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Conforme mencionado anteriormente, o Projeto Político Pedagógico descreve, entre outras características, decisões relacionadas ao currículo, condições reais e objetivas do trabalho e, ainda, administração do tempo para o desenvolvimento dessas ações. Portanto, as características presentes no documento definem a identidade do curso.

Dessa forma, para caracterizar os cursos de LQ das IES públicas da Região Norte do país, e assim, compor o tema Identidade do Curso, foram averiguados nos PPPs, os seguintes itens: objetivos, carga horária total, tempo de integralização, horário de funcionamento, estrutura do curso e avaliação.

O QUADRO 4.3 destaca as características gerais dos doze cursos participantes deste estudo. Em relação à carga horária total, os doze cursos atendem à Resolução CNE/CP no 2/2002. Pode-se verificar que os cursos funcionam em diferentes horários, e também contemplam a classe trabalhadora, pois quatro dos dozes cursos são noturnos, e ainda, dois informaram que em um determinado ano, o seu vestibular foi para o período noturno. A maioria dos cursos de Licenciatura em Química, pertencentes às IES públicas da Região Norte, integraliza suas cargas horárias em oito semestres. Apenas o curso I (noturno) integraliza sua carga horária em dez semestres.

É importante destacar que alguns estudos (VIANNA et al., 1997; FALJONI-ALARIO et al.,1998; ZUCCO et al., 1999) têm apontado para a necessidade de reavaliações desses aspectos gerais, em decorrência de fatores negativos que possam contribuir para o baixo rendimento do licenciando, como a desmotivação, a dilatação do tempo de integralização e os altos índices de evasão. Vianna et al. (1997, p.5), por exemplo, ao realizarem um estudo com um curso de LQ noturno de uma IES pública, observaram que:

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[...] uma nova postura em relação a Licenciatura noturna passa pela revisão do período de integralização do curso. Sugerimos um tempo de integralização mínimo de 6 anos como forma de evitar a sobrecarga de disciplinas.

[...] o tempo médio de integralização da Licenciatura em Química é de 5,3 anos. Entretanto, na situação atual, o aluno carrega o ônus das reprovações. Precisa-se, portanto, de uma estrutura curricular flexível e sem tantas disciplinas pré-requisitos para possibilitar que o aluno com maior potencial para concluir o curso em menor tempo. A dilatação do período de integralização do curso aliada a resolução dos problemas administrativos apontados, oportunizará maior tempo para o estudo, para consultas à biblioteca e realização de trabalhos de pesquisa e extensão, atividades que o aluno trabalhador de curso noturno não tem acesso no sistema atual.

Portanto, a realização de estudos para avaliar esses aspectos nos cursos é importante. Como pode ser observado no QUADRO 4.3, alguns cursos apresentam altas cargas horárias e tempos reduzidos para integralizá-las, principalmente, quando o curso é no período noturno, em que a duração das aulas é menor, se comparada com o período diurno. É preciso oportunizar aos alunos um melhor amadurecimento profissional, por meio de maior convívio com a prática educativa.

QUADRO 4.3 – Características gerais dos cursos de Licenciatura em Química da Região Norte do país

Cursos Período (semestres) Duração Horária (h) Carga

A Matutino 8 3.620 B Diurno 8 2.880 C Mat/Vesp/Not 8 3.170 D Noturno 8 3.200 E Noturno 6 3.140 F Diurno 8 3.268 G Matutino 8 3.464 H Diurno 6 3.065 I Noturno 10 2.880 J Noturno 8 3.192 K Mat/Vesp/Not 8 3.170 L Matutino 8 3.500

Além dos aspectos gerais, supramencionados, foram construídas quatro categorias analíticas para auxiliar na caracterização da Identidade do Curso. Observou-se que as características presentes nos itens dos PPPs selecionados para realização da unitarização e, assim, constituírem as unidades de análise, estavam relacionadas à Via de Ingresso no Curso, aos Objetivos do Curso, à

Organização Curricular e à Avaliação.

Três cursos (B, G e I) informaram que a Via de Ingresso no Curso é própria. Assim, desde o momento em que ocorre o processo seletivo da Instituição,

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o estudante escolhe fazer o curso de Licenciatura em Química. Essa nova configuração tem sido apontada por vários estudos e nos documentos oficiais como uma maneira de aperfeiçoamento do modelo antigo – primeiro prestava o exame seletivo para o Curso de Química e depois escolhia a habilitação – visando à construção de uma identidade própria da licenciatura.

Na categoria denominada Objetivos do Curso, constatou-se, nos doze cursos, que a finalidade da proposta é formar o professor de Química para atuar

na Educação Básica. Além dessa, outras finalidades também foram expressas nos

PPPs de alguns cursos, como formação de recursos humanos. Isto foi observado para oito cursos (A, B, C, D, E, I, J, K).

Outra subcategoria construída foi o delineamento dos aspectos

identitários, visto que nos PPPs de todos os cursos, ao destacarem o objetivo de

suas propostas, expressavam alguma característica que julgam importante para o perfil do professor, por meio de objetivos específicos. Assim, a partir dos objetivos, teve início o delineamento do processo identitário desse profissional a ser formado. Nesta subcategoria, nove focos foram identificados e denominados como:

conhecimento do conteúdo; conhecimento pedagógico do conteúdo; conhecimento pedagógico; conhecimento curricular; formação política e contexto regional; trabalho coletivo; contextualização; investigação e interdisciplinaridade.

No Quadro 4.4 é possível verificar algumas unidades de análise que nos permitiram identificar os focos dos aspectos identitários encontrados. Como foi destacado, alguma característica relacionada ao conhecimento, à competência e/ou habilidade que o curso se propõe a desenvolver junto ao futuro profissional para que este possa desempenhar sua atividade de ensino, teve a denominação dos focos temáticos relacionada com os saberes e princípios formativos (SHULMAN, 1986 e1987; IMBERNÓN, 2009; VEIGA, 2004).

Constataram-se três focos temáticos que foram mais citados pelos cursos, ou seja, cujos aspectos foram os mais valorizados. Estes estão dispostos, a seguir, por ordem crescente de citações: formação política e compromisso com a

profissão; conhecimento pedagógico do conteúdo; investigação. Os focos temáticos trabalho coletivo e contextualização foram os menos citados pelos cursos.

Veiga (2004) destaca que a construção da identidade deve ser pautada em três dimensões: político-social, epistemológica e pedagógica. Assim, os focos temáticos observados na subcategoria delineamento dos aspectos identitários

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começam a apontar no caminho de uma formação de professores de Química que contempla características da identidade.

QUADRO 4.4 - Focos temáticos verificados para a subcategoria delineamento dos aspectos identitários relacionadas à categoria Objetivos do Curso

Cursos Focos Unidades de Análise

A, B, G, I, J Conhecimento do conteúdo

[...] quanto ao domínio dos conteúdos a serem socializados. A, B, C, D, E, G, I, J, K Conhecimento pedagógico do conteúdo

Articular a formação pedagógica com os diversos segmentos da ciência, superando a dicotomia teoria/prática Articular a formação pedagógica com os diversos segmentos da ciência, superando a dicotomia teoria/prática numa perspectiva construtivista.

B, E, F, G, I, J

Conhecimento pedagógico

[...] domínio do conhecimento pedagógico, incluindo novas linguagens e tecnologias, considerando os âmbitos do ensino e da gestão escolar de forma a promover a efetiva aprendizagem dos alunos.

B, G, I, J Conhecimento curricular

[...] escrevam e analisem criticamente livros didáticos e paradidáticos e indiquem bibliografia para o ensino de Química;

C, K Trabalho coletivo

Trabalhar de forma integrada com os professores da sua e de outras áreas, no sentido de conseguir contribuir efetivamente com a proposta pedagógica da sua escola A, B, C, D, E,

G, I, J, K, L

Formação política e compromisso com a

profissão

Ao comprometimento com os valores estéticos, políticos e éticos, inspiradores da sociedade democrática.

G, J Contextualização

Deve estar apto a repassar esta visão a seus alunos, ajudando-os a aprender e a usar a Química na vida cotidiana, e para estruturar seus pensamentos e raciocínios dedutivos;

B, C, E, F, G,

I, J, K Investigação

O curso de Licenciatura em Química da [nome da universidade] apresenta-se com um conjunto de atividades curriculares e complementares de modo a formar no aluno uma "atitude investigativa" em Química e em Educação.

A, G, J Interdisciplinaridade

[...] e também aqueles relacionados a uma compreensão mais ampla de questões culturais, sociais econômicas e da própria docência, levando em conta uma articulação interdisciplinar.

Oito dos doze cursos (B, C, F, G, I, J, K, L) de Licenciatura em Química da Região Norte do país destacam que suas organizações curriculares são estruturadas, considerando as competências e habilidades para formar o professor de Química. A Organização Curricular, terceira categoria elaborada para o tema

Identidade do Curso, foi construída tomando como base que a construção de uma

proposta de um currículo para formação de professores deve superar a visão de um currículo em estruturas de coleção, e assim, conforme apontam as normas oficias, sustentada pelo desenvolvimento de competências e habilidades (BRASIL, 2001a; DIAS e LOPES, 2003; VEIGA, 2004). Nesta perspectiva, foram verificados nos textos dos PPP aspectos identitários, relacionados à organização curricular.

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Outra característica apontada nos documentos oficiais dos cursos é que suas organizações curriculares buscam a integração de disciplinas por meio de eixos e/ou núcleos integradores. Desta forma, elaborou-se a subcategoria

integração curricular, agrupando-se unidades de análise de nove cursos de LQ (B,

C, D, E, F, G, I, J, K) que destacam que seus currículos, entre outros aspectos, visam: integrar ensino, pesquisa e extensão com a finalidade de superar a dicotomia entre teoria e prática; à prática pedagógica como um eixo articulador entre as várias disciplinas; à interdisciplinaridade como um princípio integrador da organização curricular; superar a compartimentalização dos conhecimentos, entre outras.

Veiga (2004) destaca que numa organização curricular flexível deve ser considerada a quais finalidades educativas a integração curricular está sendo submetida, pois, simplesmente, apontar que o currículo é integrado não significa que apresente características de uma perspectiva emancipatória e interdisciplinar. Assim, são princípios norteadores de uma organização curricular integrada indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, interdisciplinaridade, contextualização e flexibilidade. De acordo com os discursos presentes nos PPPs, suas propostas visam contemplar os princípios mencionados. No entanto, há de se observar quais atividades relacionadas às práticas educativas contemplam a

integração curricular na perspectiva dos princípios acima mencionados.

Finalmente, a Avaliação corresponde à última categoria neste tema. Conforme pode ser verificado no QUADRO 4.1, da seção anterior, dez cursos de LQ (A, B, C, D, F, G, H, J, K, L) abordaram a categoria Avaliação, em que foi possível observar duas perspectivas: aprendizagem e institucional.

Em relação à subcategoria aprendizagem, algumas visões foram bastante frequentes: consiste em ser o processo de acompanhamento do aluno em seu aprendizado; mede o rendimento do estudante em uma disciplina, que configura por meio do aproveitamento de estudos e da frequência, explicitando como seria o cálculo desse rendimento escolar em cada disciplina; as atividades consideradas avaliativas compreendem seminários, trabalhos práticos, provas e exames.

A segunda subcategoria, denominada institucional, foi verificada para nove dos doze cursos participantes da pesquisa (A, C, D, F, G, H, J, K, L). Estes cursos destacaram que, além da avaliação da aprendizagem, suas propostas assumem o compromisso de uma avaliação bem mais ampla, que envolve o curso, o projeto pedagógico e os docentes. O procedimento visa identificar problemas,

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colocá-los em discussão no Colegiado do Curso e, assim, buscar soluções com a finalidade da melhoria da qualidade do curso.

As compreensões acerca da avaliação presentes nos PPPs se mesclam numa perspectiva tradicional e na busca de superação desta, em relação à aprendizagem. Cumpre destacar que as mudanças no processo avaliativo, por meio da superação das formas tradicional de avaliação, deve ser um compromisso da Instituição formadora; assim, o professor formador exerce um papel fundamental nessa mudança, pois vivencia o processo educativo junto ao futuro professor. Além disso, o processo avaliativo é um aspecto integrante da prática educativa e contribui na construção da identidade do curso.

De acordo com Parecer CNE/CP no 9/2001, a avaliação no processo formativo do professor, deve ir além da averiguação da aprendizagem de conteúdos factuais, pois a formação tem como base as competências e habilidades a serem desenvolvidas, portanto,

[...] a avaliação destina-se à análise da aprendizagem dos futuros professores, de modo a favorecer seu percurso e regular as ações de sua formação e tem, também, a finalidade de certificar sua formação profissional. Não se presta a punir os que não alcançam o que se pretende, mas a ajudar cada aluno a identificar melhor as suas necessidades de formação e empreender o esforço necessário para realizar sua parcela de investimento no próprio desenvolvimento profissional (BRASIL, 2001a, p.33- 34).

Assim, a avaliação institucional caminha, também, no sentido da compreensão e análise, voltadas para a melhoria da qualidade do curso. Outra vez este é um importante compromisso, devendo ser assumido pelo formador (VEIGA, (2004).

Por fim, as categorias construídas, Via de Ingresso no Curso,

Objetivos do Curso, Organização Curricular e Avaliação, possuem elementos

caracterizadores da Identidade do Curso. As concepções subjacentes a essas características devem estar claras e devem ser discutidas no âmbito dos cursos de formação, para que não existam dúvidas tanto no processo de (re)construção da identidade do curso, quanto na constituição do perfil do profissional a ser formado.

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