Há uma experiência do pensamento que pode ser comparada àquela que Foucault julga ter inspirado toda sua obra: a percepção de que os lugares- comuns de uma determinada ordem cultural, as heterotopias, em torno dos quais habitam e rodeiam as ordens, as lógicas, as explicações para o mundo, dissolvem- se diante do Outro. No caso de Foucault, o encadeamento dos animais na enciclopédia chinesa, tal como apresentado por J. L. Borges26, é a primeira metáfora do que ocorrerá nas grandes viradas epistêmicas numa ordem histórica. O que a enciclopédia chinesa nos revela é que uma ligação ou correlação dos seres não é feita sem uma disposição de ordem linguística. Ela fornece a única necessidade no agrupamento dos animais que enuncia. Estes animais são: “a) os pertencentes ao imperador, b) os embalsamados, c) os domesticados, d) os leitões, e) sereias, f) fabulosos, g) cães em liberdade, h) incluídos na presente classificação, i) que se agitam como loucos, j) inumeráveis, k) desenhados com um pincel muito fino de pelo de camelo, l) et cetera, m) os que acabaram de quebrar a bilha, n) os que de longe
25 FOUCAULT, M. 2006, p. 131. 26
parecem moscas”, a única ordem lógica que nós, ocidentais, conseguimos captar neste bizarro agrupamento são os signos alfabéticos – a), b), c), d) que designam sua ordem; e em última instância podemos dizer que os seres só existem em determinado espaço porque há uma ordem que os dispôs de determinada forma, ordem esta que tem o fundo de linguagem que “desde o fundo dos tempos [...] se entrecruza com o espaço” (FOUCAULT, 1999, p.XII). Como nos diz o autor: “as heterotopias inquietam porque solapam secretamente a linguagem, arruínam de antemão a “sintaxe”, e não somente aquela que constrói frases – aquela, menos manifesta, que autoriza “manter juntas” as palavras e as coisas” (FOUCAULT, 1999, p.XII). É a linguagem que agrupa os animais que se agitam como loucos com os que são desenhados com um pincel muito fino de pelo de camelo, assim como se disporiam para nós o guarda-chuva e a máquina de costura entre os objetos comuns na ordem das coisas – ou como certos afásicos seriam incapazes de dispor sobre uma mesa uma ordem classificatória para um grupo de objetos semelhantes, como diferentes novelos de lã, e mesmo se conseguem agrupar num lado os matizes mais claros, do outro os fios mais grossos, noutro os fios mais longos, tão logo são formados, tais agrupamentos se desfazem em inquietude diante da falta de ordem, pois a identidade dos seres não é nada estável. Foucault bem observa que apesar da subversão de toda a lógica possível para a enciclopédia chinesa, ela não enuncia nenhum ser quimérico, invisível ou aberrante. Na cultura ocidental, Eustenes fala de todos os seres que habitam sua saliva: “Áspides, Anfisbenas, Anerudutos, Abedessimões, Alartas, Amóbatas, Apinaos, Alatrabãs, Aractes, Astérios, Alcarates, Arges, Aranhas, Ascálabos, Atélabos, Ascalobotas” (FOUCAULT, 1999, p. XI). Seres que se desdobram num espaço puro de linguagem, em que as similitudes da inicial A e do som sibilante são as únicas condições de possibilidade dos nomes e de sua coexistência no espaço da boca. Todos os animais da enumeração da enciclopédia se apresentam numa ordem aleatória da percepção, ainda que mesmo os animais desenhados sejam classificados entre os demais, como se assim tivessem sido dispostos ao olhar de um enciclopedista sem nenhuma definição universal ou hierarquia do que seja o animal a não ser o seu olhar e o próprio animal, de tudo aquilo que cabe à palavra “animal” como simples fato, não se importando com seu ser biológico ou suas funções ou espécies. Cito a ideia central do texto de Borges:
Registrei as arbitrariedades do desconhecido enciclopedista chinês, do idioma de John Wikins e do instituto Bibliográfico de Bruxelas; notoriamente, não há classificação no mundo que não seja arbitrária e conjectural. A razão
é muito simples: não sabemos o que é o universo. “O mundo – escreve Hume – talvez seja algum rudimentar esboço de um Deus infantil que o abandonou pela metade, envergonhado de sua execução deficiente” [...] Pode-se ir além; pode-se suspeitar que não há universo no sentido orgânico, unificador, que tenha essa ambiciosa palavra. Se houver, falta conjecturar seu propósito; falta conjecturar as palavras, as definições, as etimologias, as sinonímias do secreto dicionário de Deus. (BORGES, 2000, p. 77.)
A disposição da linguagem dos seres da língua de Eustenes parece pertencer a uma definição racional e indutiva de uma universalização para além da observação. Estaríamos, nós ocidentais, muito mais no registro de uma lógica delirante no espaço próprio do sonho, neste espaço em que a imaginação dos seres absurdos um dia se entrecruzou com a lógica do mundo e constituiu um determinado saber prolífero. Este saber que hoje só pertence aos mitos e às poéticas, um enunciado aparentemente alucinado e sem o menor sentido para nossa positividade, merece ser investigado ao nível das condições de possibilidade na medida em que ele abala os pressupostos de toda a nossa ordem dos saberes. “De fato não há, mesmo para a mais ingênua experiência, nenhuma similitude, nenhuma distinção que não resulte de uma operação precisa e da aplicação de um critério prévio” (FOUCAULT, 1999, p. XIII). Este mal-estar na linguagem que Borges nos apresenta é uma presença abrupta da região liberada pela experiência do Outro. Algumas neuroses, em certas ocasiões, apresentam-se como a afasia, em que se perde totalmente a dimensão das coisas, onde os seres cotidianos deixam de fazer sentido, nem mesmo o copo, a água ou a pia resistem ao teste de realidade, sucumbem a esta região que não cessa de murmurar e que nos anuncia um mundo sem ordem. O que a investigação de Foucault nos lembra é que, se existe um ser ordenável, há uma linguagem já organizada que se apresenta de pronto para dar conta de todas as suas relações: “as heterotopias dessecam o propósito, estancam as palavras nelas próprias, contestam, desde a raiz, toda possibilidade de gramática; desfazem os mitos e imprimem esterilidade ao lirismo das frases” (FOUCAULT, 1999, p. XII). A estrutura da linguagem parece, então, ser o último e mais primitivo modo de organização dos seres. E para Nietzsche não restam dúvidas:
A linguagem pertence, por sua origem, ao tempo da mais rudimentar forma de psicologia: entramos em um grosseiro fetichismo, quando trazemos à consciência as pressuposições fundamentais da metafísica da linguagem, ou, dito em alemão, da razão. Esse, vê por toda parte agente e ato: esse acredita em vontade como causa em geral; esse acredita no “eu”, no eu como ser, no eu como substância, e projeta a crença da substância-eu sobre todas as outras coisas – somente isso cria o conceito de “coisa” [...] De fato, nada até agora teve uma mais ingênua força persuasiva do que o
erro do ser, tal como foi, por exemplo, formulado pelos eleatas: pois esse erro tem a seu favor cada palavra, cada proposição que nós falamos! [...] A “razão” na linguagem: oh que velha, enganadora personagem feminina! Temo que não nos desvencilharemos de Deus, porque ainda acreditamos na gramática... ( NIETZSCHE, F. 1999. p. 375.)
É sem demora que Nietzsche denuncia como o descaso com a linguagem produziu o mais radical preconceito do ser: o de projetar no sujeito o conceito de substância e tornar o “eu” uma substância para dar suporte às próprias coisas. O conhecimento é então condicionado por esta res da qual o sujeito é causa. A linguagem sequer é posta em questão, pois toda a meditação gira em torno do
subjectum. Com um pouco de filologia, percebe-se que:
[...] subjectum é derivado de substare, verbo do qual se deriva substantia. Desde Sêneca e Cícero, primeiro, e de Boécio, depois, substantia foi empregada para traduzir o termo aristotélico ousía, para o qual também o latim filosófico criou um neologismo, qual seja, essentia. Ora, em latim,
substare, substantia e subjectum são vocábulos da linguagem jurídica que
se referem às coisas físicas ou aos corpos. Eis porque Descartes fala em
res (coisa) para referir-se à substância pensante e à substância extensa,
ambas igualmente sujeitos. (CHAUÍ, 2011, p.334.)
Ora, herdamos toda uma tradição que postula o nascimento da idade moderna com a subjetividade do cogito cartesiano, mas percebemos com Chauí que o sujeito do qual fala o século XVII não pode ser o mesmo da subjetividade tal qual nós a conhecemos. Em primeiro lugar porque tomando um termo pelo outro, toda a porção metafísica de um sujeito como substância, como coisa que pensa, desaparece quando pensamos a subjetividade. O termo em si postula de pronto que o sujeito não é substância, mas sim uma certa atividade com suas regularidades, leis, ordens, enfim, com sua estrutura. Trata-se de uma forma negativa do ser, ainda que a ideia de estrutura mantenha este parentesco com certa disposição espacial, que dispõe determinadas faculdades num sistema sintético organizado. E se Foucault se recusa a aceitar a determinação de um recorte temporal moderno que se iniciaria com Descartes dado o seu pioneirismo na tratativa com o sujeito, é porque não consegue ver no cogito senão outra disposição do ser que ainda não pode ser considerada uma subjetividade. E se a idade moderna só se inicia sob a égide da subjetividade, ela não poderia começar com Descartes. Houve outra disposição em seu recorte histórico que o fez pensar os séculos XVII e XVIII como idade clássica, e não como idade moderna.
Toda uma tarefa histórica ainda deve ser feita no campo dos saberes. Esta tarefa consiste na construção de uma teoria do Mesmo, na qual um estudo que
acompanhe de perto as disposições da linguagem poderiam radicalizar suas conclusões. Estaria a teoria do Mesmo, do olhar codificado, do conhecimento reflexivo, das ordens empíricas, das teorias científicas e interpretações filosóficas sempre acompanhadas desta ordem espacial, de uma forma fundamental, profunda e arcaica, presas de tal modo às palavras, que a linguagem também lhe age como determinação primeira e anterior às percepções e gestos. Liberada de um lado pelas heterotopias e de outro pela crítica, a experiência do Outro leva a linguagem aos seus limites para evidenciar sempre o novo, para denunciar as formas estáticas que o espaço lhe impôs.
A história do Outro na História da Loucura tem, segundo Foucault, um grande vínculo com a arte e a literatura. Em As palavras e as coisas, a literatura aparece sempre à margem dos saberes. As heterotopias, não como outros saberes, mas como o outro do saber, manifesta o ser paradoxal da linguagem. Ainda na idade clássica, em que a linha entre filosofia, ciência e literatura parece muito tênue e o ser da linguagem está disposto num quadro pela ordem das representações, a literatura continuará como crítica das representações e manifestação de um ser completamente alheio à representação, no limiar entre a loucura e a linguagem. A literatura vem pelas margens e se instaura de modo intersticial no seio da linguagem, sempre como ruptura, sempre como transgressão. Pois há na linguagem algo além de seu sentido, algo que dissolve as sintaxes e se desdobra no espaço do Outro:
Podemos dizer simplesmente que a literatura é o risco sempre corrido e assumido por cada frase de literatura, o risco de que a frase, e depois todo o resto, não obedeça ao código. [...] Há um risco sempre essencial, fundamental, inefável em toda literatura: o do esoterismo estrutural. É bem possível que o código não seja respeitado. Em todo caso, a fala literária tem sempre o direito soberano de suspender esse código, e é a presença dessa soberania, mesmo se ela não é de fato exercida, que constitui provavelmente o perigo e a grandeza de toda obra literária. (FOUCAULT, M. 2005. p. 159.)
Os exemplos de heterotopias advêm das experiências fundamentais da alteridade. Tais experiências, na medida em que se reportam à literatura, conduzem à indagação do próprio ser literário, pois como pode ser a literatura uma obra de linguagem e ao mesmo tempo o contraponto que solapa a própria ordem que permitiu a sua aparição? As heterotopias que dissecam o propósito das palavras desfazem todos os mitos e esterilizam todo o lirismo das frases. O que se contesta é
o fundo que possibilita a gramática desde a sua raiz e as ordens possíveis fragmentam-se numa dimensão sem lei em que são dispostas em lugares tão diferentes que é impossível reencontrar seu espaço identitário, seu lugar-comum. De certo modo, os afásicos já denunciaram a ausência do espaço homogêneo e liberaram toda a força das heterotopias, mas não sem um mal-estar da suspeita de uma desordem profunda e incongruente em nosso próprio ser. Não haveria, portanto, este lugar comum onde é possível recolher as identidades ou manifestar as diferenças, tampouco o sentido que é investido em cada nome. Se a ordem é a lei interior que se manifesta apenas sob o crivo de um olhar atento e de uma linguagem já dada, ora, como pode então ser possível que haja ao menos uma ordem nas palavras? E Nietzsche desencadeia a suspeita:
Agora, com efeito, é fixado aquilo que deva ser “verdade”, isto é, é descoberta de uma designação uniformemente válida e obrigatória das coisas, e a legislação da linguagem dá também as primeiras leis da verdade [...] o que se passa com aquelas convenções da linguagem? São frutos do conhecimento, do senso de verdade: as designações e as coisas se recobrem? É a linguagem a expressão adequada de todas as realidades? (NIETZSCHE, 1999, p. 55)
Apesar de toda a pesquisa histórica foucaultiana buscar pela disposição da ordem dos saberes, é a interrogação de Borges que será levada aos limites da linguagem e seu caráter primeiro de sintaxe dos seres, em seu próprio ser misterioso ao lado do Homem. O aparecimento de determinada ordem se define pelo espaço constituído numa camada mais profunda do saber, justamente aquela que agita, revolve e mobiliza o solo da linguagem. Não obstante, a ordem é a rede secreta que se mostra como ser interior das coisas e só aparece num olhar e num crivo linguístico. Mediante este olhar crítico, tal ordem pode não mais reencontrar o seu ser, e instala-se como mal-estar. A linguagem é um limite tanto à experiência do mesmo quanto à experiência do outro.