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O pensamento marxista adquiriu um importante papel na formulação da noção de “evolução regional paulista” proposta por Luís Saia. Deste modo, convém investigar em que condições o arquiteto tomou contato com o arcabouço teórico marxista, a fim de que seja possível uma correta avaliação do “sentido” que Saia emprestou à arquitetura paulista.

Inicialmente, a migração da direita para esquerda não foi algo incomum naquela primeira metade do século XX brasileiro. A adesão inicial a ideologias nacionalistas e autoritárias não seria empecilho inexorável ao contato com os textos marxistas. O próprio Plínio Salgado chegou a confessar que, em meados da década de 1920, suas leituras e as de seus companheiros eram “todas marxistas”.178 De fato, o conhecimento da literatura marxista

pelos integralistas não deveria mesmo causar surpresa, haja vista que os mesmos necessitariam se armar a fim de combater o comunismo, ainda que o distorcendo propositalmente. Por outro lado, Antônio Cândido também já teve oportunidade de lembrar o quanto era comum ao espírito rebelde da época a migração da direita para esquerda.179

Conforme demonstra Leandro Konder, o marxismo alcançou, no Brasil, no início da década de 1930, um grande distanciamento em relação às discussões originais propostas por Karl Marx, sobretudo no que diz respeito à dialética.180 De acordo com Konder, a noção de

178

KONDER, Leando. A Derrota da dialética: a recepção das ideias de Marx no Brasil até o começo dos anos trinta. Rio de Janeiro: Campus, 1988, p. 158.

179 CÂNDIDO, Antônio. O significado de Raízes do Brasil. In HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do

Brasil. 26ª ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

180 KONDER. Op. cit. A re-elaboração deste conceito, realizada a partir das leituras que Marx fez da obra de

Hegel, é fundamental, dentro do arcabouço teórico marxiano, para a compreensão da ação revolucionária. Assim, a perspectiva marxista se diferenciaria da hegeliana por propor “não só uma reavaliação do papel do

trabalho material na auto-criação e na autotransformação do ser humano” como também por exigir “uma

reavaliação do papel dos trabalhadores como força material capaz de, nas condições atuais, dar prosseguimento à autotransformação histórica da humanidade” (Ibid. p. 5-6). Trata-se, em suma, de uma concepção filosófica na qual cabe ao sujeito (a classe trabalhadora, ou proletária, no caso do “modo de

dialética, tal qual a utilizada por Marx, teria sofrido duas “derrotas” até que chegasse à década de 1930 brasileira, sendo que uma delas teria se dado no nível internacional, e a outra, no nível nacional.

A primeira derrota da dialética, internacional, diz respeito à tentativa empreendida por Engels no intuito de defender o caráter materialista do conceito marxista. Esse empreendimento o teria levado a uma “naturalização” do conceito, abrindo as portas para uma interpretação “objetivista” do mesmo (reduzindo o papel da criatividade do sujeito para a ação revolucionária) e para o caráter “reformista” adquirido pela Segunda Internacional181 (na qual

predominaram interpretações pautadas, principalmente, pelo evolucionismo biológico, tão em voga à época, enfatizando a dimensão da continuidade da história).

Em seguida, ainda no nível internacional, o conceito de dialética, conforme empregado por Marx, sofreria um golpe ainda mais profundo: após a tomada do poder na Rússia, graças à bem sucedida união entre teoria e prática empreendida por Lênin, Stálin, seu sucessor, impôs uma versão dogmática do marxismo, o “marxismo-leninismo”, submetendo assim a criatividade revolucionária dos sujeitos à vontade da burocracia soviética. A teoria marxista seria menosprezada ante a constante demonstração do sucesso prático do partido comunista russo, propondo, em seu lugar, um rígido “etapismo”, no qual a ação criativa do sujeito ante um mundo em constante mutação seria, propositalmente, esquecida.

Ainda segundo Konder, seria este marxismo, o “marxismo-leninismo”, que teria chegado ao Brasil até inícios da década de 1930. Outros fatores teriam contribuído para a “segunda derrota” que a dialética marxista sofreria, agora em território nacional. Primeiramente, a dificuldade de difusão dos textos de Marx no Brasil era enorme, existindo, nesse período, ainda poucas traduções de suas obras para o português (a própria compreensão correta acerca da dialética e da concepção de história marxista, na Europa, via-se prejudicada pelo fato de que muitos textos fundamentais escritos por Marx não haviam sido publicados182). Em seguida, além das imposições do Partido Comunista russo, que levavam a

uma ênfase da prática (segundo a cartilha “marxista-leninista”) em detrimento da teoria, haveria, no Brasil, segundo Konder, uma “subestimação da teoria”, favorecida pela grande

produção capitalista”) a compreensão dos elementos contraditórios da sociedade no presente (o que se dá mediante uma análise histórica do desenvolvimento das relações de produção) visando uma intervenção revolucionária, cujo objetivo principal seria interromper a exploração do homem pelo homem.

181

Ricardo Musse chega às mesmas conclusões partindo da análise do livro História e consciência de classe, de Georg Lukács (MUSSE, Ricardo. A dialética como discurso do método. Tempo Social: Revista de Sociologia da USP, v. 17, n. 1, junho de 2005, pp. 367-389).

182

O principal deles seria, segundo Josep Fontana, A ideologia alemã, publicado apenas em 1932. FONTANA, Josep. História: análise do passado e projeto social. Bauru, SP: EDUSC, 1998.

influência exercida por ideais positivistas e evolucionistas no país, somada ainda ao predomínio da retórica nos debates políticos e intelectuais em detrimento da especulação filosófica e teórica.

As leituras marxistas de Luís Saia se deram, provavelmente, alguns anos depois daqueles estudados por Konder, mais especificamente no início da década de 1940. Em 1943 o arquiteto já demonstra sua simpatia pelo materialismo histórico num relato publicado no jornal O Estado de S. Paulo.183 Neste depoimento, relativo à sua “visão de mundo”, Saia

declara que para ter tal visão e agir socialmente não seria necessário “carteirinha de partido”. Luís Saia se interessou portanto pelo materialismo histórico na medida em que este lhe possibilitou a compreensão da realidade social paulista e sua ação em relação à ela, realidade que para esse arquiteto seria processual e dialética. Dessa forma, nunca se mostrou preso a dogmatismos e sempre esteve aberto às contribuições teóricas e historiográficas que lhe permitissem uma compreensão ao mesmo tempo ampla e específica da realidade paulista. É difícil mapear as leituras marxistas realizadas por Luís Saia e, mais ainda, o que de fato foi utilizado em sua obra, visto que em momento algum isso é explicitado pelo autor. Por esse motivo, a investigação desse aspecto crucial para a compreensão da noção de “evolução regional paulista” fica limitada, neste ponto específico, por algumas inferências que não podem sair do campo hipotético.

A partir de 1923 já se encontrava disponível uma tradução do Manifesto Comunista, realizada por Octávio Brandão e publicada no jornal operário carioca “Voz Cosmopolita”. No entanto, conforme aponta Edgar Carone, “apesar da existência de alguns ensaios escritos na década de 1930, é na seguinte que se dá uma maior expansão da literatura marxista”.184 Em

São Paulo, as primeiras obras marxistas foram traduzidas e publicadas pelo grupo trotskista dissidente do PCB composto por Mário Pedrosa, Aristides Lobo e Lívio Xavier, que fundaram a Editora Unitas (os primeiros livros editados foram ABC do Comunismo, de Nicolau Bukharin [1933] e O Estado e a revolução, de Lênin [1934]). Em 1935 Caio Prado Júnior traduziu e publicou, pelas Edições Caramuru, Tratado do materialismo histórico, também de Bukharin.185 Não é possível afirmar com certeza se Saia tomou contato com o materialismo 183

Dois anos depois esse e uma série de outros depoimentos, que saíram no jornal O Estado de S. Paulo sob o título Plataforma da nova geração, foram publicados, com o mesmo nome, pelo historiador Mário Neme. (NEME, Mário [org.]. Plataforma da Nova Geração. Porto Alegre: Globo, 1945).

184

CARONE, Edgar. “Notícias sobre ‘brasilianas”. Perspectivas: Revista de Ciências Sociais. Universidade Estadual Paulista, Ano I, Vol. I, n. 1, 1976, p. 212.

185 “Este livro teve divulgação mundial e gerou significativa polêmica com alguns dos principais quadros da

Intelligentsia do marxismo europeu nas décadas de 1920 e 1930, formuladas como duras críticas à natureza

histórico através destes livros, embora intelectuais bastante próximos a Saia, a exemplo de Antônio Cândido e Mário de Andrade, tenham se aproximado do marxismo via Bukharin.186

É possível afirmar com certeza que Saia leu o livro Dialectique de la nature, de Friedrich Engels (a Biblioteca Luís Saia conta com a edição de 1955 deste livro, profusamente fichada pelo arquiteto) e O Capital, de Marx (Saia trouxe da Argentina uma edição, de 1960, em 5 volumes, da editora Fondo de Cultura Económica).187 O arquiteto também leu (e fichou)

o livro Introdução à lógica dialética, de Eli de Gortari, numa edição de 1960. No entanto, Saia já poderia ter acesso, nesse período, às publicações de Georg Lukács e Antônio Gramsci, que desde a década de 1920 se preocupavam em superar o reformismo hegemônico da Segunda Internacional mediante uma retomada da dialética marxista.188 Além disso, segundo

C. F. Cardoso, “a partir da década de 1950 e, mais ainda, do decênio seguinte, um grande debate teórico e metodológico entre marxistas de muitos países iniciou nova fase, muito mais crítica e aberta ao trabalho criador do que a anterior”.189