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Há muito que elucidar sobre esta relação educação-trabalho-tecnologia. É preciso pensar, por exemplo, como a tecnologia, no contexto da escola, poderá tornar mais criativo e autônomo o trabalho do professor ou de que modo ela vem provocando a intensificação e a desqualificação do trabalho.

Utilizando a pesquisa da CNTE, constatamos que é pequeno o acesso dos servidores da educação à tecnologia, ou seja, cerca de 48%(média nacional) dos docentes não têm acesso ao computador. Nos Estados do Paraná, de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul, esse índice é um pouco menor, chegando a 33%, índices menores que o nacional. Dos que possuem e acessam, a maioria o faz de sua casa e não do trabalho, como acontece em várias categorias, como bancários, por exemplo. Entre os pesquisados, o acesso ao computador no local de trabalho ainda é bem restrito. Em relação ao acesso à internet, a pesquisa da CNTE aponta que o percentual de quem não a utiliza é bem superior ao de quem usa o computador, dando a entender que muitos que o fazem não navegam pela internet, deixando de fora os professores da chamada cibercultura11. Observa-se que o acesso ao computador, e principalmente à internet, ainda é muito restrito. Ambos são ferramentas importantes para o trabalho do professor/pesquisador, visto que, sem eles, o preparo das atividades docentes, como exercícios e provas, podem ficar aquém do que exige o processo educativo. Mais uma vez, porém, voltamos a repetir que essa nova tecnologia, ao mesmo tempo que pode facilitar o trabalho docente, também pode provocar a intensificação e a precarização do trabalho.

Grande parte dos docentes está excluída da participação na comunidade virtual criada

10 Hackers – indivíduos que buscam invadir sistemas computacionais de empresas, governos ou indivíduos para

no final do último século; entretanto, existe um contínuo crescimento do uso das Tecnologias Digitais pelos docentes, e esses estão criando outras relações pedagógicas com base no uso de computadores no seu processo de trabalho.

I also argue that the most appropriate use of the computer is as a cognitive tool for accessing information and interpreting and organizing personal Knowledge. Just as carpenters cannot work effectively without a proper set of tools to help them assemble wood and construct furniture or houses, students cannot work effectively at thinking without access to a set of intellectual tools to help them assemble and construct knowledge

(JONASSEN, 1996, p. 78).12

O termo exclusão é relativamente novo e é usado para dar novo significado à pobreza, fenômeno que cresce a cada dia, fruto da distribuição desigual dos recursos do nosso planeta. Um dos fatores para a exclusão dos docentes às novas tecnologias são os baixos salários que recebem. A média dos salários dos trabalhadores em educação situa-se na faixa de R$ 500,00 a R$ 700,0013, o que significa um valor muito baixo para assegurar condições de vida digna para qualquer profissional, especialmente aquele cujas especificidades de atuação exigem dedicação exclusiva (a fim de se criar vínculos), ou ainda requerem tempo para formação, atualização e aperfeiçoamento (para que possa acompanhar a evolução técnica e científica) e condições para consumo de bens culturais (de modo que seja capaz de ampliar sua visão de mundo e socializá-la com os alunos).

É preciso desenvolver saídas que levem a inclusão dos professores ao mundo digital, de forma crítica e reflexiva, sabendo-se que para isso é necessária a valorização profissional e, conseqüentemente, melhores salários. Martins (2002) afirma que é preciso incentivar a inclusão social, já que se trata da distribuição eqüitativa dos benefícios sociais, culturais e

11 LÉVY (1999) define cibercultura como a expressão de um novo universal, baseado na informática e na

microeletrônica.

12 Eu argumento que o uso mais apropriado do computador é como uma ferramenta cognitiva para acessar a informação, interpretar e organizar o conhecimento pessoal. Assim como os carpinteiros não podem trabalhar eficientemente sem as ferramentas próprias que podem ajudar a juntar árvores e construir móveis e casas, os estudantes não podem trabalhar eficientemente e pensar sem o acesso das ferramentas intelectuais para ajudá-los

a unir e a construir conhecimento.[tradução do autor] 13 Dados da pesquisa CNTE/2003, http:// www.cnte.org.br.

políticos que a sociedade contemporânea tem sido capaz de produzir, mas não tem sido capaz de repartir. A questão é muito mais social do que econômica; por isso a inclusão deve ser encarada como direito.

Os próprios docentes devem refletir sobre como as novas tecnologias poderiam liberar os trabalhadores do trabalho rotineiro e repetitivo, contribuindo para a progressiva melhoria das condições de trabalho docente e para eliminar alguns males que atingem os professores, por exemplo, a síndrome da desistência (síndrome de Burnout14).

Entender tais questões é importante para saber o que o professor faz com o computador e quais são as conseqüências do uso dessa ferramenta para o campo educacional e especialmente para o seu processo de trabalho. Alguns docentes já prestam serviço pela internet, com remuneração ou sem ela, obrigados ou voluntariamente, experimentando nova prática dentro do seu campo de atuação profissional. O perfil, a trajetória e o “capital cultural”15 dos professores interferem na sua relação com a tecnologia.

Por fim, a inclusão dos professores no mundo digital é, ao mesmo tempo, uma das condições gerais de produção do sistema capitalista, mas também um direito dos trabalhadores em educação, como forma de apropriação de um conhecimento produzido socialmente. A par dessa exposição que problematiza, de maneira ampla, a tecnologia e sua introdução no processo de trabalho, vejamos, agora, como alguns autores apontam a introdução das TDs, a necessidade da formação docente para a sua utilização e os benefícios delas para o trabalho pedagógico.

14GENTILI (2002) afirma que os componentes do burnout são: esgotamento emocional, despersonalização e falta de compromisso com o trabalho. A síndrome de desistência resume, de forma clínica, a perversa fisionomia de desencanto na escola.

15 Expressão cunhada por BOURDIER (1998) para unificar todos os conhecimentos adquiridos por uma pessoa ao longo da sua vida.