A possibilidade da formação familiar e de laços afetivos no seio da comunidade cativa permaneceu fora do alcance das pesquisas por muito tempo, ficando praticamente ausente dos estudos que propunham entender a dinâmica escravista brasileira. Os grupos familiares formados dentro da realidade do cativeiro começaram a ser privilegiados em alguns estudos no decorrer da década de 1970, mediante as novas perspectivas de análises. Novos métodos e conceitos empregados foram ferramentas que auxiliaram na compreensão dos elementos que permitiram a formação das famílias e dos laços de parentescos que muitas vezes se estendiam a indivíduos pertencentes a outros domínios senhoriais. Estar inserido em um núcleo familiar representava não só o sentimento de pertencimento, como também a solidariedade e auxílio mútuo em torno de objetivos comuns. Os estudos que investigaram a existência das famílias dentro dos plantéis revelaram ainda que muitas permaneceram unidas ao longo dos anos, apesar da possibilidade da separação dos membros causada, sobretudo, pelas partilhas de bens ou pelo comércio de escravos. Contrariando o pressuposto de que as dificuldades inerentes à escravidão54 teriam impedido a formação e o fortalecimento dos vínculos familiares, as pesquisas demonstraram extenso número de homens, de mulheres e de crianças vivendo em núcleos parentais.55
Até os anos de 1960, a produção intelectual das ciências sociais no Brasil56 destacou, em diversas obras, que as brutais condições do cativeiro forjaram um processo de completa aculturação, transformando os cativos e seus descendentes em seres incapacitados de ações individuais e humanas. Foi recorrente a ideia de que o estado de “coisa” em que se achavam os indivíduos escravizados impediu a formação de elos afetivos e familiares, ficando homens e mulheres completamente imersos na promiscuidade. As práticas, sobretudo as sexuais, e a vivência cotidiana do negro
54 O alto índice de importação de escravos do sexo masculino em relação às mulheres, bem como o tráfico
interno, após a Lei Eusébio de Queiroz, são alguns dos argumentos que explicam a ausência de matrimônios entre os escravos. Ver, entre outros, CARDOSO; IANNI (1960).
55 Ver SLENES (1999); FLORENTINO; GÓES (1997); MOTTA (1999), entre outros.
56 Ver principalmente os estudiosos que ficaram conhecidos como o grupo da Escola Sociológica Paulista,
escravo foram caracterizadas, em muitas análises, pela ausência da ordem, das regras e dos princípios morais. A desorganização social e a depravação sexual vivenciadas pelos cativos teriam inibido a ocorrência de grupos familiares, ficando homens e mulheres mergulhados na devassidão das senzalas. Os escravos teriam sido de tal modo embrutecidos pelo cativeiro que perderam a capacidade de praticar atos enquanto sujeitos.
Robert Slenes destaca que,
no Brasil, as representações da vida íntima na senzala permaneceram quase constantes, desde antes da abolição até a década de 1970. Conservam-se em todo o período sombrias cenas de promiscuidade sexual, uniões conjugais instáveis, filhos crescendo sem a presença paterna (SLENES, 1999, p. 29).
Para alguns autores o trabalho forçado teria provocado a degradação moral do cativo dentro do sistema. Gilberto Freyre, na década de 1930, discute a animalidade dos escravos e a falta de freios aos instintos como algo animado pelos próprios senhores brancos. A seu ver, não estava no negro a fonte de corrupção, mas no abuso de uma raça por outra (FREYRE, 2002, p. 426). Ainda de acordo com Freyre, o negro foi “patogênico”, mas a serviço do branco, como parte irresponsável de um sistema articulado por outros. “No sistema escravocrata de organização agrária do Brasil; na divisão da sociedade em senhores todo-poderosos e em escravos passivos é que se deve procurar as causas principais do abuso de negro por brancos” (FREYRE, 2002, p. 427).
Caio Prado Júnior, ao estudar o empreendimento colonizador de Portugal no Brasil, acaba por entender o escravo apenas como “instrumento vivo de trabalho” numa referência a Perdigão Malheiros, e segue dizendo que “nada mais se queria do escravo, e nada mais se pediu e obteve que sua força bruta”. E da mulher buscou-se apenas “a passividade da fêmea na cópula” (PRADO JÚNIOR, 2002, p. 1364). A escravidão brasileira concorreu em
circunstâncias especiais que acentuam seus caracteres negativos, agravando os fatores moralmente corruptores e deprimentes que ela, por si só, já encerra. Incorporou a Colônia, ainda em seus primeiros instantes, e em proporções esmagadoras, um contingente estranho e heterogêneo de raças que beiravam ainda o estado de barbárie, e que no contato com a cultura superior de seus dominadores se abastardaram por completo (PRADO JÚNIOR, 2002, p. 1367).
Roger Bastide, Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso, entre outros, destacaram que o violento processo de aculturação pelo qual passaram os negros
escravos no Brasil impediu que eles constituíssem laços afetivos e familiares, perdendo também a capacidade de ações políticas relevantes, ficando a cargo dos “fazendeiros e dos imigrantes” as ações históricas de transformação.57
Essa visão frequentemente difundida começou a mudar e a ganhar novos contornos a partir da década de 1970, ocasião das publicações das pesquisas de Genovese (1974) e Gutman (1976). Estes autores salientaram que as heranças culturais mantidas e transmitidas de geração em geração eram um recurso que auxiliava a sobrevivência no cativeiro, e que a formação dos grupos familiares era uma realidade presente nos plantéis do sul escravista norte-americano.
O conceito de paternalismo foi usado por Genovese para explicar o funcionamento da escravidão. “Aceitando o paternalismo, conseguiram, mesmo sem romper os limites de um relacionamento tão injusto, perceber que tinham direitos e que a transgressão desses direitos pelos brancos seria sempre um ato injusto” (GENOVESE, 1998, p. 206). A noção de direitos e deveres aparece como um dos pilares de sustentação da instituição escravista, e certamente o direito de possuir uma família teve aí um papel fundamental. O novo olhar sobre a escravidão e a tentativa de perceber elementos do cotidiano escravista, até então nada ou quase nada explorados, fez da obra de Genovese uma preciosa referência para os estudiosos brasileiros que voltaram seus interesses para o tema da família escrava, buscando examinar novas fontes até então pouco pesquisadas.
Desde então, pesquisas têm revelado que, para além das adversidades enfrentadas, os escravos souberam moldar mecanismos de sobrevivência dentro da própria realidade cotidiana do cativeiro. Hebe Maria Mattos enfatiza que, “especialmente para os escravos nascidos no Brasil, relações pessoais horizontais e dependência pessoal se justapunham e se interinfluenciavam, para possibilitar o trânsito entre a escravidão e liberdade” (MATTOS, 1998, p. 174). A construção de redes sociais de parentesco, amizade, compadrio, de apoio e auxílio mútuo certamente representavam subterfúgios que favoreciam o alcance de melhores condições de vida dentro dos limites impostos pela escravidão, e até mesmo o alcance da alforria. Desse modo, o sentimento de pertencimento à comunidade e à família poderia não somente amortecer os conflitos gerados nas condições hostis do cativeiro, como também fornecer auxílio aos pleitos de liberdade suscitados pelos escravos.