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Finite Generalized Polygons

Ao falar sobre a compreensão da transferência como prática ética, Judith Butler (2015) defende que “se a violência é o ato pelo qual um sujeito busca restabelecer o próprio controle e a própria unidade, a não violência pode ter sua origem na vivência do persistente desafio do controle do eu induzido e exigido pelas nossas obrigações para com os outros” (BUTLER, 2015: 87). A estudiosa completa que se somos, então, divididos e dependentes da interpelação do Outro, por estarmos eticamente implicados, isto não exclui nossa responsabilização pelas nossas ações e nossa incompletude é inerente ao mundo social do qual derivamos e somos mantidos. A resposta ética à barbárie é o acolhimento do rosto do Outro, não uma atitude de reciprocidade a partir da violência sofrida.

O propósito aqui não é celebrar certa noção de incoerência, mas apenas destacar que nossa “incoerência” define o modo como somos constituídos na relacionalidade: implicados, obrigados, derivados, sustentados por um mundo social além de nós e anterior a nós (BUTLER, 2015: 87).

Pouco antes da reunião de estudos da ASL quando Sarinha expulsa Muriel xingando-a de vagabunda, fato que anteciparia a agressão de Fábio contra a francesa, ele lembra de Glorinha e a vê dividida em duas, metade vestia um sobretudo de lã, metade biquíni. Vê-se também dividido e, nesse momento pensa em seu torturador pois ele também deveria ser dividido, “ele tinha que ter remorsos” (NETO, 2011: 124).

Porém, tanto em O punho e a renda (2014), como em Soledad no Recife (2009), que iremos analisar adiante, não se vê nos personagens que colaboraram com a repressão, nem mesmo quando apontam e atraiçoam conhecidos, amigos e companheiros como o caso do personagem Daniel/Anselmo neste último, demonstrações de remorso ou arrependimento. A justificativa que quase todos os personagens apresentam é que viviam uma guerra, onde há regras e leis que suspendem os direitos humanos como os concebemos. Também essa é a ideia que Arendt (1999) retrata a partir do depoimento de Adolf Eichmann em seu julgamento. Embora tenha participado do aprisionamento e assassinato de milhões de pessoas, ele justificava que era um burocrata e dizia estar seguindo ordens de um Estado em guerra.

O narrador de Amores exilados (2011) não é condescendente com Fábio. Ele cita a tortura sofrida pelo jovem, o conflito e a paranoia de ciúmes que vivia, mas não apresenta explicações ou justificativas para as atitudes de Fábio. A saída apresentada ao

48 personagem foi o suicídio. No romance, a fronteira da ditadura, como parte de um passado, se dá justamente pouco antes da morte de Fábio, no retorno dele e Lázaro ao Brasil. Eles se deparam com um país muito diferente do que deixaram ou do que imaginavam a partir do exílio.

[Lázaro]: Andei por aí, companheiro, senti cheiro de Brasil. As pessoas parecem contentes! Como pode ser? Os militares enfiando a porrada e a negada toda rindo, já tomando cerveja de manhã e arrotando. Será que a gente sempre esteve numa furada? (NETO, 2011: 202).

Para o baiano, poderia ter sido a divulgação das barbáries cometidas pelo stalinismo a responsável por ter afastado o povo dos ideais de esquerda. E, ainda que acreditasse ser necessária a crítica ao que foi o regime de Stalin, ela poderia ser o argumento perfeito para que a direita pudesse reafirmar as causas da implantação da ditadura no Brasil. Fábio respondeu que a autocrítica é difícil também, porque poderia parecer um desrespeito aos mortos. Lázaro rebateu dizendo que acreditava na potência da crítica como aperfeiçoamento do movimento e, inclusive, como homenagem aos que lutaram e sofreram com a repressão (NETO, 2011: 219).

Fábio relembra Elke, a qual insistia em dizer que a solução para o Brasil ou era pacífica, ou não era. Em uma de suas crises pelo amor que sente por Muriel, o catarinense pensa insistentemente em abandonar a organização para constituir uma família com a francesa. Para ele, a vida de exilado e militante parecia tornar-se artificial demais.

Já nem se consegue construir direito uma frase correspondendo ao exato pensamento. Os nossos diálogos, por exemplo, Lázaro, principalmente quando tratam de assunto político, parecem falsos. Pode prestar atenção. É tudo meio decorado. Estou de saco cheio de representação. E farto de viver numa lapa (NETO, 2011: 62).

Em Amores exilados (2011), a discussão interna da organização começa a se dar com mais veemência após o golpe militar no Chile. Com a posse de Pinochet, muitos brasileiros exilados se mudaram de Santiago para Paris e, entre eles, os personagens Alex e Sarinha, que chegariam como nova liderança e duras críticas aos militantes da organização na França. Os mais atacados seriam justamente Fábio e Lázaro, pelo comportamento pouco rígido, posturas intelectuais frouxas e, principalmente, pela maneira festiva e social com que levavam suas vidas e militância. Ambos não aceitaram deixar a ASL por imposição de Sarinha, mas começaram a questionar do que realmente estavam participando.

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Acho mesmo que entrei numa fria, com dezoito anos, na Federal de Santa Catarina. Meio sonhador, um mundo melhor, e, pau!, nos braços da ASL. Não sei se era isso que eu queria, explicou Fábio com a voz arrastada (NETO, 2011: 123).

Lázaro concorda com o amigo, afirmando que a rigidez proposta por Sarinha deixava-os mais isolados, e que a justiça social que pregavam deveria vir exatamente de uma vida em sociedade “do nosso dia a dia no bar, no motel, na praça”. Quando, tempos depois, a organização envia um informe dizendo que Fábio e Lázaro devem voltar ao Brasil para participar de uma nova expropriação bancária, ambos discordam da estratégia.

[Lázaro]: Não conheço nenhuma organização de esquerda aqui da França que nos daria força e apoio para assalto a banco. A luta armada faz bem pra nossa consciência, isso sim, a gente tem a sensação de ir pro céu. Acaba sendo um sentimento apenas cristão (NETO, 2011: 142).

Fábio completa dizendo que estavam se tornando cada vez mais um grupo de pessoas desconectadas da sociedade, pegando em armas, achando que assim transformariam o mundo. Os dois acabam por concordar em fazer essa ação isolada para arrecadar fundos para a ASL. Ainda assim fazem inúmeros questionamentos e até o último minuto pensam em desistir. As certezas dos dois eram frágeis.

Ao fim da história, Lázaro é preso acusado pelo roubo de uma casa de câmbio. O delegado afirmou para a imprensa que Fábio estava próximo ao homem negro e fizera um sinal com o nariz indicando Lázaro para os policiais. Como o baiano carregava consigo os 30 mil dólares da ação de expropriação que tinham feito em nome da ASL, não consegue provar sua inocência. Fábio não aguenta a culpa pela prisão do amigo e comete suicídio. Muriel se casa com um francês e se torna professora de Português numa universidade do sul da França. Lázaro cumpre três anos de pena e depois vai morar em Mauá, interior do Rio de Janeiro, vira administrador de uma pousada, se casa, tem filhos e começa a escrever um livro sobre a história da Aliança Socialista Libertadora.

A começar pela prisão de Lázaro por racismo, o romance mostra como foram trazidas outras pautas para a agenda política e a resistência à ditadura vai ficando aos poucos em segundo plano. Lázaro foi preso por ser negro, não pela militância. Fábio, já se consumindo de culpa, liga para a família e, ao descobrir que alguns militares ainda o procuravam, resolve encerrar a questão se matando. A vida segue para os outros, com

50 casamentos, filhos e novas atividades. A ditadura, assim como Fábio, passaria a fazer parte agora do livro de memórias de Lázaro.