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rio Popular

( 1 811 1/89), retrata bem esta percepção: "Por ora,

a cor do governo é puramente militar, e deverá ser assim. O

fato foi deles, deles só, porque a colaboração do civil foi qua­

se nula. O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso,

sem conhecer o que significava. Muitos acreditavam sincera­

mente estar vendo uma parada (Hahner, 1975, p. 49).

Mas a Proclamação não se limitou a uma parada militar .. .

Poucas horas depois da "passeata triunfante", regressa­

ram as tropas cercadas pelo júbilo popular. A multidão

( . . . ) recebe-as saudando a República e o "Exército liber­

tador" . Ao passarem pela rua do Ouvidor, Aníbal Falcão

se adianta para cumprimentar Benjamin Constan!. Este vem

montando próximo ao marechal Deodoro, e dirige em tro­

ca palavras de preocupação.

- �gitem o povo. A República não está proclamada

( . . . ) E

difícil

reconstruir a história, com todos os detalbes,

dos movimentos de rua em que se empenhou o povo na­

quele 15

ee

novembro ( . . . ) Realizam um comício monstro

defronte à Cidade do Rio. Daí a multidão se dirige em

passeata rumo à Câmara Municipal. A plenos pulmões, can-

DESDE QUANDO SOMOS UMA NAÇÃO?

ta a Marselhesa.

À

frente vão os líderes republicanos

mais amados do povo. ( . . . ) Chega a multidão ao edifício da Cãmara Municipal. ( . . . ) Onde se levantava o velho es- tandarte da monarquia, hasteia-se agora a bandeira da reVO­

lução, que antes só era vista nos pequenos clubes republica­

nos. ( . . . ) Dali a multidão, de novo, se pôs em movimen­ to, para a casa de Deodoro ( . . . ) O marechal hesitava, Benjamin Constant, junto com outros chefes republica­ nos, discute, argumenta, procura uma solução que não se-

ja o fracasso (Queiroz,

1967,

pp.

81-2).

'

Esta versão, apresentada por Maurício Vinhas de Queiroz, é muito menos "oficial" do que a anterior e procura valorizar a presença do povo no movimento de implantação da Repúbli­ ca. Para o seu autor - preocupado em mostrar a participação de Silva Jardim, enquanto tribuno popular, e do povo na his­

tória do Brasil -só no dia

16

de novembro foi proclamado o

novo regime.

Desde o final do Império, os jornais procuravam entrelaçar as questões militares com o projeto republicano. Os militares eram apresentados como os verdadeiros responsáveis pelo desti­ no do país e como o único reduto do patriotismo. Raul Pom­

péia foi um dos republicanos que estabeleceram a identificação

entre o país, o Exército e o povo. Nos últimos momentos do regime monárquico, a questão que mobilizava o Exército era forjar o soldado-cidadão e não o cidadão-soldado, experiência

já vivida pela criação da Guarda Nacional de

183 1 .

Agora o

Exército se identificava com o novo regime e com o povo e, desempenhando o papel de salvador da República, corporifi­

cava a honra nacional (Carvalho, J. M . ,

1977).

Nesta posição,

os militares desfecharam severas críticas contra o poder civil pre­

sente no Congresso, acusando-o de falta de habilidade e compe­ tência para dirigir o país.

Se por um lado toda a elite modernizadora do final do

século XIX pregava a Abolição e a República, por outro os

projetos republicanos divergiam entre si no entendimento do que

fosse a República. As próprias motivações que levaram os ho­ mens a ingressar no Partido Republicano eram diferentes. "A­ lém daqueles que sonhavam com a República porque a França era uma República ou porque Augusto Comte considerava esse regime como forma de governo superior à Monarquia, havia -

90 LÚCIA LlPPI OLIVEIRA

Manifesto de

70

-os que eram republicanos porque na Amé­

rica todas as nações o eram. Havia os que simplesmente se alinhavam contra o Terceiro Reinado, porque o Conde D'Eu era estrangeiro, ou porque a Princesa Isabel era demasiado clerical, os quais portanto sõ prometiam a sua adesão para depois da morte do Imperador. E havia os que eram republicanos porque o governo monárquico ameaçava a sagrada instituição da escra­

vidão" (Costa,

1984,

p.

3 ,

citando Leôncio Basbaum).

A "frente ampla" a favor da República incluía os repu­

blicanos paulistas, cUJa luta se centrava na proposta de federalis­

mo. O republicanismo se fez presente no Manifesto de

1870,

que -

à

semelhança do discurso liberal do final do Império

- condenava a falsidade da representação, os privilégios da Igreja Católica e as violações das liberdades públicas. A parte programática do documento defendia o federalismo e afastava

qualquer ação revolucionária como caminho para se chegar

à

República. Pouco depois, o Manifesto do Congresso do Partido

Republicano Paulista, de

1 873,

afinnava expressamente que ca­

da província deveria realizar a emancipação dos escravos se­ gundo seus interesses e possibilidades, não apresentando uma declaração abolicionista inequívoca como princípio doutrinário. Foi na Convenção de rtu que se organizou uma comissão en­ carregada de apresentar um projeto de Constituição republica­ na para o futuro Estado de São Paulo. Membros desta comis­ são vieram a fazer parte de uma outra, encarregada da redação

da Constituição federal de

1 89 1 .

Esses homens, inspirados na

Constituição norte-americana, aceitaram o federalismo, mas in­ troduziram o presidencialismo como fonna de contrabalançar a fragmentação política que o federalismo poderia gerar (Franco,

1975,

pp.

145

e seguintes).

Os intelectuais e propagandistas da República viam o no­ vo regime como uma etapa da "atualização" do Brasil, do seu ingresso no século civilizado. Embora tenham contribuído em muito para uma mudança de mentalidade, eles não participa­

ram contudo da construção da ordem republicana. 2 Esta elite in­

telectual incluía um setor voltado para a ação política pro­ priamente dita, cujo compromisso era mais com a prática do que com o rigor doutrinário ou teórico.

2 Este trabalho não pretende tratar detalhadamente dos projetos republíca­ nos, nem mesmo da vida política no início da República. Sobre este tema ver

1. M. de Carvalho ( 1987); Maria de Lourdes Janotti ( 1986) e Suely Robles Queiroz (1986).

DESDE QUANDO SOMOS UMA NAÇÃO' 91

Silva Jardim foi um desses eublicistas que, mesmo man­

tendo-se fiéis ao eositivismo, tinham como erincieal interesse

a aelicação da doutrina às condiçôes do eaís. Para Silva Jar­

dim, tanto quanto eara Aníbal Falcão, o essencial era a ereo

servação da nacionalidade.

As idéias de Silva Jardim, eara quem a Reeública reere­