Por desenvolvimento local entende-se “uma forma particular de desenvolvimento regional, na qual fatores endógenos ocupam uma posição central” (COFFEY; POLÈSE, 1984, p. 1). Diante dessa definição percebe-se uma tênue relação entre os termos local e regional, onde “local” adota a função de item específico do termo geral “regional”. Entretanto, é mais comum encontrar na literatura da área o uso indiscriminado dos termos como se fossem sinônimos. De fato, há uma relação semântica muito estreita entre os dois, podendo-se assumir sem perda de sentidos que o local está no âmbito do regional, mas possui foco reduzido. Dessa forma, poder-se-á atribuir os mesmos preceitos que elencam o conceito de desenvolvimento regional à sua variante local, uma vez que esse é seu termo específico. A relação de sinonímia entre os termos pode ocorrer desde que seja respeitada a noção de sua hierarquização conceitual.
O conceito de desenvolvimento foi mantido ao longo de quase todo o período capitalista da história apoiado sobre premissas meramente econômicas, ganhando uma nova gama de sentidos a partir dos trabalhos de Amartya Sen, que deu os primeiros passos na consolidação de um índice de avaliação do nível de desenvolvimento de uma região ou país com base em indicadores sociais e humanos, o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). Até então, as tentativas de mensurar o desenvolvimento de uma região estavam meramente baseadas em indicadores puramente econômicos ou sociais não integrados, ou seja, que não estabeleciam relações entre si. O IDH é uma forma, apesar de muitas vezes criticadas, de integração entre fatores relacionados ao nível de renda per capita de uma região com seu desenvolvimento educacional e expectativa de vida das pessoas (SEN, 1989).
A ideia de um desenvolvimento integrado e equilibrado entre as diversas dimensões da vida em sociedade corresponde em suma ao conceito de desenvolvimento sistêmico. Segundo Martinelli e Joyal (2004), o tipo de desenvolvimento delimitado sob a ótica sistêmica é aquele que articula a melhoria de vida das pessoas envolvidas nos processos produtivos e dos indivíduos direta ou indiretamente conectados ao contexto de suas atividades, seja no âmbito social, econômico, educacional ou ambiental. As instituições que optam pelo desenvolvimento sistêmico acabam, enfim, por desempenhar atividades que se alinhem à busca pela melhoria de vida dos envolvidos com seu ambiente em todos os níveis. Pode-se dizer que, pela definição de Martinelli e Joyal (2004), o desenvolvimento sistêmico nada mais é do que o conceito original de desenvolvimento sustentável.
O termo sustentabilidade tem sido utilizado indiscriminadamente para se referir ao quesito ambiental do modelo de desenvolvimento sustentável. Na verdade, o termo sistêmico também está permeado pela noção de sustentabilidade. Há sobre o desenvolvimento sistêmico a premissa da constituição de um padrão de continuidade do modelo produtivo ao longo do tempo, que se sustente no decorrer da dinâmica produtiva. Não há como dissociar da noção de sustentabilidade alguns fatores que transcendem a mera observação do ambiental, como a esfera política, socioeconômica e educacional. Em suma, apoiar a noção de sustentabilidade apenas sobre as limitações semânticas da gestão do meio ambiente é incorrer no erro do reducionismo conceitual, fadando-se ao resultado da insustentabilidade. Por conta da errônea utilização do termo sustentabilidade, principalmente no senso comum, alguns teóricos das disciplinas sistêmicas têm se utilizado do termo “desenvolvimento sistêmico” como arcabouço dos sentidos de desenvolvimento sustentável. Mas como ocorre com outras apropriações de sentido, o termo sistêmico tornou-se mais amplo na literatura do que o termo sustentável.
Como já observado anteriormente, “a noção de desenvolvimento sistêmico sugere a ideia de componentes discretos de um sistema começando a trabalharem juntos como um todo refinado” (GIANCOLA; HUTCHISON, 2005,p. 63). A sinergia é um conceito do desenvolvimento sistêmico que não fica muito clara nos conceitos usuais de desenvolvimento sustentável. Essa sinergia prevê algum nível de ponderação na participação de cada uma das dimensões constituintes, o que no âmbito organizacional denota a existência de uma cultura que privilegie o estabelecimento de relações entre as diferentes partes institucionais e a integração do quadro humano. A evolução deve ocorrer de forma equilibrada e benéfica para todos os envolvidos nos processos produtivos. Os conceitos de evolução e desenvolvimento mostram-se inter-relacionados no âmbito do pensamento sistêmico.
Segundo Honadle (1999), “a capacidade de adaptação requer capacidade de pesquisa e monitoramento. O desenvolvimento sistêmico será intensivo em informação e envolverá a criação de novos mecanismos de mensuração dos sucessos” (HONADLE, 1999, p. 23). O desenvolvimento sistêmico está apoiado sobre a ideia de melhoria contínua e intenso controle do equilíbrio interno, e para tal necessita desempenhar processos criativos que incluam a reinvenção de mecanismos reguladores e a intensa utilização de recursos de inteligência ambiental. Essa preocupação remonta à necessidade de flexibilidade estrutural para que seja possível um contínuo processo de adaptação aos estímulos do ambiente. O alinhamento entre estrutura sistêmica e os padrões instituídos socialmente pelo ambiente faz com que haja a possibilidade de reprodução do modelo produtivo frente à sua adaptação ao contexto externo.
Entretanto, o conceito geral de desenvolvimento teve mais aderência, até meados dos anos 1990, ao conceito de desenvolvimento econômico. As correntes de transformação do conceito, movidas pela reverberação dos trabalhos de Amartya Sen, acabaram por consolidar uma visão mais integrativa e finalmente sistêmica no mainstream da produção acadêmica da área, confrontando com a noção anterior sobre os meandros do termo, confrontando com definições como a de Fernandes (1994), que descrevia o desenvolvimento como “diferenciação econômica, com base na modernização tecnológica do campo e da cidade, na industrialização, na elevação da capacidade de consumo per capita e do padrão de vida das massas” (FERNANDES, 1994, p. 174). Mais amplo do que o conceito anterior, o conceito de Sen (2000) diz que “o desenvolvimento consiste na eliminação de privações de liberdade que limitam as escolhas e as oportunidades das pessoas de exercer ponderadamente sua condição de agente” (SEN, 2000, p. 10). Esse conceito restringe a condição de desenvolvimento à evolução equilibrada de todos os fatores concernentes à vida em sociedade.
No âmbito da comunicação em prol do desenvolvimento sistêmico, a disseminação de informações deve ser reflexiva, ou seja, exaurir os sentidos do que é percebido no ambiente em busca de um sentido coletivo mais próximo do que é percebido individualmente (ARCHER, 2003). É necessária a observação da abrangência sobre os sentidos inseridos na instrumentalização do processo comunicacional por conta da busca pelo entendimento em sistemas interagentes em que seus atores possuem diferentes Weltanschauungen (visões de mundo) e necessitam operar de forma sinérgica. Para que haja desenvolvimento sistêmico, far-se-á necessário que haja também um modelo de comunicação sistêmica, que permita a integração das atividades em prol do desenvolvimento equilibrado de todas as dimensões incluídas nos âmbitos socioeconômico, cultural, educacional e ambiental, partes integrantes
de um mesmo sistema de relações. Significa observar e permitir a utilidade sistêmica da prática comunicacional (MIRANDA, 2005).
No estudo dos processos relacionados ao desenvolvimento regional ou seu termo específico local, é necessário observar que o homem é o agente direto de todo tipo de transformação incorrida na esfera socioeconômica. Por conta das transformações culturais desempenhadas pela própria ação humana, o indivíduo se torna, enquanto mínima parte autoconsciente do sistema, um agente transformador do mundo e da sociedade, em maior ou menor intensidade (FURTADO, 2000).