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Historicamente pode-se afirmar, de acordo com Fragoso-Luzuriaga (2015), que o constructo IE possui a seguinte periodização:

– Concepção de inteligência e emoção como conceitos separados (1900-1970): enfoque psicométrico da inteligência humana, quando se começa a criar instrumentos para medir o raciocínio abstrato.

– Precursores da inteligência emocional (1970-1990): marcada pelas contribuições de Mayer e Salovey, Howard Gardner e Robert Sternberg.

– Criação do conceito (1990-1993): remete ao período de publicação de artigos cien- tíficos de Mayer e Salovey sobre inteligência emocional, identificando a percepção emocional, regulação emocional e a utilização da inteligência emocional como três habilidades integrantes deste tipo de inteligência.

– Popularização do conceito (1994-1997): popularização do conceito em meios acadê- micos e não acadêmicos com a divulgação do best-seller de Daniel Goleman. Surgi- mento de modelos que conformam a inteligência emocional como competências, in- fluenciados pelo enfoque comportamental-organizacional predominante nos Estados Unidos.

– Institucionalização do modelo de habilidades e investigação (a partir de 1998): refi- namento da proposta de Mayer e Salovey sobre inteligência emocional, cujo modelo passou a constar de quatro habilidades: percepção e valoração emocional, facilitação emocional, compreensão emocional e regulação reflexiva das emoções. Criação de novos instrumentos de medição.

Autores do “artigo científico fundador da investigação sobre a inteligência emo- cional” (ALZINA; GONZALEZ; NAVARRO, 2015, p. 36), Mayer e Salovey (2012) represen- tarão a inteligência emocional como a “atitude ou habilidade central para raciocinar com as emoções” (MAYER; SALOVEY, 2012, p. 37). Nesses termos, a inteligência é uma habilidade, isto é, uma capacidade aprendida mediante um esforço cognitivo, técnico e interpessoal, a fim de se obter um determinado resultado. Em outras palavras, a inte- ligência emocional pode ser compreendida como uma destreza que permite a percep- ção, compreensão e gerência dos sentimentos próprios e alheios, com o objetivo de al- cançar novos níveis de satisfação, eficácia e hábitos mentais (FRAGOSO; CHAVES, 2012). O modelo de Mayer e Salovey (2012) destaca quatro habilidades específicas: percepção, valoração e expressão da emoção; facilitação emocional do pensamento; compreensão e análise das emoções empregando o conhecimento emocional e regu- lação reflexiva das emoções para promover o crescimento emocional e intelectual. Tais habilidades estão dispostas em um modelo hierarquicamente estruturado que, nas pa- lavras destes autores, configuram “desde os processos psicológicos mais básicos até os mais elevados, os processos psicologicamente mais integrados” (MAYER; SALOVEY, 2012, p. 32).

Ter IE significa ter habilidade para lidar com as quatro habilidades identificadas por Mayer e Salovey (2012), que estão dispostos hierarquicamente e cujo nível mais alto seria o da regulação reflexiva. Cada ramo possui um conjunto de habilidades assim dispostas:

Quadro 1 – Representação do modelo de inteligência emocional de Mayer e Salovey

4. Regulação reflexiva das emoções para promover o crescimento emocional e intelectual 4.1 Habilidade para estar aberto aos sentimentos, tanto placentários como displacentários 4.2 Habilidade para atrair ou distanciar-se reflexivamente de uma emoção, dependendo de sua

informação ou utilidade

4.3 Habilidade para monitorar reflexivamente as emoções com relação a si mesmo e a outros, tais como reconhecer se são claros, típicos, influentes ou razoáveis

4.4 Habilidade para regular as emoções em si mesmo e nos outros, reduzindo as emoções negativas e intensificando as placentárias, sem reprimir ou exagerar a informação que transmite

3. Compreensão e análise das emoções empregando o conhecimento emocional 3.1 Habilidade para identificar emoções e reconhecer relações entre as palavras e as emoções,

tal como a relação entre gostar e amar

3.2 Habilidade para interpretar os significados das emoções e suas relações com seus respectivos estímulos desencadeantes, tal como tristeza e perda

3.3 Habilidade para compreender sentimentos complexos: sentimentos simultâneos de amor e ódio ou mesclados, tais como o temor como uma combinação entre o medo e a surpresa 3.4 Habilidade para reconhecer as transições entre as emoções, tais como a transição da ira à

satisfação, ou da ira para a vergonha

2. Facilitação emocional do pensamento

2.1 As emoções priorizam o pensamento ao dirigir a atenção à informação importante

2.2 As emoções são tão intensas e disponíveis que podem ser geradas como ajuda ao julgamento e da memória sobre os sentimentos

2.3 O humor modifica a perspectiva do indivíduo desde o otimismo até o pessimismo, favorecendo a consideração dos múltiplos pontos de vista

2.4 Os estados emocionais estimulam o enfrentamento de forma específica cada problema assim como a felicidade facilita o raciocínio indutivo e a criatividade

1. Percepção, valorização e expressão da emoção

1.1 Habilidade para identificar a emoção nos estados físicos, sentimentos e pensamentos 1.2 Habilidade para identificar emoções em indivíduos através da linguagem, som, aparência

e conduta

1.3 Habilidade para expressar emoções adequadamente e expressar as necessidades relacionadas com esses sentimentos

1.4 Habilidade para discriminar entre expressões de emoções precisas ou imprecisas, honestas ou desonestas

Fonte: Mayer; Salovey (2012, p. 33).

Ter IE significa ter habilidade para lidar com as quatro habilidades identificadas por Mayer e Salovey (2012), que estão dispostos hierarquicamente e cujo nível mais alto seria o da regulação reflexiva. Pode-se compreender a IE, portanto, como a habili- dade para processar a informação emocional “e utilizar esta informação como um guia para o pensamento e para a conduta” (SARRIONANDIA; GARAIGORDOBIL, 2017, p. 111). Nesses termos, a IE pode ser compreendida como um conjunto de disposições compor- tamentais e de autopercepções acerca das próprias capacidades de identificar, proces- sar e utilizar as informações que possuem elementos de ordem emocional.

No que se refere à forma de organização, um programa de IE desenvolvido em San Sebastián, na Espanha, pode ser ilustrativo. Realizado com êxito, obtendo resultados que evidenciaram que o programa potencializou um aumento da inteligência emocional de adolescentes, notadamente no que se refere ao aumento da inteligência intrapes- soal, interpessoal e o estado de ânimo, o programa contemplou 20 sessões de uma hora de duração, realizadas semanalmente, com módulos sobre autoconsciência, regulação emocional, estado de ânimo, comunicação e empatia.

De acordo com Sarrionandia e Garaigordobil (2017, p. 113):

Um exemplo de atividade é a de “Observadores”, que tem como objetivos fomen- tar: (a) a capacidade de identificar e compreender emoções, analisar suas causas e consequências, e (b) a capacidade de empatia e de resolução de problemas emo- cionais. Para isso os alunos veem diferentes vídeos (empatia de um trabalhador com uma anciã que está sendo despejada, a felicidade de um homem por comer sua comida favorita, o enfado de uma menina porque seus amigos chegaram tarde em sua festa e a preocupação de uma mulher por problemas de alcoolismo do seu marido) e respondem a umas perguntas em pequenos grupos: Que emoções apa- recem no vídeo? Por que fulano se sente assim? Quais são as consequências das emoções? Que faria você naquela situação? No debate são colocadas perguntas em torno das interações e emoções experimentadas. Por exemplo: É fácil identifi- car as emoções? O que você aprendeu?

As atividades de IE variam entre a identificação de expressões faciais associadas com as emoções (exercícios para ligar rostos de bonecos com o nome das respectivas emoções), a verificação da presença de determinadas emoções em situações da vida real, filmes ou fotografias, a discussão sobre semelhanças e diferenças entre as emoções, até a aplicação da técnica role-playing para coordenar melhor problemas interpessoais, entre outros. Com um conjunto extenso de propostas didáticas, a metodologia da IE re- pousa, no seu âmago, na teoria cognitivo-comportamental do ponto de vista psicológico e educativo, para colaborar com o desenvolvimento do autoconhecimento do indivíduo.

b. Sobre a Competência Emocional

Ao longo do tempo o conceito de inteligência tem sido questionado por estudiosos que o apontam como inadequado para o campo da educação. O termo competência é defendido por alguns estudiosos como mais apropriado por indicar um fazer que pode ser aprendido ou melhorado, posto que incluiria o nível de conhecimento emocional (o que se sabe), o nível de capacidade emocional (o que se pode fazer a partir do que se propõe) e o nível disposicional (o que se faz habitualmente) (ALZINA; GONZÁLEZ; NAVARRO, 2015).

Diferente dos programas de IE que estão voltados para a percepção, regulação e conhecimento sobre as emoções para alcançar uma destreza específica, as propostas pautadas pela lógica das competências emocionais acenam no sentido de acumular um capital de atuação destinado a ser transferido mediante uma ação concreta. Nesse sen- tido, a competência é compreendida como “a capacidade de mobilizar adequadamente o conjunto de conhecimentos, capacidades, habilidades e atitudes necessárias para rea- lizar atividades diversas com certo nível de qualidade e eficácia” (BISQUERRA; ESCODA, 2007, p. 63).

A noção de competência emocional (CE) está relacionada com a demonstração, por meio de uma ação concreta, de capacidades e habilidades promotoras de resultado positivo. As competências relacionadas com as emoções podem ser entendidas como um conjunto de “habilidades que permitem interagir com os demais de forma satisfa- tória, além de contribuir para a satisfação interna, a consecução de êxitos pessoais e profissionais, e a uma adequada adaptação ao contexto” (ORTS, 2009, p. 19).

As competências emocionais podem ser assim apresentadas:

Quadro 2 – Competências Emocionais de acordo com Rafael Bisquerra

Consciência emocional

1.1 Consciência das próprias emoções: capacidade de perceber com precisão os sentimentos e emoções da pessoa; identificá-los e rotulá-los.

1.2 Dar nome às próprias emoções: capacidade de usar o vocabulário emocional.

1.3 Compreender as emoções dos outros: capacidade de perceber com precisão as emoções e perspectivas dos outros.

Regulação emocional

2.1 Tornar-se consciente da interação entre emoção, cognição e comportamento: os estados emocionais afetam o comportamento e as emoções afetam a emoção; ambos podem ser regulados pela cognição (raciocínio, consciência).

2.2 Expressão emocional: capacidade de expressar emoções apropriadamente.

2.3 Capacidade de regulação emocional: os sentimentos e emoções devem ser regulados.

2.4 Competências de enfrentamento: capacidade de lidar com emoções negativas por meio do uso de estratégias de autorregulação que melhorem a intensidade e a duração de tais estados emocionais. 2.5 Competência para emoções positivas autogeradoras: capacidade de experimentar voluntariamente

e conscientemente emoções para uma melhor qualidade de vida.

Autonomia pessoal

3.1 Autoestima: ter uma autoimagem positiva.

3.2 Automotivação: a capacidade de se tornar automotivado e emocionalmente envolvido em várias atividades de lazer pessoal, social, profissional, etc.

3.3 Atitude positiva: capacidade de automotivar e ter uma atitude positiva em relação à vida. 3.4 Responsabilidade: intenção de se envolver em comportamentos seguros, saudáveis e éticos. 3.5 Análise crítica de normas sociais: capacidade de avaliar criticamente as mensagens sociais, culturais

e midiáticas relacionadas a normas sociais e comportamentos pessoais.

3.6 Procurar ajuda e recursos: capacidade de identificar a necessidade de apoio e assistência e saber como acessar os recursos disponíveis apropriados.

3.7 Autoeficácia emocional: capacidade de autoeficácia emocional: o indivíduo vê a si mesmo que sente o que quer sentir.

Inteligência Interpessoal

4.1 Dominar as habilidades sociais básicas: ouvir, cumprimentar, despedir-se, agradecer, pedir um favor, pedir desculpas, atitude de diálogo, etc.

4.2 Respeito pelos outros: intenção de aceitar e apreciar diferenças individuais e de grupo e valorizar os direitos de todas as pessoas.

4.3 Comunicação receptiva: capacidade de atender aos outros em comunicação verbal e não verbal para receber mensagens com precisão.

4.4 Comunicação expressiva: capacidade de iniciar e manter conversas, expressar claramente seus pensamentos e sentimentos, tanto na comunicação verbal quanto não verbal, e demonstrar aos outros que eles foram bem compreendidos.

4.5 Compartilhar emoções: consciência de que a estrutura e a natureza dos relacionamentos são parcialmente definidas por: a) o grau de imediação emocional ou sinceridade expressiva; e b) o grau de reciprocidade ou simetria no relacionamento.

4.6 Comportamento pró-social e cooperação: capacidade de esperar mudança; compartilhar em situações diádicas e de grupo; manter atitudes de bondade e respeito pelos outros.

4.7 Assertividade: manter um comportamento equilibrado, entre agressividade e passividade; isso implica a capacidade de dizer “não” claramente e mantê-lo, evitar situações em que alguém possa ser pressionado e retardar a atuação em situações de pressão até se sentir adequadamente preparado.

5.1 Identificação de problemas: capacidade de identificar situações que requerem uma solução ou decisão e avaliar riscos, barreiras e recursos.

5.2 Definir objetivos adaptativos: capacidade de definir metas positivas e realistas.

5.3 Solução de conflitos: capacidade de enfrentar conflitos sociais e problemas interpessoais, fornecendo soluções positivas e informadas para os problemas.

5.4 Negociação: capacidade de resolver conflitos em paz, considerando a perspectiva e os sentimentos dos outros.

5.5 Bem-estar subjetivo: capacidade de desfrutar conscientemente o bem-estar subjetivo e procurar transmiti-lo às pessoas com as quais interage.

5.6 Fluxo: Capacidade de gerar experiências ótimas na vida profissional, pessoal e social. Fonte: BISQUERRA; ESCODA (2007, p. 9-12).

Nesse sentido, os conteúdos da CE versam sobre “o conhecimento das próprias emoções e dos demais; o manejo emocional, incluindo a automotivação consciente; a prevenção dos efeitos prejudiciais e potencialização de efeitos positivos das emoções, a aplicação dos conhecimentos nas relações interpessoais” (BISQUERRA, 2000, p. 247). Em outras palavras, a educação emocional pretende “potencializar o desenvolvimento das competências emocionais como elemento essencial do desenvolvimento integral da pessoa, com o objetivo de capacitá-la para a vida. Tudo isto tem como finalidade aumentar o bem-estar pessoal e social” (REDORTA; OBIOLS; BISQUERRA, 2016, p. 186).

A CE é compreendida, portanto, como a “capacidade de mobilizar adequadamen- te o conjunto de conhecimentos, capacidades, habilidades e atitudes necessárias para realizar atividades diversas com certo nível de qualidade e eficácia” (BISQUERRA; ESCO- DA, 2007, p. 3). Nesta perspectiva, a noção de competência constitui-se em um “capital ou potencial de atuação vinculado à capacidade de mobilizar-se ou colocar-se em ação” (BISQUERRA; ESCODA, 2007, p. 3).

Para ilustrar a organização de um programa de educação emocional baseado na lógica das competências, destaca-se o Programa de Educação Emocional Cooperativo- Edemco, aplicado com êxito em colégios de Madrid, Espanha, com crianças que estão matriculadas no primário. Este programa está organizado em dois módulos: o primei- ro, denominado “reconhecimento de emoções” para desenvolver a identificação de expressões emocionais básicas em outras pessoas; e o segundo módulo, chamado de “compreensão emocional”, que visa a melhorar a compreensão que as crianças têm das emoções, para favorecer o entendimento das situações associadas a elas. Todas as ati- vidades foram realizadas de forma cooperativa, em que cada criança possui um papel ativo dentro do grupo: cada uma deve aprender a executar uma parte da tarefa em um grupo inicial (grupos de especialistas) para, posteriormente, aplicar e ensinar para os colegas o que aprendeu. (AMBRONA; LÓPEZ-PÉREZ; MÁRQUEZ-GONZÁLEZ, 2012). Foram aplicadas, durante duas semanas, oito sessões de educação emocional, obser- vando-se que cada sessão tinha duração de uma hora e meia. Cada sessão se estrutu- rou em três momentos: “identificação do conhecimento prévio da criança; explicação e realização da atividade correspondente; conclusão e síntese do aprendido para realizar uma atividade final para fixação dos conteúdos” (AMBRONA; LÓPEZ-PÉREZ; MÁRQUEZ- -GONZÁLEZ, 2012, p. 44).

As atividades de CE são amplas e podem ser apresentadas desde um questionário sobre a forma de como o indivíduo experimenta suas emoções até um conjunto extenso de dinâmicas de grupo em que se apresenta, por exemplo, uma situação-problema para reflexão e sugestões. No geral, trata-se de identificar e reconhecer as características das emoções envolvidas em determinadas situações a fim de oferecer respostas eficazes para solucionar problemas. Como na IE, são propostas que, do ponto de vista psicológi- co e educativo, se comunicam com a teoria cognitivo-comportamental.