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Å være profesjonell i møte med døden

5.2 Resultatdiskusjon

5.2.7 Å være profesjonell i møte med døden

Para analisarmos a heterogeneidade da elite política acreditamos que trabalhar com o conceito de gerações nos trará mais subsídios para entendermos o grau da circularidade da elite política rio-grandense. Se ocorria a circularidade queremos verificar se políticos que estavam iniciando a carreira passaram a integrar a elite política. Também averiguarmos qual o tempo de permanência das pessoas na carreira política.

Para iniciarmos esta discussão, vejamos como Pedro Lyra argumenta sobre as gerações:

Essa coletividade [geração] entra em cena histórica num determinado momento, sob certas condições e com uma certa missão a cumprir. Nascida da anterior, sua tarefa radical consiste em elevar a humanidade para um nível

de cultura e de vida superior àquele em que a encontrou. Por isso, cada geração é um degrau na escala da evolução humana: se não for, fracassa. Para poder promover esse avanço, ela tem que trabalhar sobre a realidade da sua época: como seja diferente das anteriores, a fisionomia de uma geração não pode ser jamais igual à de uma outra. Cada uma tem datas, problemas, marcos, desafios, bandeiras, temas e ideais próprios – mas também agentes e meios para enfrentá-los. Tem não apenas que dar respostas satisfatórias às questões novas, colocadas por seu próprio tempo, mas ainda que dar respostas novas às questões eternas e às deixadas em suspenso pela geração anterior. Aliás, ela tem que superar a geração anterior. Superar não no sentido banal de “ser ou fazer melhor” mas no sentido dialético de conduzir para a frente e para cima – para o novo, para o próprio. Nessa tarefa, ela conta com a grande vantagem de acumular a experiência de todas as gerações passadas, que desembocam nela. Por esta razão, ela pode fazer o que as anteriores não fizeram, na mesma medida em que as anteriores não podiam ter feito o que ela deve fazer. Além disso, os atos históricos e os instrumentos tecnológicos decisivos do destino de uma nova geração normalmente são produzidos por indivíduo(s) na faixa de maturidade – portanto, da geração precedente, que está no poder, ou seja: em condições de produzi-los. Os novos agentes apenas e já entram em cena num mundo modificado por outros, como eles também devem fazer para uns terceiros que, do mesmo modo, vão reagir às mudanças introduzidas à sua revelia e às vezes contra seus interesses e expectativas.94

Este longo trecho nos remete à centralidade da nossa preocupação, ou seja, cada geração não pode ser vista desmembrada da anterior, embora tenha diferenças em relação a ela e novos desafios a serem enfrentados. Em virtude de trabalhar sobre a realidade de seu tempo, ela nunca será igual à anterior, pois sempre terá de enfrentar novas realidades, propor novas soluções para novos problemas, que não foram superados pela anterior. Uma geração tem de considerar o que herda das anteriores, e a partir disso propor o novo, a sua criação. Aqui novamente o autor faz referência a estes dois pontos: o herdado (que recebe das anteriores) e o próprio (que tem de criar). E escreve:

Diz Ortega (1975:17) que “O espírito de cada geração depende da equação que esses dois ingredientes formem, da atitude que a maioria de seus indivíduos adote diante de cada um deles”: quando predomina o herdado, tem-se uma época cumulativa, fruto de uma geração que não foi capaz de abrir um novo tempo e, portanto, fracassou; quando predomina o próprio, tem-se uma época eliminatória, fruto de uma geração que soube romper com o passado, libertar-se da herança recebida e afirmar a própria marca.95

A pergunta que se coloca é: em que grau as elites políticas podem ser vistas como resultado de criações? Ou estaria predominando nelas o herdado? Isso seria possível se tivéssemos de contar numericamente as pessoas, pela quantidade estaríamos possibilitando

94 LYRA, Pedro. Sincretismo: a poesia da geração 60: introdução e antologia. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995,

p. 27-28.

algumas explicações possíveis sobre as diferentes gerações que compõem a elite política rio- grandense. Numericamente estaríamos compondo o grau de participantes que poderia ser um indicador de qual a geração que estaria prevalecendo. Para fazer esta análise, procedemos à divisão em três faixas de nascimento, separadas por vinte anos, admitindo que a primeira corresponderia à velhice, nascidos antes de 1880, a segunda denominamos de maturidade, nascidos no período de 1881 a 1900, e, em terceiro lugar, a juventude, nascidos após 1900.96 Partimos do princípio de que quem estava na elite política em 1930, os nascidos antes de 1880, teria 50 anos ou mais, na faixa seguinte os de 30 a 49 anos e na terceira os que contavam com até 30 anos. Estas faixas serviram para fazer análises no período e verificar o grau de heterogeneidade do grupo, mas também dar suporte para uma análise entre as três elites e verificar quais as mudanças significativas entre elas para apontar mudanças, a fim de atingirmos o cerne de nossa investigação, ou seja, que o Estado Novo foi o momento de desarticulação de antigas elites políticas que atuavam até então. Mesmo que admitamos que esta desarticulação não tenha sido integral, pois se tratava de um período ditatorial, e em função disto, o Estado, através da Interventoria e do Conselho Administrativo de Estado, fez alianças com políticos que estavam atuando anteriormente, foi esse o momento em que os atritos ocorreram de forma aguda, o que ajudou a retirar do cenário político atores rivais.

Passemos à tabela número 10, para realizarmos uma análise para posteriores exemplificações com alguns políticos.

Tabela 10: PERÍODO DE NASCIMENTO segundo o número de ocorrências e percentagem no período de 1930-1937

Faixa de Idade Período 1930-1937

Nascimento Percentual

Até 1880 18 21,7

1881 a 1900 57 68,7

Após 1900 08 9,6

Total 83 100,0

As gerações consideradas na presente tabela foram divididas em três grupos: o primeiro composto por pessoas nascidas até 1800, acompanhando todo o processo de

96 LYRA, Pedro. Op. cit., 1995, p. 30-41. Para estabelecer estas etapas, nos baseamos no texto intitulado Etapas

implantação da república no Brasil; o segundo por pessoas nascidas entre 1881 e 1900, durante a implantação da República; e o terceiro grupo pelos nascidos após 1900, que iniciaram a sua participação a partir de 1920, quando ocorreu o agravamento da crise denominada de República Velha.97

O primeiro índice a ressaltar é que a grande maioria da elite política que atuava em cargos estava numa faixa que denominamos de maturidade, com 68,7%, seguida pela velhice, com 21,7%, e um pequeno número denominado juventude, 9,6%. Esses índices apontam para uma heterogeneidade da elite política, pois temos uma representação, mesmo que desigual, de diferentes gerações, o que poderia ser uma explicação dos grandes atritos entre eles.

As pessoas nascidas até 1880 estariam com 20 anos ou mais, em 1900, e teriam a sua formação escolar durante a implantação da República no Brasil. Essas pessoas tiveram a possibilidade de acompanhar esta implantação de forma mais próxima, vivenciando tais acontecimentos e passando por todo o período denominado de República Velha. As experiências políticas dos integrantes dessa geração estavam centradas num processo de mudanças significativas no Brasil no plano político, ou seja, seriam eles os construtores da implantação da república brasileira. No entanto, estariam ainda com uma forte herança do poder da oligarquia tradicional do estado do Rio Grande do Sul. Em 1930, estariam com 50 anos ou mais e passariam a integrar a faixa da velhice, ou seja, uma geração que seria substituída pela nascida entre 1881-1900.

Esta segunda geração, nascida entre 1881 a 1900, teve a sua formação escolar nos primeiros anos do século XX, num período da implantação da república e vivenciando todas as crises resultantes deste processo. Seus integrantes estariam propensos a instigar mudanças que refletissem as que estavam ocorrendo no Brasil, tanto no plano sócio-econômico como na implantação de novas diretrizes no âmbito político, que desembocariam na Revolução de 1930. E é exatamente nesta geração, chamada pela historiografia gaúcha por “geração de 1907”, já comentada anteriormente, que estaria incluída a geração nascida entre 1881-1900. Esse um exemplo típico de uma geração que assume a liderança de um processo político no âmbito regional e também no plano nacional.

97 Apoiamos nossa divisão no mesmo padrão metodológico utilizado por LOVE, Joseph. A locomotiva: São

Quanto à cisão entre os republicanos históricos e a geração de 1907, Luciano Aronne de Abreu elabora uma argumentação sobre as divergências entre eles, resultando numa cisão partidária em duas tendências. A alegação do autor é de que o contexto da formação das duas gerações, política e culturalmente, foram distintas. A geração dos históricos teve a formação, tanto política quanto cultural, nos anos finais do império, quando a ideologia positivista teve grande influência na formação de setores militares e de alguns grupos de republicanos. No caso do Rio Grande do Sul, a proximidade entre o exército e setores políticos ocorreu, resultando numa grande influência sobre eles do positivismo. Influência essa que só ocorreu com os Republicanos, ao contrário dos Liberais (federalistas), que defendiam um sistema parlamentar e eram hostis ao ideário positivista.98

Luciano Abreu, ainda sobre esta geração, escreve:

Os consolidadores da República no Rio Grande do Sul eram assim adeptos do positivismo e extremamente intransigentes em relação à oposição. Júlio de Castilhos, através da Constituição de 14 de julho de 189, impôs o positivismo no Rio Grande, o que se convencionou chamar de positivismo- castilhista, face às alterações sofridas em relação às idéias de Augusto Comte.99

Sobre a geração de 1907, o processo de sua formação foi distinto. Em primeiro lugar, quando iniciaram sua participação na política regional, a República já estava consolidada. O que deveria ser garantido era a supremacia do PRR, ameaçada pela união das oposições no processo eleitoral. Para essa geração, a influência do positivismo não foi tão marcante. Eles não eram tão intransigentes com os grupos da oposição,como eram os da geração histórica, ocorrendo um melhor relacionamento entre ambos – geração de 1907 e oposições.100

Dentre outros aspectos que marcaram as diferenças entre as gerações de Republicanos, conforme Luciano de Abreu, gostaríamos ainda de citar o posicionamento frente à atuação política de Pinheiro Machado. Esse político, integrante da geração de Republicanos históricos, de atuação política no cenário nacional, revelando-se um autêntico mediador ente o governo do Rio Grande e o Brasil. E afirma:

98 ABREU, Luciano Aronne. Getúlio Vargas: a construção de um mito (1928-30). Porto Alegre: EDIPUCRS,

1996, p. 31-32.

99 Id., ibid., p. 32-33. 100 Id., ibid., p. 33.

No cenário nacional, Pinheiro Machado garante significativa e decisiva participação política para o Rio Grande do Sul, enquanto, regionalmente, Borges de Medeiros mantém uma política isolacionista com relação ao restante do país. Sendo assim, Pinheiro Machado era o elo de ligação entre as duas instâncias do poder político: a nacional e a regional.101

Analisando as idéias defendidas por Pinheiro Machado e as defendidas pela ala jovem do PRR, há uma grande proximidade no que tange às idéias nacionalizantes. E citando alguns trechos dos discursos efetuado por Getúlio Vargas, Luciano de Abreu acrescenta:

Tais discursos autorizam-nos a apontar Pinheiro Machado como um modelo de atuação para os membros da geração de 1907. Conforme dissemos, a forma de atuação política de Pinheiro Machado diferia daquela adotada pelos demais integrantes da ala histórica. Quanto à geração de 1907, seus membros tinham uma visão política que os aproximava mais de Pinheiro Machado do que de Borges de Medeiros.102

Outro aspecto que consideramos relevante na argumentação de Luciano de Abreu refere-se à característica que comprova Getúlio Vargas como um político conciliador. E a título de conclusão escreve:

a) o espaço para o surgimento de tantos políticos destacados, principalmente na década de 1920, como João Neves, Getúlio Vargas, Osvaldo Aranha, Flores da Cunha e outros, foi possível face à decadência da dominação política borgista, que era extremamente centralizadora e limitava o aparecimento de novas lideranças.

b) o destaque de Vargas na política, tanto em nível regional como nacional, também faz parte do processo de decadência da dominação borgista e do positivismo castilhista. Devido a esse fato, como podemos depreender das afirmações de João Neves, a oposição ganha força e leva ao surgimento dos líderes de bancada, Nesse contexto, Getúlio destaca como um político conciliador.103

Ou seja, a geração de 1907 finalmente se consolida no poder e adquire características distintas da geração dos históricos. Principalmente quanto à forma conciliatória da arte de fazer política de Getúlio Vargas. À medida que se consolida no poder político em âmbito nacional, Getúlio Vargas e seu grupo elaboram uma articulação no campo regional para que esse estado não fosse empecilho para todo um projeto que Vargas acabou liderando na política nacional, que inicia em 1930 e só termina com sua queda em outubro de 1945, da presidência da República. E é exatamente nesse período que conseguimos revelar uma grande

101 ABREU, Luciano Aronne. Op. cit., 1996, p. 34. 102 Id., ibid., p. 35-36.

vantagem, do ponto de vista numérico dessa nova geração, ou seja, os que nasceram entre 1881 a 1900.

Neste período, 1930-1937, os dados apontam para uma entrada significativa de pessoas nascidas após 1900, 9,6%, indicando para uma circularidade da elite política. Estes números demonstram que esta circularidade, em termos geracionais estava ocorrendo, o que seria natural com um índice baixo se comparadas às duas outras faixas de nascimento. Ao mesmo tempo, já havia tentativas de elevados índices de atritos com uma geração mais antiga, que ainda representava interesses vinculados aos tempos da República Velha.

Sobre o conceito de circularidade de elites, baseamo-nos em Marie Kolabinska, comentando por T. B. Bottomore, referindo-se a três tipos de circulação:

Em primeiro lugar, temos a circulação que se dá entre diferentes categorias da própria elite governante. Em segundo lugar, há a circulação entre a elite e o resto da população, a qual pode assumir uma das duas formas seguintes: I) indivíduos dos extratos inferiores podem conseguir penetrar na elite existente, ou II) indivíduos dos extratos inferiores podem formar novos grupos de elite que se empenham em uma luta pelo poder com a elite existente.104

Essas três formas de luta pelo poder podem ser acompanhadas em nossa pesquisa: a circulação da própria elite governante, aqui no caso por entrada de integrantes de gerações mais novas; pessoas vinculadas às atividades profissionais que antes não tinham representação, e que estavam ganhando importância econômica, e como conseqüência dessas transformações econômicas, novos grupos sociais – operários – que iniciam uma luta pelo poder com a elite existente.

Vejamos alguns exemplos de pessoas da geração velhice que poderiam ilustrar nossas argumentações.

Antonio Augusto Borges de Medeiros nasceu em 1863, representou a geração que estaria com 67 anos em 1930, portanto em processo de declínio no campo político rio- grandense. Francisco Flores da Cunha, nascido em 1875, contava com 55 anos em 1930. Joaquim Francisco Assis Brasil, nascido em 1857, estava com 73 anos em 1930. Estes três exemplos mostram que os referidos sujeitos foram desalojados do poder na década de 30. A exceção foi Borges de Medeiros, que retornou à política em 1945 como presidente de honra

104 KOLABINSKA, Marie apud BOTTOMORE. T. B. As elites e a sociedade. Rio de Janeiro: Zahar, 1965.

da UDN, mas não participou em cargos de confiança ou eletivos. Exemplos típicos de pessoas que tiveram uma atuação na época da República Velha, daí a nomenclatura por nós utilizada de geração velhice.

Edgar Luís Schneider nasceu em 1893, portanto, estaria, em 1930, no auge de seus 37 anos. Mesmo que tenha entrado na vida política no final da década de 1920, passaria a constituir um integrante que permaneceria no poder durante todo o período que ora estamos pesquisando. Benjamin Dornelles Vargas, nascido em 1897, em 1930 estaria com 33 anos, porém, só entraria na política em 1935, como constituinte estadual, sendo sua estréia com 38 anos, conforme os dados que conseguimos. Firmino Paim Filho, nascido em 1884, com 46 anos em 1930, iniciou sua carreira política como conselheiro municipal, e depois intendente de Vacaria, em 1909, então com 25 anos. Se nos reportássemos à República Velha, ele estaria incluído na outra faixa, que denominamos de juventude, mas no período ora pesquisado já integrava a faixa maturidade.

O mesmo exemplo poderia ser dado no caso de Getúlio Dornelles Vargas. Nasceu em 1882, tendo iniciado suas atividades políticas em 1909 na Assembléia dos Representantes, portanto com 27 anos, e em 1930 estaria com 48 anos. Estaria, portanto, na faixa da maturidade, já tendo passado pela juventude. Encerrou sua carreira política com 72 anos, na faixa velhice. Uma longa carreira típica de um político brasileiro.

Este grupo representa a elite política que na juventude teria realizado processos de renovação, e na maturidade teria imprimido as reformas importantes para instituir uma política de reformas profundas na sociedade brasileira. Seria esta a geração que teria um efeito próprio, eliminatório, que, conforme Pedro Lyra, foi uma geração que soube afirmar a própria marca.

Passemos aos exemplos do grupo designado por juventude: Aníbal Di Primio Beck nasceu em 1902, tendo iniciado suas atividades de conselheiro municipal em Porto Alegre, mas não temos referência à data. A primeira que temos foi quando atuou como secretário na Secretaria da Agricultura, Indústria e Comércio, em 1936, e já contava com 34 anos.

O segundo exemplo é de Carlos da Silva Santos, nascido em 1904, e que passou à legislatura estadual em 1935, com 31 anos. Mas continuou atuando entre 1959 até 1983 no legislativo estadual e federal. Foi alçado à política em 1934 como representante classista, e

após 1945, retorna ao PTB, depois MDB e PMDB. Foi um típico representante da classe operária, mesmo sendo funcionário público, pois conseguiu cursar a Faculdade de Direito.

E, por último, Moysés de Moraes Vellinho, nascido em 1902, e que também iniciou suas atividades políticas em 1935 como constituinte estadual, então com 33 anos.

Pensamos ter conseguido, com os exemplos acima, tornar mais clara a recomposição das diferentes gerações que compunham a elite política, traço mais marcante da heterogeneidade desta elite.