O romance é bastante centrado nesse olhar para o sujeito e na submissão do indivíduo pelo coletivo. Quando pensamos a responsabilidade sobre o Outro e o
59 acolhimento do rosto para Levinas, há uma abertura para a pluralidade, algo que também está presente nas defesas feitas pelo narrador de História Natural da Ditadura (2006). O narrador não admite que ideias possam ser impostas a todos de maneira igual, já que há uma singularidade em cada indivíduo e que posturas, ações e identidades não podem ser em primeiro lugar coletivas, pré-determinadas.
Este narrador traz para o sujeito a questão da responsabilidade sobre suas ações, o que é compatível com o projeto de Levinas, mas falta a essa discussão o elemento de interação com o Outro que completa o Mesmo, conforme já defendido e citado por Butler no capítulo I. O indivíduo é um ser, enquanto ser social e é levado a conhecer-se a partir da interação que mantém com o Outro. Este é um aspecto silenciado na obra, apesar de seu narrador ter levantado inúmeras questões sobre a importância da subjetividade, da liberdade e responsabilidade do indivíduo perante suas ações (não sobre os demais).
Ele defende a ideia de que não aderiu nem aos projetos da ditadura, nem da resistência coletiva, mas pouco enfatiza sua não-escolha, sendo esta também uma ação política com consequências. A abertura para pluralidade se dá, nesse caso, com um narrador que defende o que Barberena (2015) chamou de “apocalipse da alteridade”. A singularização do indivíduo a tal ponto que já não é mais possível reuni-lo em pautas políticas comuns ou aderir a uma coletividade e agenda de causas e reivindicações. A não redução radical do sujeito a qualquer possibilidade coletiva leva também ao enfraquecimento de reivindicações políticas. Esta é a escolha feita pelo narrador, mas pouco se fala sobre seu peso e consequência para a história da própria ditadura contada no romance.
Silviano Santiago em entrevista ao jornal literário Suplemento Pernambuco, na edição de agosto de 2016, afirma que a situação política atual é complicada porque se, por um lado há inúmeros movimentos com agendas diferentes não se pode dizer que não há envolvimento e desejo de participação da população; por outro lado, os partidos não conseguem absorver essas demandas e não há uma ideologia que ofereça uma retórica consistente para união dessas forças progressistas. A única característica comum a todas essas associações é justamente o individualismo, segundo Santiago:
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A partir de um determinado momento nesse século cada um de nós e todos viramos participantes. Se você é mulher, você é participante, são grandes as questões feministas; se você é gay, você é participante; se você é índio, você é participante. Então a própria estrutura da participação passou a ser individualizada e, nesse processo, a constituição de um grupo é difícil (SANTIAGO, 2016: 12).
Os tempos de início do regime militar no Brasil são contados a partir da voz desse ex-estudante de direito da Universidade de São Paulo, membro de um grupo de amigos que fora, assim como tantos, atacado pelo Comando de Caça aos Comunistas (CCC) e sofrera a repressão violenta do Estado às manifestações. Ademais, vivia as contradições de pegar ou não em armas para combater a ditadura. Os personagens sentiam-se naturalmente envolvidos nas lutas de seu tempo, mesmo que desejassem deliberar individualmente sobre todas as decisões que fariam. O narrador quando começa a contar a história, com um olhar de análise e memória, passados mais de três décadas dos acontecimentos, coloca esse sentimento em conflito, não mais como natural, conforme parecia ser na época. Como diversas questões apresentadas, também para esta não há soluções simples e lados de certo ou errado a serem aderidos.
O narrador de História Natural da Ditadura, também como O punho e a renda (2014) e Soledad no Recife (2009), é um personagem que recolhe memórias e conta sua experiência sobre o regime militar no Brasil. Mas, ao contrário dos demais, escolhe não se deter apenas nos fatos. Temos um narrador mais debruçado sobre a reflexão, com um olhar analítico, do que sobre a necessidade de descrever o que passou. O narrador é alguém que conta a partir de uma experiência acumulada e uma perspectiva temporal dos anos 2000. Cabe lembrar, no que diz respeito às marcas desse pensamento, que sequer foi um simpatizante da luta armada, como diz ter sido o narrador de Soledad no
Recife.
Em diversas passagens esse narrador faz duras críticas sobre as imposições dos grupos de esquerda e evidencia que saiu do Brasil não porque fora obrigado ao exílio, mas sim porque não conseguia aderir a nenhum dos projetos que estavam sendo impostos a ele. Muitas coisas lhe eram ditas sobre como “cabia fazer” e ele não concordava com isso. O personagem não queria ser levado para um lado ou para outro de maneira irrestrita. Não gostaria de ter que aderir às posições políticas impreterivelmente. Ainda que isso não apareça no livro, é preciso deixar claro que a própria decisão do personagem já era um posicionamento político. É possível dizer que
61 de certa forma a narrativa parece desejar que o leitor também não faça adesões aos projetos propostos pela resistência à ditadura na época.
Motoneros, FAR, FARP, ERP e tantas outras siglas como as tivemos também no Brasil e tantos outros lugares, ALN, MR8, FARC, toda essa sopa indigesta de letras, esses exércitos e forças que nos querem a força libertar de um modo ou de outro de alguma coisa apenas para nos sujeitar a outra, a todo o custo, custe o que custar (COELHO, 2006: 114).
Ainda que a crítica à ditadura esteja presente durante todo romance, há uma clara apresentação de que esta não se deu de maneira veemente imposta ao povo. Há um questionamento sobre as ideias da própria esquerda de salvar “o povo” ou de que era necessário mudar o país em prol de uma justiça social. Esse tema que foi aventado em
Amores exilados (2011) aqui é explícito. A personagem Anna M., mulher pela qual o
narrador era apaixonado e com a qual foi para Paris, diz que ainda que a esquerda não aceitasse, era fato que parte do povo tinha ido às ruas dizendo que queria a ditadura e havia também uma outra parte que estava interessada em outros assuntos e não tinha aderido às manifestações contra o regime (COELHO, 2006: 201).