• No results found

Foi também identificado o processo de despessoalização (OSTERMANN; FREZZA, 2017) do risco. Ao longo de toda a interação (menos ao que se refere ao risco existente) foi identificada a forma inclusiva (KUSHIDA; YAMAKAWA, 2015) a gente/nós em diferentes situações, como se pode perceber nos extratos da interação:

EXCERTO 12 - HMF_ACONGEN_dara_JEFERSON_04_02_14 (repetição de trechos)

1211 MED: .hh da ↑minha parte da gené:tica, 1212 (.) .h seria, (0.5) importante a gente 1213 in↑dicá a realizaçã:o, (.) .h de

1214 um exa:me que é da gené:tica daí:.

1223 MED: .hhhh (.) existe um exame que a gente 1224 pode avaliá:: (.) a parte da genética

1225 do bebê °↓tá°.

1226 (.)

1227 MED: .h que é um exame que a gente faz <uma

1228 punção>

1230 MED: .h usualmente a gente faz pra: retirá 1231 uma pequena quantidade de líquido 1232 mas como no teu caso: o bebê ↑não te:m 1233 (.) quase líquido é muito pouco: (.)

1234 .h a gente tem como fazê essa punção do cordão

1235 (.) umbilical

1242 MED: .h então isso a gente teria que ↑ver 1243 .h (1.3) ã no sentido a gente in↑dica: 1244 pra enten↑dê melhor o que o bebê te:m, 1245 (.) porque- isso pode ter repercussões 1246 ↑não só pra gravidez atual, .h como 1247 também °pro futuro tá:°

1253 MED: .h então a gente in↑dica a realização desse

1254 exame,

1273 MED: .h então a gente in↑dica esse exame no 1274 sentido °pra gente° enten↑dê melho:r 1275 (.) .h até- tentá justificá o que que 1276 tá acontecendo com o bebê,

1294 MED: [não s-] não tem descrito mas u- 1295 uma coisa que a gente tem que ter

1296 me:nte tá: >°como ↑tem°< falta de lí:quido, 1297 .h isso dificulta muito a visualização do

1298 bebê

1315 MED: isso a gente pode ve:r (.) pra já 1316 tentá programá pra tentá avaliá

1317 também tá:

1326 MED: é uma ressonância que a gente vê o

1327 bebê daí

1328 (0.5)

1329 MED: então tem como: .h tem outros exames 1330 °que° que ajudam a avaliá melho:r, .h 1331 o que tá acontecendo com o bebê: .h 1332 e pra sabê se é SÓ realmente o problema 1333 nos rins, .h ou tem alguma outra coisa 1334 a mais que a gente não tá vendo °tá:°.

1346 MED: na verdade ↓é: a gente não tem muito como 1347 avaiá: isso, .h né: .h isso a gente

1348 não sabe °muito bem° ao ce:rto né

1373 MED: [nã:o na verdade ] é:: é que isso 1374 a gente não- é difícil de tu::: (.) .h 1375 tu:: mensurá: né: .h porque:: (.) 1376 é a gente não ↑tem >muitas vez< como 1377 ver indiretamente no bebê .h ele 1378 não tem nenhum sintoma por exemplo: 1379 ↑a: frequência cardíaca- é que às 1380 vezes quando a gente tem do:r .h a 1381 frequência cardíaca do bebÊ aume:nta,

1382 e tudo:

1394 MED: mas pelo parâmetro que a gente tem, 1395 .h ã:: o- a dificuldade que existe é que 1396 ele tá se desenvolvendo ↑só: (.)

1397 comprimi:do

1414 MED: .hh até:: .h a gente teria como:: 1415 (.) ↓ã: >como eu falei< a gente indi:ca 1416 no sentido pra tentá entendê melho:r 1417 .h o que que tá aconte↑cendo né, 1418 .h e a gente teria como marcá °até° 1419 pra fazê o °e↑xame a↑qui°

1420 (.)

1421 MED: .hh ele seria importante nesse sentido 1422 a gente entendê o que que tá acontece:ndo, 1423 e ve:r até pra gestações futu:ras,

1424 (.) .h e até pra outras pessoas 1425 da família se for o ca:so se havê 1426 necessidade, .h de fazê também a

1427 avaliação °tá:°.

1434 MED: usualmente quem o que a gente fa:z é o 1435 primeiro exame que a gente faz na ta:rde, 1436 (.) naquele di:a, .h e a ideia é

1437 >na verdade< fa↑zê (.) tu ficaria em

1438 (.) tipo em observação por algumas horas, 1439 .h e no final do di:a a gente .h se

1440 tivé tudo bem a gente- .h (.) ã: libera

1441 pra ir pra casa.

Em interações em contextos institucionais, falantes utilizam o referente a gente/nós de forma a distinguir uma identidade institucional em relação a identidades pessoais, vinculando-se, assim, a identidades que representam uma organização. (DREW; HERITAGE, 1992). A seleção do uso de a gente/nós (em vez de eu) em interações médico/a-paciente pode ser uma estratégia do/a médico/a para evitar dizer, por exemplo, “quando eu estiver errado”, o que levantaria a possibilidade de ser o/a responsável pessoal por um erro médico. (MAYNARD, 1984; SILVERMANN, 1997).

A partir de uma análise da estrutura linguística, sujeito + predicado, é possível identificar duas categorias situadas de uso da forma inclusiva a gente/nós nos dados analisados, conforme Tabela 4.

Tabela 4 - Forma inclusiva a gente Pseudo inclusivos: possivelmente

referindo-se à equipe médica

Inclusivo futuro: inclui a gestante

a gente indica a gente tem que ter em mente (ela pode passar a ter em mente que se o/a bebê nascer morto/a, não será

possível realizar o exame) a gente faz ou tem que fazer

(e.g. a punção)

a gente entende o que está acontecendo com o/a bebê (através do médico, ela pode vir a

a gente vê o/a bebê (no exame de ressonância)

a gente planejou (a data do parto) a gente (não) tem como avaliar

a gente não está vendo (se o problema é apenas nos rins) a gente libera para ir para casa

Fonte: Elaborada pela autora.

Percebe-se, nos extratos acima, que a forma inclusiva a gente/nós como um pseudo inclusivo, representa a organização (hospital) e que a agentividade acerca desta categoria vem ao encontro do estudo de Drew e Heritage (1992). Ou seja, o uso de a gente/nós vincula-se a uma identidade que representa, neste caso, a equipe médica, o que está diretamente ligada ao seu domínio epistêmico. Entretanto, a utilização de a gente/nós como inclusivo futuro, inclui a gestante como membra. Desta forma, o profissional envolve a gestante como participante do processo e divide com ela a agentividade das decisões tomadas / a serem tomadas.

Imediatamente após os turnos em que é tratado o risco, ocorre sua despessoalização, i.e., o afastamento do sujeito (no caso, sujeito humano) que poderia ocasionar esse risco (no blame). Essa despessoalização do risco inicia ao explicar o procedimento, já que o risco existe durante a execução do procedimento.

EXCERTO 13 - HMF_ACONGEN_dara_JEFERSON_04_02_14 (repetição de trechos)

1448 MED: então o que que acontece, uma punção 1449 .h é: é: (.) >tipo< entra uma

1450 agu:↑lha né: .h que: na verdade é 1451 puncionado o cordão ali aonde

1452 tá o bebê

1460 MED: .h que quando a agulha- (.) a:- atravessa 1461 principalmente a bolsa, que tá

1462 em volta do bebê:, .h ↑pode

1463 <eventualmente> o organismo da mãe 1464 entendê que: tipo ↑não ã:: (.) .h tipo 1465 rompeu a bolsa: (0.4) e entrá

1466 em trabalho de parto.

A despessoalização do risco ocorre através do afastamento dos sujeitos envolvidos na realização dos procedimentos. Sendo assim, nos exemplos acima,

“entra uma agulha”, “a agulha atravessa a bolsa”, não há nenhuma relação com ações humanas. Por fim, “o organismo da mãe entra em trabalho de parto” despessoalizando o risco novamente, já que é o organismo e não a mãe que entra em trabalho de parto. A apresentação do risco de forma despessoalizada resulta em uma desresponsabilização das pessoas envolvidas e, consequentemente, transfere a responsabilidade do risco para o próprio procedimento, num processo de antropoformização. Dessa forma, retira-se a agentividade das gestantes e dos/as profissionais, deslocando-as para: (a) outras instituições, (b) para a agulha, (c) para o próprio corpo da gestante (que entende que está na hora do parto). Ou seja, a despessoalização, de certa forma, como vimos nos dados analisados, ameniza a autoridade deôntica resistida, visto que transfere a responsabilidade do risco para o procedimento e/ou para outras instituições com o afastamento dos sujeitos envolvidos (no caso, médico e paciente).