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INTRODUKSJON TIL METODE

In document BTH 95031 (sider 16-22)

Quando indagado sobre si, Gilberto não titubeia, parece ter um discurso de apresentação pronto, algo oriundo de suas inúmeras apresentações aos clientes e jornalistas ou pesquisadores. De uma só vez, profere a seguinte apresentação:

Eu sou Sebastião Francisco de Lima mas no mundo das artes sou conhecido como Gilberto, mundialmente. Tenho trabalho em São Francisco, na Califórnia, tem na França, em Porto Portugal. No Brasil tem em todo canto. Comecei aos 14 anos e estou ainda hoje sobrevivendo da arte. Na fonte... aqui também tem, o recôncavo aqui em Crato, Barbalha e adjacências.

Nascido em 1957, brinca: “Hoje estou com 55, isso se eu chegar até janeiro”. Nasceu em Juazeiro do Norte, “na Rua do Limoeiro dentro triângulo onde um trem fazia um percurso. Um trem ali já imaginou.” Saiu aos dezessete anos, percorrendo diversos locais do país, morou em São Paulo por dois anos e oito meses, morou na baixada Fluminense por três anos e passou grande parte de sua vida em Salvador. Além disso, viajou muito.

Viajou, já não viaja mais. Atualmente, não consegue viajar, pois, uma vez, ao ir deixar umas peças encomendadas por negociante do Mercado Modelo em Salvador, foi assaltado ao descer do ônibus. Levaram a carteira com todos os documentos e 350 reais. Como tinha sido registrado em Acopiara, foi atrás da certidão de nascimento para tirar a segunda via da documentação, mas o cartório tinha pegado fogo. Tem o batistério e o Boletim de Ocorrência, mas, segundo ele, só com isso não consegue embarcar num ônibus, não pode viajar. Esse impedimento já o fez perder um trabalho de 10000 (dez mil) reais em Salvador. Mas o que é pior mesmo, segundo ele, não é não poder viajar, mas a sensação de abandono que sente por parte do poder público. Ao tentar tirar a segunda via de seus documentos junto à justiça, ele narrou este descaso da seguinte forma:

Tô precisando do Estado e o Estado não está nem aí pra mim. Quando eu chego pra visitar minha advogada ela tira piada comigo dizendo tá aí um homem que não existe. Ainda tem a pior parte, se eu morrer sou enterrado como indigente. Mas eu vou vivendo até barroar no muro, quando você barruar no muro ali você fica, essa é a vida de um artista.

Ensinou a alguns dos membros do CCMN, onde está há uns 22 anos “dentro” da casa, e ensinou a outras pessoas fora dali. Gilberto afirma que, quando tem oportunidade, ensina, mas seu preço é muito alto, é paciência dos seus aprendizes. Em poucas palavras narra seu processo de ensino-aprendizagem, levando em consideração um fator de tirocínio que é paciência, um aprendizado que utiliza na própria vida como narra:

Eu abusei muito do poder, pegue a madeira, serre, abra o design não prestava eu dizia rache e jogue fora que não presta. Se você um dia me perguntar eu num vou lhe ensinar da forma errada. Mas você vai ter que ter paciência. É o que eu tenho que ter hoje, hoje eu vivo quase mendigando. Perdi esposa, perdi filho, já tive um lar, perdi tudo.

Apesar do tom melancólico que expressa enquanto narra suas derrotas, considera-se um vitorioso, como costuma dizer, e exemplifica dizendo que já segurou na alça de caixão de gente com 17 anos, mas continua tomando sua “tampa de sabugo”69 aos 55 anos.

Das histórias de ensino que gosta de contar uma lhe é marcante. Narra que, certa vez, Raimundo, hoje um membro do CCMN, foi até sua casa e não viu “muito movimento de alimento” como ele mesmo diz. Já havia perdido tudo, tinha se separado da primeira esposa e Raimundo vendo que ele não tinha almoçado, levou-o para almoçar em sua casa onde banquetearam com carcaça de galinha. O mais interessante nessa história é que Raimundo, junto com seu irmão Zumbin, a partir daí passaram a aprender o ofício. Gilberto os ensinou a trabalhar com artesanato em madeira, os dois moravam em um bairro muito violento, a “boca das cobras”, segundo Gilberto eles “perigavam” virar marginais, como tantos outros ali do bairro, mas, orgulhoso, aponta para Zumbin, e diz: “Mas ó aí os caras!”.

E esta parte da sua história é uma das que mais o emociona, pois Gilberto conseguiu tirar não só Zumbin e Raimundo da possível marginalidade que os espreitava no bairro em que moravam, como tantos outros meninos que aprenderam o ofício com ele, entretanto, não conseguiu impedir que seu próprio filho, o mais velho, que tem dezessete anos, entrasse no mundo do crime.

Gilberto conta que certa vez estava em casa quando escutou o barulho da sirene da polícia; abriu a porta e os guardas perguntaram se aquele rapaz na viatura era seu filho. Gilberto disse-lhes que sim e perguntou o que ele havia feito, os policias lhe disseram que ele havia sido pego com um produto de roubo na hora em que tentava trocar por droga, crack. Os

69 Tampa de sabugo é a cachaça feita em pequenos sítios da região. Não tem marca ou qualquer outra coisa que

possa identificá-la pelo nome. Comumente é colocada em garrafas de cerveja e para tampar é utilizado um sabugo de milho, como uma rolha. O teor alcoólico deste tipo de bebida é desconhecido, mas só pelo cheiro que exala da garrafa já se pode deduzir que é uma bebida deveras forte.

policiais lhe perguntaram então o que fazer, quando se assustaram ao ouvir Gilberto dizer: “Pode levar, ele não roubou? Não tava metido com negócio de droga? Pode levar”. O filho pediu para que não fizesse aquilo, mas Gilberto não lhe deu ouvidos. Quando a polícia saiu dali ele disse ter sentido seu coração partindo de um jeito que pensou que iria morrer. “E você veja os mistérios da vida como são: eu tirei um monte de gente da marginalidade e não consegui tirar um filho meu. Dói né cara?”70

Gilberto pede um tempo, sai com uma canequinha de plástico vai ao bebedouro, bebe água, olha pra cima e suspira fundo. Disfarço, fingindo que não vi. Volta e continua a conversa como se não tivesse dito nada do que acabara de dizer. Retoma o tema do ensino e afirma querer ensinar como apreendeu com Edval Pereira Rosa, que, segundo Gilberto, é um dos dez melhores do mundo. E garante que afirma isso não por Edval ser irmão de sua mãe, mas porque ele é mesmo um dos melhores. A tipologia do mestre e do pupilo é a mesma, mas pelas palavras do aprendiz: “Tem uma pequena diferença entre eu ele, as peças que ele faz só não falam porque é de madeira. Eu não paro de olhar e não sei se vou chegar um dia a uma perfeição daquela”.

Mas, antes de aprender sua arte, Gilberto trabalhou nas feiras livres. Aos sete anos de idade ia vender feijão e arroz para ajudar seu avô, que produzia na roça e levava o feijão para a feira do Crato, na segunda-feira, e para a de Juazeiro do Norte, no sábado. Vendia e ganhava cinco quilos de cada, levava para a casa dos avós por quem era criado. Seu avô vendia ervas e com o que ganhava arrumava um toucinho e assim tinham garantido o alimento da semana. Também trabalhou consertando carburadores de carro no início de sua carreira, mas por pouco tempo. Após isso, passou a se dedicar integralmente ao que ele considera um trabalho dos mais pesados que já fez: a arte, que como afirma:

Isso aqui é um gasto mental muito grande, eu considero uma doença, à noite quando você vai dormir, que você vai fechando os olhos, você todos os cortes que você vai dar no outro dia, você vê o trabalho perfeito. Só que a mente não chega a compactar o trabalho, precisa ainda das mãos, do movimento, você tem que ter as mãos de veado pra trabalhar com escultura, se der uma talhada mais forte arranca a cabeça, você trabalha como se fosse um cabeleireiro, como bailarina.

Quando inquirido se acreditava ser um dom ou aprendizado o fazer artístico, disse que acreditava ser possível a pessoa aprender, mas para chegar à perfeição é preciso ter um dom. É nesse momento em que cita um exemplo de que só o aprendizado não leva a uma boa obra.

70 Quando fala em tirar pessoas da marginalidade, Gilberto refere-se ao trabalho que fez com jovens em áreas de

risco de Juazeiro do Norte. Dessa sua iniciativa conseguiu influenciar Zumbin e seu irmão Raimundo a trabalharem com arte. Do seu filho, que tem envolvimento com o crack, Gilberto só tem notícias esporádicas.

Narra, então, que houve um tempo em que trabalhou para um sujeito que tinha uma loja em Salvador: “O cara tinha feito escola de belas artes e lhe encomendava peças para vender como se fossem dele”. Nessa prática Gilberto disse que ganhou muito dinheiro, pois sabia que o valor cobrado pelo dono do atelier era altíssimo e portanto ele também cobrava um valor alto. Como exemplo, cita que num trabalho de 15 centímetros cobrava cem reais – para que se tenha uma ideia do que Gilberto está falando, atualmente uma peça sua de 30 centímetros custa o mesmo valor. Chama ainda a atenção para uma prática de valorização de sua produção, pois afirma que fazia uma peça dessas em uma noite, mas pedia um prazo de entrega de dois dias, uma forma de valorização temporal.

Gilberto conta ainda outra prática pouco comum com que já trabalhou, copista. Ainda em Salvador, afirma ter feito cópias de peças antigas que as pessoas deixavam para ser restauradas em uma renomada oficina de restauração da cidade. O dono lhe encomendava uma réplica da imagem, esta é que seria devolvida para o cliente final que havia contratado o restauro e o restaurador ficava com a peça antiga e valorizada no mercado.

Essas vivências alimentam a ideia em Gilberto de que em Salvador era tratado como artista de fato e em Juazeiro do Norte, por suas palavras: “[...] é uma folha solta ao vento, pra onde o vento dá eu sou levado”. É ao falar da época de Salvador que se percebe uma certa educação artística em Gilberto, pelos exemplos dos lugares que visitou na capital baiana, fala de sua influência Barroca e Rococó, das igrejas com obras desses períodos, dos artistas citados.

É dessa época que tira as influências de seu talho, pois com a temática religiosa já trabalhava antes de ir para Salvador e ainda hoje se ocupa fazendo santas e alguns santos, imagens de anjos. Esta última, atualmente, é uma das obras com que mais prende a atenção, ou seja, a que tem desenvolvido e aprimorado sua técnica, especificamente a figura dos arcanjos Miguel, Rafael e Gabriel com o demônio debaixo dos pés e com a espada em punho. Para Gilberto, é uma peça leve, mais complexa e ideal para representar a evolução na sua arte. Essa evolução na produção artística, segundo ele, é necessária, pois, como definiu, é como “andar de bicicleta, se parar cai, tem continuar pedalando... assim é esse trabalho tem que pegar os trabalhos mais complicados”.

Todavia, seja qual for a imagem citada acima, santas, nossas senhoras ou anjos, são sempre rechonchudos e com a as vestimentas como se movimentassem com o vento, típicas do Barroco e do Rococó, que tanto admira. Mas uma surpresa surge: apesar de a temática sempre ser ligada à religião, Gilberto se diz ateu, mas acredita em Deus. Sem entender, pergunto como poderia ser isso, e ele explica que seu ateísmo é porque não crê nas religiões,

como é o caso da Igreja Católica, dos Protestantes, entre outras. Para Gilberto, são apenas grupos buscando o poder, que distorcem as palavras de Jesus, até a Bíblia em sua concepção é objeto de dúvida, já que “foram eles quem escreveram aquilo tudo e dizem o que é certo ou é errado, como é que eu vou confiar?”. Mas como poderia um ateu faz imagens de santos com tanto zelo? Respondeu antes que perguntasse dizendo: “Essas daqui vão vender sempre e não vendem só aqui, o tema dos santos tem em todo canto e faz muito tempo.” A visão de Gilberto acompanha a ideia de um comércio da fé que existe em algumas áreas de Juazeiro do Norte. Um comércio da fé mais caro que o comumente feito na cidade e talvez por isso se sinta mais valorizado em Salvador, onde consegue vender bem sua obra.

Quando indagado sobre o artesanato, acredita que a palavra não se aplica mais aos membros do CCMN, pois, tanto os membros do Centro como ele, são escultores, como um produtor mais bem remunerado e considerado que o artesão como um artista. Para ele, independente do tipo de escultor, que divide em duas categorias, “o primitivista que ninguém, nem mesmo ele sabe o que fez e o acadêmico que trabalha com motivos, temas que você reconhece”, como é o caso dos santos que ele próprio faz. Para ele, o artesão é o que está em cima do muro, não consegue se posicionar enquanto escultor e, por isso, seu trabalho não é valorizado.

Gilberto, assim como muitos outros membros do CCMN, olha com reticências a sua transformação em Ponto de Cultura. Ele crê que a importância do CCMN é principalmente para os adolescentes, mas que ao colocarem computadores para o acesso à internet, as pessoas não vão mais para ver a produção, mas por causa da internet, para ver as coisas que não prestam, porque não tem ninguém perto deles para acompanhar na hora em que estão no computador.

Mas ele ainda vê uma saída para arte de Juazeiro do Norte, que estaria na propagação para as gerações futuras da arte e do artesanato local. Na aproximação desses adolescentes que com a arte, fazendo, produzindo, pois, assim, aprenderiam a gostar: “Isso aqui você só toma gosto... nos primeiros cortes os seus dedos doem, mas quando você vê uma peça dessas prontas dá vontade de você rir sozinho. Você se embeleza com o que você fez”.

A ideia de Gilberto é que a contemplação do ser humano está no tato, nas mãos, por isso as pessoas querem tocar as peças e esse ponto, pegar, “bulir”, produzir, seria o grande chamariz para estimular as crianças e adolescentes a terem uma melhor relação com o trabalho artesanal e artístico produzido no CCMN.

In document BTH 95031 (sider 16-22)