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Para se compreender qualquer obra e teoria, há de se conhecer um pouco da história do autor. Por isso, serão destacados alguns dados bibliográficos de Jacob Levy Moreno. Ao estudar a vida e obra deste autor, entra-se em contato com os primórdios do Psicodrama e toda a teoria da Socionomia.
Há muita controvérsia em relação à data e local do nascimento de Moreno. Segundo a história, o nascimento se deu no dia 20 de maio de 1892, num navio não identificado, no mar Negro. Jacob na autobiografia narra:
(...) O fato de ter nascido num navio foi devido a um horroroso erro, sendo que a desculpa foi que minha mãe tinha apenas dezesseis anos e pouca experiência matemática da gravidez. Ninguém sabia a bandeira do navio. Seria um navio grego, turco, romeno ou espanhol? O anonimato do navio deu início ao anonimato do meu nome e ao anonimato da minha cidadania (...) (1985 apud MARINEAU,1992, p.20).
Segundo Fonseca (1980) a data e o local do nascimento eram dúvidas para o próprio Moreno. Atualmente, existe a confirmação de que Jacob nasceu em 1889, na cidade de Bucareste. Do casamento de Moreno Nissim Levy (Comerciante) e Paulina, nasceu o primogênito Moreno e mais cinco irmãos (Homens e mulheres).
Paulina foi uma mãe extremamente zelosa com o primeiro filho e este laço de afinidade se estreitou com um sério ataque de raquitismo de Jacob. Conta-se que certo dia, quando a mãe levara a criança doente ao pátio, passou uma cigana que lhe ensinou um tratamento: O sol iria curar. E ainda fez a seguinte profecia: “Chegará gente de todo o mundo para vê- lo. Ele será um homem sábio e bondoso” (MARINEAU, 1992, p.29).
Quando Moreno tinha quatro anos e meio, foi brincar com as crianças dos vizinhos.
“(...) As crianças disseram: ‘Vamos brincar’. Uma criança me perguntou: ‘Dê que’? ‘Eu sei’, disse eu, ‘vamos brincar de Deus com seus anjos’. As crianças perguntaram: ‘Mas quem é Deus?’. Retruquei: ‘Eu sou Deus e vocês são meus anjos’. As crianças concordaram. Todos declararam: ‘Precisamos primeiro construir o céu’. Levamos as cadeiras de todos os cômodos da casa para o porão, pusemos em cima de uma mesa grande (...). Daí, todas as crianças me ajudaram trepar nelas, até eu alcançasse a última e nela sentasse. (...). As crianças começaram a circular, cantando. De repente, ouvi uma criança me perguntar: ‘Por que você não voa? Estiquei meus braços para tentar. Um segundo depois cai e me vi no chão , com o braço direito quebrado” (MORENO, 1946 apud MARINEAU, 1992, p.30).
Mais tarde, ele próprio relata que foi uma das primeiras vezes que experimenta o gosto pelo o improviso (aos quatro anos e meio), vive com tal intensidade (papel de Deus), que cai da cadeira e fratura o braço (VICENTE, 2005).
Até 1920 a vida de Moreno teve uma característica religiosa marcante. Entre 1907 e 1910, Moreno e um grupo de amigos fundaram a “Religião do encontro”. O grupo usava barbas e vivia pelas ruas á maneira dos mais pobres. Foi neste período que Moreno, nos jardins de Viena, fazia os jogos de improviso com as crianças, estimulando a espontaneidade (GONÇALVES; WOLFF; ALMEIDA, 1988).
Em 1912, estudando medicina e já interno na Clínica Psiquiátrica de Viena, conheceu Freud em um curso de verão. Sobre este encontro, Moreno relata:
(..) Dr. Freud se aproximou de mim e perguntou- me o que eu estava a fazer? Respondi-lhe: ‘Bom Dr. Freud, eu começo onde você acaba. O senhor
conhece as pessoas no ambiente artificial do seu consultório, eu conheço-as no seu próprio ambiente; você analisa-lhes os sonhos, eu tento dar-lhes coragem para sonhar outra vez, (...) (VICENTE, 2005, p.79).
Em 1914, Moreno, conhecendo as técnicas grupais e percebendo a sua importância na integração social, utilizou-as num grupo de prostitutas Vienenses. Desse trabalho surgiu uma organização sindical em Amspittelberg. Em 1916, foi trabalhar em dois campo de refugiados, uma na Áustria e outro na Hungria. Seu trabalho no campo austríaco de Mittendorf foi essencial para o desenvolvimento da Sociometria1 (VICENTE, 2005).
Formou-se em medicina em 1917. Desse ano a 1920 colaborou com a Daimon Magazine, a revista existencialista, vigente na época, junto com outros colaboradores. Em 1921 publicou anominamente Da testament des Vaters, traduzido para o espanhol como Las Palavras Del Padre (GONÇALVES; WOLFF; ALMEIDA, 1988).
Em 1921, já formado em Psiquiatria, funda o “Teatro da Espontaneidade”. Moreno era o diretor e contava com alguns atores. O teatro constitua em cenas improvisadas, sugeridas pelo o público (MENEGAZZO; TOMASINI; ZURETTI, 1995). Era um teatro sem peças, nem atores fixos, sem cenário. Os participantes eram autores e atores, que produziam no aqui e agora. Segundo Moreno (1975) no teatro espontâneo o sujeito representa os dramas da sociedade dentro de personagens.
A proposta de Moreno e sua dedicação ao teatro despertaram interesse e desconfiança do público, que começava a duvidar se as peças realmente eram espontâneas. Nesse impasse, Moreno em 1922, cria uma nova alternativa: O “Jornal Vivo”, mais tarde também chamado de Jornal Dramatizado. Pretendia se fazer uma síntese entre o jornal e o teatro.
Do jornal tiravam-se as notícias, para que a partir daquele estímulo se fizessem as dramatizações (VICENTE, 2005). A primeira sessão psicodramática oficial aconteceu no dia 1o de abril de 1921 (GONÇALVES; WOLFF; ALMEIDA, 1988).
Em 1923 Moreno descobre o feito da ação terapêutica através do “caso Bárbara”. Bárbara era uma atriz no teatro da espontaneidade e representava com qualidade os papéis genuínos e românticos. Jorge, um poeta assíduo nos espetáculos, seduziu-se pela imagem doce e terna de Bárbara, vindo a desposá-la.
Mais tarde, o poeta procura Moreno e, desconsolado, confessa que a esposa era grosseira e até violenta. Bárbara ainda trabalhava no teatro com Moreno e numa tentativa de ajudar o casal, o mesmo, passou- lhe a dar papéis violentos e agressivos. Mais tarde, e por haver alterações no comportamento da atriz, Jorge também foi convidado a participar das dramatizações. À medida que o casal ia dramatizando situações de conflito, as discussões vivenciadas na vida real iam se findando. (VICENTE, 2005).
Através do Teatro Terapêutico se permitiria fazer ressurgir comportamentos, fantasias e afetos, que ajudariam a descobrir, modificar e desenvolver a personalidade. Esta concepção inspira-se na antiga tradição grega, na qual o teatro, além do valor estético, tem influência no enriquecimento e domínio próprio. Assim, o valor do teatro terapêutico seria fundamentalmente catártico. Tornando-se criativo, espontâneo e libertador (VICENTE, 2005).
E desta forma, o Teatro da Espontaneidade transforma-se em Teatro Terapêutico e este no Psicodrama Terapêutico.
Em 1925, Moreno emigra para os Estados Unidos, por dificuldades. Em 1927, faz a primeira apresentação de Psicodrama fora da Europa.
Em 1932, Jacob publicou um estudo qualitativo e quantitativo das relações interindividuais de um grupo de prisioneiros de Sing Sing, e apresentou suas considerações no Encontro anual da Associação Psiquiátrica Americana, realizado na Filadélfia. Este evento é considerado como sendo o início formal da psicoterapia de grupo. Depois que o relatório desse estudo em Sing Sing foi publicado, iniciou uma pesquisa sociométrica de grande importância na escola Hudson para moças, em Nova York.
Moreno considerou a Psicoterapia de Grupo, o Psicodrama e a Sociometria como a terceira revolução psiquiatra, após a primeira revolução de Pinel, em 1772.
Em 1936 o médico constrói em Beacon, Nova York, o primeiro Teatro Terapêutico. No ano de 1946, Moreno separa-se de Florence, sua primeira mulher (com quem teve uma filha), para casar-se com Zerka Toeman. Após três anos nasce Jonathan, filho do casal.
Moreno morre em Beacon, em 14 de maio de 1975, aos 85 anos de idade. E pede para que sua sepultura esteja escrito: “Aqui jaz aquele que abriu as portas da Psiquiatria à alegria” (GONÇALVES; WOLFF; ALMEIDA, 1988, p.17).