A partir das entrevistas realizadas com diferenciados atores, identificaram- se várias visões e opiniões sobre a positividade ou a negatividade do conflito.
A Entrevistada L, atingida da comunidade Água Quente Passa Sete, quando perguntada sobre como enxerga o conflito, se de forma positiva ou negativa, destacou que:
Eu sou uma pessoa que, pela minha essência, [...] eu detesto conflito. Sempre detestei conflito, sabe, entre pessoas, sempre eu fui meio assim, pra apaziguar, sabe? Eu sou aquela assim... “Num faz isso não, vamos contemporizar”. Mas hoje eu te falo que o conflito, ele é necessário. É a
partir do conflito que se resolvem as coisas, entendeu? O caos... A hora que se chega no caos, a gente pode evoluir. Em muitas coisas, infelizmente
– ou felizmente, não sei. O conflito, ele é muito útil. Ele é muito útil. [...]
Sabe aquela escadinha que você tem que subir? Às vezes se não for no solavanco, e o solavanco é o conflito, é o caos. Então ele é muito útil, ele é
muito necessário pro crescimento, pra resolução, pra tudo isso. [...] Isso é uma outra coisa que eu aprendi nesse processo. (ENTREVISTADA L, informação verbal, grifo nosso)
A Entrevistada L, portanto, entende que o conflito é necessário; que a partir dele é possível enxergar um crescimento, uma evolução.
O Entrevistado J, atingido da comunidade Água Quente Passa Sete, enxerga os conflitos atualmente existentes na região de forma muito negativa:
Entrevistadora: E como que você avalia o conflito? De uma forma positiva ou negativa?
Uai, eu avalio de uma forma bastante negativa né. Porque, em pleno século XXI, sabe? Se a gente começar a relatar, [...] e contar os casos que acontecem, e como que acontecem, parece coisa de ficção, você entendeu. Então, o ser humano chegar em um estágio desse, de evolução, e está arraigado nesse tipo de conflito, nesse tipo de enganação, você entendeu, isso aí, pra mim, é.. sabe, é o fim. [...] (ENTREVISTADA J, informação verbal)
O entrevistado enxerga como negativos os tipos de conflitos que ocorrem hoje na cidade, muitas vezes decorrentes do modo de agir do empreendedor.
A Entrevistada G, atingida da comunidade Água Quente Passa Sete, quando perguntada sobre como avalia o conflito, reforça que:
[...] eu acho que se não tivesse, no caso de Conceição, não tivesse tido conflito nenhum eu acho que tava pior do que tá, entendeu? Eu acho que se todo mundo estivesse batendo palma em Conceição para o empreendimento, o nível de avassalamento, o nível de dependência, de servidão, de subserviência, de tudo seria muito maior. [...] A resistência e o conflito que
se teve em Conceição, serviu inclusive para trazer à discussão outras coisas, então, é tão bom, que nem é só estático os efeitos desse conflito, entendeu? Ele, pra mim, é ondular, assim... É tão bom que não fica só no
local. Eu só não gosto de fazer do conflito de Conceição uma moeda de troca, como muitos secretários aí do meio ambiente, ou promotores, falavam assim: "Não vou deixar acontecer em Conceição..." Como se fosse, Conceição, um caso perdido. Entendeu? Então, o conflito, negociado desse jeito, isso aí eu não acho positivo, usar o conflito dessa forma. (ENTREVISTADA G, informação verbal, grifo nosso)
A entrevistada avalia de forma positiva o conflito em Conceição do Mato Dentro que serviu inclusive para trazer à tona a discussão sobre o que estava acontecendo na cidade. Por outro lado, reforça que não entende como positivo a forma como muitas instituições encaram o conflito, entendendo-o como uma moeda de troca, que pode ser negociada.
Marcelo Mata Machado Leite Pereira, Promotor de Justiça da Comarca de Conceição do Mato Dentro, quando perguntado sobre se enxerga o conflito de forma positiva ou negativa, respondeu que:
Negativa, né? O conflito é um conflito complexo, cujas soluções são complexas também, e que só pactos, sociojurídicos (risos) – eu não gosto de usar esse termo – por parte da sociedade, com os poderes públicos, com a participação da própria empresa, poderiam dar uma solução mais efetiva, [...] alguns conflitos que vão se apaziguando, às vezes, pelo cansaço,
ou vão sendo incorporados, e vão deixando de ser conflitos, porque a pessoa fala “ah não, já é desse jeito mesmo e desanima, mas pra ter um revés assim positivo pro desenvolvimento sustentável precisa de um pacto muito grande, tem que ter uma coisa muito significativa. (MARCELO MATA MACHADO LEITE PEREIRA, informação verbal, grifo nosso)
Já Helder Magno da Silva, procurador da República, destaca que:
[...], todo e qualquer conflito ele pode ter aspectos negativos e aspectos positivos eu acho que o conflito assim como toda crise é que faz a
sociedade evoluir, agora a forma como você encara o conflito é que eu acho que ela pode ter aspectos negativos... [...] o conflito pode trazer crescimento, pode trazer rupturas, pode trazer mudanças, algumas positivas, outras negativas, agora é importante a gente ver qual o valor que
você tem que defender, o que precisa defender numa determinada situação de conflito [...] (HELDER MAGNO DA SILVA, informação verbal, grifo nosso)
Embora membros da mesma instituição, o Ministério Público, o primeiro estadual, o segundo federal, nota-se uma clara divergência de entendimentos acerca dos conflitos. O primeiro entrevistado enxerga o conflito de uma forma negativa, que só pode ser solucionado a partir de um pacto; ao passo que o segundo entrevistado entende que o conflito é importante para o crescimento da sociedade e que a forma como se encara o conflito é que pode ser negativa.
Gilvander Luis Moreira, ativista/militante dos direitos humanos e ambientais, frei carmelita, membro da Comissão Pastoral da Terra, destaca que:
Olha conflito, conflito pra quem pensa dentro de um paradigma conservador, [...] vê o conflito como algo negativo, mas o conflito em si ele não é nem
negativo, nem positivo, o conflito é a erupção de um caso concreto onde tem posturas diferentes [...] Então o conflito ele suscita, o conflito
irrompido é ele pode desaguar em uma superação positiva ou pode desaguar para uma consumação da violência né, no caso lá, por exemplo, até agora alçou-se o conflito e nem os poderes públicos né, é governo do estado, secretaria do meio ambiente, tudo os poderes públicos, nem o poder judiciário, não ouviram os clamores do povo, então transformaram o conflito em violência. Então o conflito em si não é negativo, o que é que se torna
negativo é quando o conflito mal superado ele desencadeia um processo de violência, é o que vem acontecendo lá né, agora o conflito em parte ele virou violência, em parte ele tá instaurado ai se a luta popular crescer muito, eu tenho esperança que possa estancar esse processo de violência e retomar pelo menos salvando parte do ecossistema que tá sendo afetado lá né. (GILVANDER LUIS MOREIRA, informação verbal, grifo
nosso)
O entrevistado destaca que o que torna o conflito negativo é sua falta de superação e, quando isso ocorre, pode desencadear uma situação de violência. Como exemplo, cita o caso em que os poderes públicos não escutam os clamores populares.
Gustavo Gazinelli, ativista/militante dos direitos humanos e ambientais, menciona que:
[...] Acho que o conflito é positivo. Se há injustiça, e não há conflito... [...] É você dizer que existe um sistema de dominação de tal ordem que as pessoas são obrigadas a suportar a injustiça. Se há conflito é porque tem um grupo
de pessoas que não estão concordando com o que está acontecendo. Então, eu acho que o conflito é muito bom, é muito positivo. (GUSTAVO
GAZINELLI, informação verbal, grifo nosso)
O entrevistado enxerga o conflito de forma positiva e que ele se manifesta em uma situação de injustiça, de modo que, se há injustiça, há conflitos.
Observa-se que, embora haja entendimentos que observam o conflito de uma perspectiva negativa, a maioria dos entrevistados consegue enxergar alguma positividade na existência no conflito, que ele é necessário para colocar em evidência uma situação de injustiça, de violação, sendo que, a depender da forma como for encarado, ele pode significar ruptura, ser importante para o crescimento da sociedade e, assim, para a possibilidade de uma nova construção social.
Ainda, sobre a discussão dos conflitos, é preciso caracterizar alguns dos conflitos atualmente existentes na região. Sobre os quais se passará a dissertar a seguir.