Os entrevistados foram escolhidos entre pessoas que realmente contribuíram para a formação da entidade, moradoras na região, disponíveis e em condições de compreender, na íntegra, o teor das questões formuladas durante a entrevista, desse modo aptas a fornecerem depoimentos significativos.
Num primeiro momento foi elaborada uma lista com os nomes dos possíveis entrevistados, pessoas que atuaram durante certo tempo no SEPE e outras que ainda participam da organização, como antigos diretores e militantes do SEPE/ Regional V, ou seja, com as elites3 sindicais; pessoas que atuaram durante muito tempo no magistério da região e que continuam militando na entidade: Joacy Santos, Vera Lúcia de Freitas Silva, Daizir Madalene Coutinho, Eva de Jesus Ferreira e Cláudio Monteiro de Andrade.
Analisando o perfil dos entrevistados, foi possível determinar os seguintes aspectos:
• quanto à maturidade e gerações, exceto Cláudio e Eva, os demais entrevistados nasceram na década de 40 (Joacy, Vera Lúcia e Daizir Madalene);
• quanto ao local de domicílio: exceto Cláudio, os demais residem em Campo Grande;
3 Termo utilizado no sentido de qualificar os ocupantes de posições -chave em dado grupo social e que, por isso, têm poder para influenciar, dirigir e negociar questões de interesse de determinado contexto coletivo (HEINZ, 2006).
• quanto à profissão e grau instrucional, Eva possui o nível médio de ensino e é inspetora de alunos no Instituto de Educação Sara Kubischek, os demais possuem nível de escolaridade de 3o grau e atuam (Cláudio e Daizir Madalene) ou atuaram (Joacy e Vera Lúcia) no magistério;
• quanto ao quesito participação política, foi possível destacar o seguinte:
(a) Joacy Santos - seu interesse pela política surgiu em 1954; enquanto aluno universitário, foi militante da UNE e participou do diretório acadêmico em 1964, em plena ditadura militar; pertence ao PCB (Partido Comunista Brasileiro):
Comecei ame interessar por política desde 24 de agosto de 1954, o ano da morte do ex- ditador Getúlio Vargas . Comecei me envolver devido às características das quais ocorreu a morte dele. Tinha sido ditador e posteriormente volta à presidência com respaldo popular e, derrepentemente, desaparece da face história. Com todos fenômenos que tenho contra a política exercida por ele...(11/01/05)
(b) Vera Lúcia de Freitas Silva - sua formação política está ligada a questões familiares, seu pai era filiado ao PCB o que de certa forma influiu na sua escolha política por um partido de esquerda o PT (Partido dos Trabalhadores):
O meu pai tinha um elo político. O meu nome tinha um elo político. Então, depois que passou a fase mais (...) que eu comecei a ter problema com a ditadura militar (...) Porque em 74, no governo do Médici, eu dava aula de Sociologia (...) Em setenta e poucos eu dava aula de Sociologia em um colégio lá em Bangu, no Colégio São Jorge. (20/12/04)
(c) Daizir Madalene Coutinho – filiada ao PT, sua participação política é oriunda da época de estudante universitária da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), quando participou do movimento estudantil no centro do Rio (Avenida Chile, no Curso de Letras da UFRJ, em 1967):
...a gente gritava muito essas frases de ordem, não é? "O povo unido jamais será vencido". Aí vinha a polícia montada, jogavam aquelas bombas de efeito...
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É, e a gente corria, se espalhava e aí juntava de novo lá na frente. Era ali pelo centro da cidade. A Avenida Rio Branco, Largo de São Francisco. Era pertinho, porque a faculdade ficava na Avenida Chile, não é? A gente saía da Avenida Chile e ia por ali. Fazia aquelas passeatas. E teve gente que nunca mais apareceu, não é? Você sabe que... (17/03/05)
(d) Cláudio Monteiro de Andrade – filiado ao PT desde 1988, formado em História pela UFF (Universidade Federal Fluminense), sua formação política está relacionada com sua escolha profissional:
No segundo grau, na terceira série, digamos assim, eu fui ficando um pouquinho mais politizado. Eu comecei a gostar de História, que é o que eu acabei fazendo, não é? (...) essa filiação tardia e, apesar das críticas que o PT sofre hoje, e muitas delas eu tenho também, mas eu escolhi o PT porque eu achava que o PT poderia ser um instrumento de transformação. Enfim, eu achava que era um partido que, no espectro da esquerda, era possível ele estar fazendo a disputa na sociedade por uma mudança de sociedade, uma mudança da relação social...(29/03/05)
(e) Eva de Jesus Ferreira - inspetora de alunos da rede estadual (no Instituto Sarah Kubitschek) , foi militante do PT:
Recentemente, a minha felicidade foi me filiar ao PT. Eu fui militante de coração, no coração e bandeira na mão, mas nunca fui de carteirinha. Quando eu resolvi ter carteirinha, nem cheguei a ter carteirinha, eu já saí, já desisti (...) É, o sonho de ver assim, o trabalhador chegar ao poder. Porque eu achava que isso, para mim, não era bem só a figura do Lula, é o que ele representava, as idéias que o Partido pregava que agora eu vejo que não... (22/03/05)
Com relação à participação junto ao SEPE, Joacy e Vera Lúcia foram formadores do SEPE em Campo Grande; os demais entrevistados passaram a participar da entidade por influência das elites formadoras do SEPE na Região, mais tarde também vindo a atuar como diretores do SEPE/Regional V, em Campo Grande.
3.2.1 As elites sindicais e o ingresso e participação no SEPE
Joacy Santos ingressou no SEPE em 1978, ajudando na formação da entidade; atualmente é diretor do Sinpro-Rio de Campo Grande, fez parte na última gestão da Secretaria de Finanças do SEPE/Regional V.
Eu ingressei no SEPE em 78, Vou fazer um retrospecto do SEPE. O SEPE , surgiu naquele processo de 78, onde havia aquela evolução política em todo mundo. Aqui no Brasil no ABC paulista com Lula, aquela situação toda. Então o SEPE veio de uma necessidade da categoria. Porque existiam três entidades de professores, mas três entidades de professores recreativas, pois na época não tinha condição do funcionário público se organizar em sindicato e essas entidades eram apenas recreativas não tinha nenhuma função reivindicativa, era apenas de lazer. Duas se fundiram ao SEPE e uma não quis se fundir, que atualmente é a UPE, na minha visão política uma entidade pelega. (J.S., 22/01/05)
Vera Lúcia de Freitas Silva participou da formação do SEPE em Campo Grande; antiga diretora da Regional V, na última gestão foi suplente na Regional V e diretora da Secretaria dos Professores Aposentados do SEPE/Central.
Daizir Madalene Coutinho ingressou no SEPE/Regional V durante o movimento grevista de 1979, por intermédio de Vera Freitas, período em que participou da direção do SEPE; atualmente faz parte da comissão dos aposentados dessa entidade.
Eu fiz Português e Francês, mas o concurso eu fiz para francês, não é? E depois, só em 87 que eu vim trabalhar aqui (Instituto Sarah Kubitschek), não é? Eu fiz o concurso, em 85 (...) Ingressei através da Vera e da Eva, a gente começou a ser colega, fazer conhecimento. E o SEPE aqui, a Regional V – naquela época nem tinha esse nome de Regional V... (D.M.C., 17/12/04)
Desde 1988, Cláudio Monteiro Andrade leciona História na Escola Municipal Visconde do Rio Branco, em Campo Grande; participante das assembléias regionais, acabou criando vínculos com os militantes do SEPE/Regional V; atuou no movimento em prol da reabertura do SEPE, em Campo Grande (1994), fazendo parte da direção SEPE/Regional V após sua reabertura.
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O que me despertou foi o seguinte, veja bem, em 94 eu já tinha participado mais à frente do SEPE aqui na Regional, mas o que me levou mais a entrar efetivamente, na direção efetiva do SEPE, em 99, foi o congresso de 98, quando eu simpatizei com algumas idéias que se lançavam na época, de necessidade de renovar o SEPE, as práticas sindicais do SEPE. Isso me atraiu. Eu sempre participei do SEPE, mas como um militante de base, indo às assembléias, indo às atividades. Mas a partir do momento em que eu ouvi as críticas que eram feitas, em 98, no congresso do SEPE, se formou um campo de oposição a uma maioria que existia, que dirigia o SEPE há muitos anos, e realmente eu comecei a notar essa necessidade de renovação. Então, a partir daí eu comecei a encarar mais de frente. Tanto é que, em 99, eu assumi um cargo no SEPE central, que era uma coisa que eu jamais pensei na minha vida. E, em 2001, eu assumi na Regional V.... (C.M.A.,29/03/05)
Influenciada por Vera Freitas, Eva ingressou no SEPE/Regional V em 1987, quando o SEPE estendeu o número de filiados passando a Centro Estadual dos Profissionais de Educação; de início militante de base, mais tarde fez parte da direção, ajudando a reabrir o SEPE em Campo Grande.