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Segundo van Leeuwen (1996), os atores sociais podem ser excluídos ou incluídos de acordo com interesses e propósitos em relação aos leitores a quem se dirige o texto. Em “Our race odyssey”, publicado em um jornal conservador de classe média, o autor aponta para o fato de que nem todos os atores foram incluídos. Enquanto o Primeiro Ministro Bob Hawke está representado, excluíram-se aqueles que rotulam como racista ou que expressam receios legítimos sobre a imigração, por exemplo. Para reforçar a tese da inclusão ou exclusão proposital, feita pelo representador, outros trabalhos são citados, entre eles, Trew (1979). Neste trabalho, o autor analisa excertos dos jornais The Times e o Rhodesian Herald, revelando como esses excluíram a polícia nas reportagens relativas aos assuntos dos “motins” acontecidos na capital do Zimbábue em primeiro de junho de 1975. Motins entre aspas, porque, entre as diferentes versões, está aquela que os manifestantes protestavam pacificamente até quando a polícia passou a utilizar métodos não letais para dispersar a multidão. Ao se protegerem, os manifestantes tornaram-se amotinados, autorizando a polícia a atirar para matar. De acordo com o autor, o apagamento da polícia nas reportagens nos dias subseqüentes atende aos interesses dos jornais analisados, bem como de seus leitores, para tentar justificar o então domínio dos brancos na África. Lingüisticamente, o apagamento e a reversão do iniciador da ação podem ser vistos em uma das manchetes do The Times “Rioting blacks shot dead by police as ANC leaders meet”. Através deste exemplo, o autor esclarece algumas estratégias utilizadas para descrever as circunstâncias do acontecimento, entre elas, o uso da passiva, que coloca o agente sintático em uma posição menos focal; a omissão do agente no corpo da reportagem; e a escolha do item lexical riot, que implica desordem civil e conseqüente necessidade de intervenção policial.

Os atores sociais podem ser excluídos de duas formas: através da Supressão, ou seja, quando não é feita qualquer referência aos atores sociais em qualquer parte do texto e pelo Encobrimento, ou colocação em segundo plano, quando os atores sociais excluídos podem não ser mencionados em relação a uma dada atividade, mas o são em outro lugar no texto, recuperáveis através de inferência.

A Supressão é realizada através do apagamento do agente da passiva, orações infinitivas funcionando como Participante gramatical, apagamento de Beneficiários, nominalizações, Processos realizados através de adjetivos e codificação na voz média (uma frase sem traços de agência).

Abaixo, são apresentados exemplos extraídos do corpus desta pesquisa referentes ao texto em inglês. O exemplo (01), se analisado dêscontextualizadamente, ilustraria o caso de Supressão do ator social, por não apresentar quem deu as ordens a Marlow [I] para levá-lo. Lingüisticamente é realizada pelo apagamento do Agente.

Exemplo (01): I was ordered to send him there.

Vale ressaltar o fato de “se analisado descontextualizadamente”, pois Van Leeuwen lembra que exclusões radicais não deixam marcas nas representações. O exemplo acima, quando contextualizado, revela-se um caso de Encobrimento, pois, ao ler o romance, aprendemos que seu chefe na Europa é quem ordenou. Segundo van Leeuwen, em relação às exclusões radicais, não se pode chegar a conclusões através da análise de um único texto, para tanto, é necessário que se analisem textos que representem a mesma prática social. Em seu estudo de representação em

produções textuais em contexto escolar (VAN LEEUWEN, 1993), através da comparação de textos de alunos, o autor percebeu que, naqueles produzidos visando o público geral, funcionários na hierarquia abaixo dos professores eram, por vezes, incluídos, excluindo-se a diretora; enquanto que, naqueles produzidos visando um público mais abastado, o contrário ocorria, constituindo, de acordo com o autor, um padrão de inclusão e exclusão relacionado à classe social. Em um estudo para a análise de supressão em textos ficcionais, poder-se-ia recorrer a obras que representassem a mesma prática. No caso da colonização européia na África, como representada em literatura ficcional, uma possibilidade seria a análise de O mundo se despedaça, de Chinua Achebe, que dá voz ao povo Ibo da Nigéria nos primeiros contatos com os europeus por ocasião da colonização. Sem entrar em análises mais detalhadas, podemos perceber que os atores incluídos nos romances de Conrad e de Achebe são totalmente distintos. Em O mundo se despedaça, podemos perceber uma sociedade vibrante e ativa constituída de diversas práticas e atores sociais que não aparecem no romance de Conrad. Assunto que não será abordado aqui, pois, em si só, encerra um objeto de pesquisa e sua exploração desviaria o foco desta.

O Encobrimento (segundo plano) é realizado através de elipses em orações infinitivas formadas com gerúndio ou particípio; orações infinitivas com to (em inglês) e por orações paratáticas, ou, ainda, da mesma forma que a Supressão, desde que sejam incluídos em outra parte do texto e recuperáveis por inferência, como no exemplo (02), em que apenas sabemos por quem the chain [a corrente]17 deve ser abaixada pela leitura do texto anterior a esta passagem, quando somos informados da composição da tripulação do barco que sobe o rio, neste caso, são os negros da tripulação quem deveriam fazer o serviço.

Exemplo (02): "I went forward, and ordered the chain to be hauled in short, so as to be ready to trip the anchor and move the steamboat at once if necessary.

Van Leeuwen (1996) esclarece que, enquanto algumas das exclusões servem a algum propósito, outras podem ser “inocentes”, por se tratarem de pormenores que os leitores já conhecem, ou que são considerados irrelevantes para eles. Segundo o autor, especialmente no caso de Encobrimento, é difícil estabelecer se os atores sociais deviam ou não ser recuperáveis pelo leitor ou mesmo pelo escritor. No exemplo The level of support for stopping immigration is at postwar high, pode-se questionar se os atores sociais excluídos através das nominalizações support, stopping e immigration deixaram de ser incluídos para não causar redundância ou para bloquear o acesso ao conhecimento pormenorizado de uma prática que, se representada em detalhe, poderia despertar compaixão por aqueles que são stopped. O autor responde ao questionamento afirmando que, ao se representar a prática desta forma, ela não será examinada nem contestada.

Ressalva-se que a inclusão de atores sociais em todas as instâncias de discurso pode tornar o texto repetitivo e cansativo, portanto o Encobrimento de atores sociais, muitas vezes, pode dever- se às referências anafóricas, como em (2) I went forward, and [I] ordered the chain..., cujo Sujeito elíptico da segunda oração do complexo oracional pode ser recuperado na oração imediatamente anterior.

Já no exemplo (03), isoladamente, não podemos identificar quem se refere ao half-caste [o mestiço] como ‘that scoundrel’ [“aquele patife”], mas o desenvolvimento da narrativa nos permite perceber que são os europeus quem têm voz e únicos capazes de referir-se a eles como tal.

Exemplo (03) The half-caste, who, as far as I could see, had conducted a difficult trip with great prudence and pluck, was invariably alluded to as ‘that scoundrel’.

O Exemplo (04) é outra ilustração interessante de Encobrimento de tanto europeus quanto de africanos pelas nominalizações trade, humanizing, improving, instructing [comércio, humanizar, melhorar, instruir]. Pela análise do trecho isoladamente, não sabemos quem comercializa o quê, tampouco sabemos quem humaniza, melhora e instrui quem, a não ser pela representação impersonalizada dos europeus através do item lexical station [posto], que sabemos serem administrados pelos europeus.

Exemplo (04): "Each station should be like a beacon on the road towards better things, a centre for

trade of course, but also for humanizing, improving, instructing.