• No results found

3. Teorigrunnlag

3.2 Innovasjon

Quem solapa a epistémê renascentista e o saber das similitudes é Descartes, mas quem o precede é Cervantes na literatura. O que acontecerá com

Dom Quixote será a repetição de uma ordem renascentista, das palavras solitárias

de um cavaleiro incompreendido num mundo que não encontra mais as similitudes que o estruturava. Diante dos signos falhos do não-semelhante, o engenhoso fidalgo reconstitui as marcas da verdade das escrituras, das novelas de cavalaria, dos papiros, dos pergaminhos árabes, e se recusa a ver no mundo somente o que os olhos mostram. As narrativas cavaleirescas só retomam as similitudes na forma do absurdo. A interpretação se acha diante do enigma da loucura que recusa a ver no mundo empírico a marca puramente sensível, tornando-o grande signo das fantasias da nobreza e esfinge do infinito desejo de morte. As figuras que autorizavam a epopeia perderam sua marca na memória. Sair em busca dos signos perdidos dos livros, eis o desatino de Dom Quixote de La Mancha. Velho fidalgo que viu um mundo inteiro nas centenas de volumes medievais e o acolheu em sua estrutura de reconhecimento. É pelos velhos e empoeirados signos que o herói dá a sua vida em busca da venturosa morte.

Toda uma ritualística era preciso antes de começar sua suntuosa jornada, conceber primeiro a verdade do mundo secreto para depois procurar os seus signos: quase uma semana só para ter a revelação de um nome digno para seu cavalo mocho: Rocinante; procurar um escudeiro que lhe acompanhe para dar testemunho de sua virtuosidade e grandiosa morte; procurar um cavaleiro para que lhe jure bravura em troca da investidura da nobreza; fazer um juramento de amor eterno à sua Dulcinéia (para depois procurar uma pessoa que a seja); ser terrivelmente ferido na batalha contra um gigante (ainda que o que se vê não passe de um moinho); recuperar-se; ignorar as vozes que lhe acusam de loucura e continuar procurando uma nova ocasião para se fazer bravo; rivalizar com um basco, colocar-se em torneio e usar de escudo uma almofada de penas. Dom Quixote não pode morrer pelas mãos de Cervantes, ele lhe nega de imediato o fim do conto. É preciso não matar Quixote para assegurar que ele persevere na despropositada aventura, que a tese de sua bestialidade seja verdadeira, que não haja suspeita sobre a sua não loucura. Cervantes titubeia diante da ferida mortal, irônico, não quer deixar uma história tão fantástica acabar facilmente. Encontra, pois, novos pergaminhos de um comerciante árabe que lhe revelam a história dita “verdadeira” do cavaleiro errante. A voz colhida deste senso comum e que assegura a Cervantes e aos leitores a sanidade acompanha toda a trama quixotesca. É assim que “Dom

Quixote desenha o negativo do mundo do renascimento; a escrita das coisas cessou

de ser a prosa do mundo; as semelhanças e os signos romperam sua antiga aliança; as similitudes decepcionam, conduzem à visão e ao delírio; as coisas permanecem obstinadamente da sua identidade irônica: não são mais do que o que são” (FOUCAULT, 1999, p 65). Continua indefinidamente vendo castelos, senhores feudais, cortesãos e servos, uma feiticeira persa, exércitos, elixires da longa vida onde só existe o comércio, os comerciantes, a plebe, uma moça que confunde a cama do amante no meio da noite, rebanho de ovelhas, suco de algumas folhas. Quixote visa à transformação da realidade em um signo no qual os outros signos da linguagem são realmente conforme as próprias coisas. Mas jamais será possível encerrar o significado de sua obra, pois se, por um lado, Dom Quixote tem a razão cruel da modernidade, que fustiga os signos e as similitudes, fazendo o mundo entrar no regime das identidades e diferenças, por outro a obra apresenta este desdenhar infinito, este fustigar infinito, numa espécie de obsessão da linguagem que retornará no desejo de Sade, nas aventuras aprisionantes de Lewis Carrol.

No classicismo será dado outro estatuto para a linguagem, dissociada das similitudes e de sua relação fundamental com as coisas: “a linguagem rompe seu velho parentesco com as coisas para entrar nessa soberania solitária donde só reaparecerá, em seu ser absoluto, tornada literatura; pois que a aí a semelhança entra numa idade que é, para ela, a da desrazão e da imaginação”. (Ibid. p. 67). Agora, na ordem da identidade e da diferença, distinguem-se e isolam-se o louco e o poeta.

O louco, entendido não como doente, mas como desvio constituído e mantido, como função cultural indispensável, tornou-se, na experiência ocidental, o homem das semelhanças selvagens. Essa personagem é, tal como é bosquejada nos romances ou no teatro da época barroca e tal como se institucionalizou pouco a pouco até a psiquiatria do séc. XIX, aquela que se alienou na analogia. [...] toma as coisas pelo que não são e as pessoas umas pelas outras, ignora seus amigos, reconhece os estranhos; crê desmascarar e impõe uma máscara. [...] Na outra extremidade do espaço cultural, mas totalmente próximo por sua simetria, o poeta é aquele que, por sob diferenças nomeadas e cotidianamente previstas, reencontra os parentescos subterrâneos das coisas, suas similitudes dispersadas. Sob os signos estabelecidos e apesar deles, ouve outro discurso, mais profundo, que lembra o tempo em que as palavras cintilavam na semelhança universal das coisas. [...] Mas já não se trata do velho tema platônico do delírio inspirado. Trata-se da marca de uma nova experiência da linguagem e das coisas. (FOUCAULT, 1999, p. 67)

A literatura anuncia aos saberes, numa escolha da cultura, a mudança de sua percepção. Mas são os saberes que respondem a esta percepção com uma nova teoria da ordem. Mas não é uma crítica unilateral a que está contida em Dom

Quixote. Se, por um lado, as similitudes renascentistas encontram a sua heterotopia,

o seu ponto de contestação, por outro, é a literatura que fala deste ser que busca a morte e que não aceita ver o que simplesmente olha. O louco reúne todos os signos e os preenchem com uma semelhança que se prolifera infinitamente. O poeta se põe a escutar esta “outra linguagem”, que fazem, inversamente, os signos chegarem até a similitude. A experiência de ambos retraça o limite da cultura ocidental, que desenvolve a sua ordem entre as identidades e as diferenças. A palavra do louco guarda o poder da estranheza, a do poeta, a contestação. Desde A História da

Loucura esta relação fora estabelecida. A investigação da literatura parece ser

fundamental para este encontro tanto com as falas da loucura como com os modos de se fazer signo. Mas na medida em que denunciam o grito, sem palavras nem discurso, de um ser linguístico, de uma palavra-coisa, denunciam a negligência dos saberes clássicos e modernos para com esta natureza da linguagem.

Desde Bacon, segundo Foucault, a crítica dos signos do saber desrazoado aparece na filosofia. Os ídolos nos fazem crer que as coisas se assemelham tanto ao que aprendemos como entre si próprias. Elas denunciam tanto as ficções do espírito como as confusões da linguagem, e a solução dada é apenas a apuração da prudência. É Descartes quem solapa as similitudes, pois ele exclui a semelhança como experiência fundamental de conhecimento, e faz isso por meio da universalização do pensamento racional. O murmúrio da verdade que a loucura enunciava na renascença é silenciado logo na primeira meditação, pois, se o ser é racional então o irracional não pode ser. Todas as quimeras e loucuras devem ser abandonadas de pronto e antes mesmo da dúvida, do sonho ou do deus enganador, é preciso que se faça uma escolha entre a animalidade da loucura e a ciência da razão. O corpo e a alma, conhecidos como extensão e pensamento, serão moldados à forma da ordem e da medida. Todo o conhecimento será possível apenas por esse meio, as identidades e as diferenças, sob o crivo desta análise, dissociam o saber das similitudes, que seguiam indefinidamente dos elementos particulares até o todo infinito. Trata-se agora de considerar primeiro o todo que só então se divide em substâncias ou partes de grandezas matematicamente iguais.

CAPÍTULO 3

O quadro dos saberes sob a égide das

representações