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3. CHAPTER 3: “MUNICIPAL SOLID WASTE MANAGEMENT CHALLENGES

4.4 THE IPAT MODEL

Segundo Dionísio (2001, p. 33), antes das exposições de 1947 e 1949 não se havia cogitado a organização de um museu. Para esse autor, a idéia de se fundar um museu ia cada vez mais se concretizando à medida em que aumentava o número de divulgações dos trabalhos da STO. Essa idéia utilizarei como parte desta pesquisa sobre as origens do Museu de Imagens do Inconsciente, principalmente quando for destacado o apoio de artistas e críticos de arte às práticas da STO e às obras ali produzidas pelos loucos-artistas, no último capítulo.

Nise da Silveira (1981, p.16) acrescenta outros motivos para se pensar na criação de um museu:

A produção do atelier era muito grande, aumentando cada dia. O agrupamento em séries das pinturas levantava interrogações no campo da psicopatologia. Começou-se a falar em museu, como um órgão que reunisse todo esse volumoso material de importância científica e artística. E, assim, foi inaugurado no dia 20 de maio de 1952 o Museu de Imagens do Inconsciente, cujas raízes estavam nos ateliers de pintura e de modelagem de uma modesta seção de terapêutica ocupacional.

Temos então duas perspectivas que se complementam: o museu surgindo para reunir e conversar adequadamente um abundante número de obras; e, aliado a isso, o impacto das primeiras exposições e o apoio da comunidade artística.

A grande quantidade de obras espontaneamente criadas por esquizofrênicos nos ateliês de pintura e de modelagem da STO começou a formar uma coleção, que crescia a cada dia, necessitando de cuidados especiais e um local apropriado para seu armazenamento, visto que além do valor artístico possuíam também importância científica para o estudo do processo psicótico (Dias, 2002b).

As expressões plásticas dos alienados de Engenho de Dentro adquiriram o status de objetos preciosos porque, dentro da concepção forjada por Nise da Silveira, as imagens do inconsciente plasmadas naquelas obras eram retratos do psiquismo, do mundo interno do esquizofrênico. Nesse sentido, as obras eram testemunhos do processo psicótico em curso, podendo este ser melhor estudado quando as imagens produzidas por um mesmo paciente

eram colocadas em série. Algumas obras também possuiam valor estético inegável, o que contribuía para que aumentasse o sentido de preciosidade em torno da coleção que se formava. Inclusive, algumas obras receberam propostas de compra justamente por causa de sua valorização artística. Uma dessas propostas foi destacada por Nise da Silveira (1994, p. 15), muitos anos depois da instituição museal ter sido fundada, para explicar o motivo de sua resistência, muitas vezes criticada, em permitir que algumas obras produzidas na STO fossem vendidas ou doadas. Em 1949, durante a exposição 9 Artistas de Engenho de Dentro, em São Paulo, Cicillo Matarazzo havia gostado muito de um quadro de Emygdio, intitulado ‘Capela do Mayrink’, demonstrando interesse em adquiri-lo. Almir Mavignier telefonou várias vezes para Nise da Silveira dizendo que o quadro deveria ser oferecido a Cicillo Matarazzo, pois era ele quem estava custeando a exposição. Nise da Silveira negou. Matarazzo fazia ofertas cada vez maiores. A resposta seguinte foi suficiente para Matarazzo não mais insistir:

Aquele desenho significava um marco importante, sendo a primeira representação da realidade externa imediata feita por Emygdio. Foi desenhado em plena natureza, por ocasião de um passeio à floresta da Tijuca. (...) Emygdio sentiu-se atraído pela beleza do lugar e abandonou, ao menos por momentos, seu mundo onírico ou a evocação de paisagens ligadas a emoções da infância, temas até então constantes na sua pintura. Assim, a ‘Capela Mayrink’ ocupava posição especial na série de obras de Emygdio (Silveira, 1994, p. 16).

Além da valorização estética e científica, as obras produzidas nos ateliês de artes plásticas da STO, quando em exposição, divulgavam uma maneira de ver a loucura, o louco e o processo criativo bastante diferente da psiquiatria tradicional. Segundo Nise da Silveira (1981, p. 14), a maioria dos psiquiatras dos psiquiatras da época enxergavam as pinturas e os desenhos dos doentes mentais somente como reflexos de sintomas e de ruína psíquica. Por isso, desmereciam as imagens pintadas por esquizofrênicos, repetindo os chavões arte psicótica, arte psicopatológica. No entanto, era surpreendente que mesmo após longos anos de doença, a inteligência, a sensibilidade e a criatividade se conservassem intactas. E mais espantoso ainda era que, fazendo uso dessas capacidades, alguns esquizofrênicos produzissem imagens belas, dramáticas, sedutoras e harmoniosas.

O interesse científico e artístico despertado pelos desenhos, pinturas e esculturas realizadas espontaneamente por internos do Centro Psiquiátrico Nacional que freqüentavam os

ateliês de pintura e modelagem da STO coordenada por Nise da Silveira foi capital para que se pensasse na criação de um museu como um lugar adequado para armazenar, estudar e expor as imagens do inconsciente que constituíam a coleção que se formava (Dias, 2002b). Com efeito, sob essa perspectiva, o Museu de Imagens do Inconsciente surgiu como uma conseqüência natural dos trabalhos realizados nos ateliês de pintura e modelagem da Seção de Terapêutica Ocupacional do CPN em Engenho de Dentro.

No entanto, o que foi exposto até agora foi constituído basicamente de relatos construídos muito tempo depois da experiência de terapêutica ocupacional em Engenho de Dentro ter se firmado e alcançado relativo sucesso. A perspectiva que apontei é formada por trabalhos que apresentam narrativas muito semelhantes sobre as origens do MII baseando-se fundamentalmente na própria trajetória de vida de Nise da Silveira para entender a originalidade do trabalho por ela iniciado e coordenado durante mais de 40 anos. Além disso, esses trabalhos privilegiam a narrativa construída e divulgada por Nise da Silveira, uma versão já bastante conhecida e consagrada na história da psiquiatria brasileira. Considero essa versão uma parte importante, mas não exclusiva, para compreendermos o processo de gênese do Museu de Imagens do Inconsciente.

Acho importante esclarecer aqui que não estou menosprezando a importância desses estudos, nem muito menos discordando dessa perspectiva. Apenas acredito que essa história já conhecida representa uma parte que foi privilegiada de um processo mais amplo, cujas lacunas poderão ser preenchidas através de outros enfoques, como, por exemplo, um estudo que se inclua entre as abordagens contemporâneas em História da Ciências. Um trabalho inserido dentro de uma perspectiva histórica das ciências beneficia-se da idéia de visões triunfantes ou conspiratórias sobre a ciência e a medicina e de que as transformações dos enunciados e intenções dos atores em realizações específicas não faziam parte de um caminho previamente definido por esses personagens. Nesse sentido, esta dissertação é apenas mais uma das histórias possíveis sobre as origens do MII, sendo uma modesta contribuição à história da psiquiatria e dos saberes psicológicos no Brasil.

Visto essa perspectiva sobre a constituição da terapêutica ocupacional em Engenho de Dentro e o desenvolvimento dos ateliês de pintura e modelagem da STO até a formação do MII tornou-se necessário contextualizar essa experiência na psiquiatria brasileira dos anos 40. De acordo com a narrativa de Nise da Silveira, a terapêutica ocupacional era um método

periférico aos trabalhos tradicionalmente propostos pela psiquiatria daquele momento. No sentido de averiguar essa informação, no próximo capítulo apresentei os principais métodos terapêuticos utilizados pela psiquiatria brasileira nos anos 40.