoas em relação, que aproximou-se de uma prática da integralidade.
Por meio das interações grupais, orientadas na perspectiva sócio construcionista, que apreende as pessoas como seres circunscritos em diferentes contextos, como cultural, social e histórico específico, foi possível construir outra maneira de relacionar entre pesquisador e participantes (gestora e trabalhadores).
Nesse sentido, a perspectiva Construcionista Social mostrou potência nessa pesquisa para aproximar de ações práticas de alguns sentidos da integralidade, por possibilitar uma construção relacional, interativa, dialógica e colaborativa para produção dos sentidos, por viabilizar a abertura de várias formas de participação negociadas e compromissadas com a produção de descrições, assim como por permitir respeito e o cuidado com o outro ao escutar e considera o seu saber para sustentar, modificar, abandonar ou, ainda, introduzir diferentes descrições. Por meio dos processos conversacionais, desenvolveu-se construções contextualizadas e com possibilidade de transformações nas práticas vigentes.
Assim, para continuarmos produzindo descrições sobre a integralidade e outros princípios envolvidos na proposta do SUS, a abordagem epistemológica Construcionista constitui-se em uma alternativa útil, na direção de valorizar a produção dos sentidos nas interações e nas práticas dialógicas entre sujeitos envolvidos no processo. Tais produções tem potências para construir e legitimar também possibilidades transformativas na realidade, ao sustentar outras formas possíveis de viver e agir na produção de cuidados em saúde.