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2. THEORY

2.4. H ARNESSING EMOTIONS

mental ao catolicismo na formação da nacionalidade:

"O

iní­

cio e o desenvolvimento da nossa nacionalidade, a formação

da pátria, aS lutas coloniais, a educação do povo, os usos e

costumes - tudo isso está identificado com as crenças religio­

sas dos nossos antepassados" (p. 12).

Para Júlio Maria, a história, vista como a "marcha do

gênero humano através dos séculos" , obedece a leis divinas.

Dentro dessa perspectiva, o autor apresenta o descobrimento

da América como um evento preparado por Deus para equilibrar

as perdas sofridas pela Igreja Católica devido ao avanço protes-

3 Este texto foi repubticado pela Universidade de Brasilia em 1981 com o títu­ lo A Igreja e il República. Uma outra edição (Rio de Janeiro, Agir, 1 950) traz o título O catolicismo no Brasil.

TERRA DE SANTA CRUZ 165

tante na Europa. A descoberta do Brasil e sua ocupação pelo

rei de Portugal

não ocorreram

por

acaso, e sim foram frutos da vontade divina. Assim, o "ideal de pátria brasileira sem a fé católica é um absurdo histórico". A crença e a fé consti­ tuem o "princípio de vida", a "alma da nação" . Foi a unida­ de religiosa que produziu a unidade política.

O autor faz a apologia dos jesuítas no período colonial. Foram eles que defenderam os índios das investidas do colono

português .

Foi obra dos jesuítas

em Piratininga a catequese, o

aldeamento e o povoamento, ou seja, a formação do povo bra­

sileiro. O Brasil era católico mesmo antes da Independência.

O altar não foi uma criação do trono.

Se o período colonial representou o esplendor da religião no Brasil, o Império não é tão bem visto. "O regalismo, o aniquilamento das ordens religiosas, o desprestígio do clero, a

reação enérgica mas efêmera

do

episcopado e do elemento ca­

tólico contra as usurpações do poder público, o racionalismo e

o ceticismo das elites dirigentes" (p.

67)

foram, para Júlio

Maria, as principais características do período.

Esta interpretação do Império corno período de decadên­ cia da religião leva Júlio Maria a considerar a liberdade da Igreja frente ao Estado como um benefício. A República resti­

tuiu

a

liberdade à Igreja, permitindo seu crescimento e fortaleci­

mento. O clero, contudo, reagiu mal a esta nova fase, por es­

tar acostumado a receber benesses do Estado.

A República, todavia, também foi desfigurada, segundo Júlio Maria, já que sua Constituição não recebeu nenhuma in­ fluência dos princípios religiosos. No entanto; mesmo esta situa­ ção é atribuída à " educação racionalista" do Império. Livre do

Estado, a Igreja poderia relizar a grande e nobre cruzada con­

tra seu maior inimigo, a ignorância religiosa, tendo corno ar­

ma a doutrinação.

Júlio Maria acredita que a crise, no Brasil, "não é urna

crise política, cuja solução depende de formas de governo.

É

uma crise moral, desde o antigo regime, das classes dirigentes da nação, e que só pode ser resolvida por urna reação católi­

ca" (p.

125).

Sua interpretação

do

momento histórico brasilei­

ro o leva a propor a união da Igreja com o povo. partindo do pressuposto de que estas eram as principais forças então ex.is­ tentes no mundo e no Brasil.

166 LÚCIA LlPPI OLIVEIRA

Assim, embora Júlio Maria conclua seu texto concla­

mando a união do clero ao povo, segundo os ensinamentos de

Leão XIII, sua proposta de uma reação católica contra a crise moral e de recatolicização das classes dirigentes teve um eco muito mais forte na cruzada empreendida pelo grupo católico

liderado por Jackson de Figueiredo nos anos

20.

A nosso ver,

isso ocorreu devido à forte marca católica que o povo brasilei­ ro carrega, por nascimento e formação. O que efetivamente

faltava ao Brasil eram elites

católicas.

Roberto Romano procura mostrar como, no final do sécu­ lo XIX, a Igreja apelou para o aval legitimador do povo, pro­ movendo demonstrações públicas de piedade popular, reforçan­ do a imprensa católica e utilizando métodos modernos de cate­ quese. Este momento histórico no qual a Igreja se lançou ao trabalho de doutrinação do povo coincidiu com os primeiros passos do catolicismo social, onde havia lugar para a "regene­ ração do proletariado" através do estabelecimento de limites le­ gais à exploração do trabaJbo. A interpretação de Romano en­ contra respaldo no apelo final presente no texto de Júlio Maria, que conclamava a união da Igreja com o povo. Entretanto, são os apelos no sentido de influir junto à formação de uma elite

católica que são retomados

pela intelectualidade católica nos anos 20.

Neste choque de orientações - ação junto ao povo ou ação junto à elite - esta última acabou prevalecendo. Essa do­ minância explica o predomínio no interior da Igreja de uma polí­ tica voltada para a legitimação dos governos republicanos, desde que a liberdade de culto e de ensino religioso, enfim, a

liberdade de ação da Igreja, fosse garantida. Na década de

20,

a Igreja passou a fornecer suporte religioso às instituições go­ vernamentais. Nos governos Epitácio Pessoa e Artur Bernar­ des foi acertada com D. Sebastião Leme a colaboração entre a Igreja e Estado no intuito de manter a ordem e promover o progresso nacional.

A Igreja, ao se apresentar como sustentáculo religioso

das instituições, desempenhou um duplo papel: de um

lado , con­

feria estabilidade aos governos; de outro, denunciava os abusos do liberalismo e do capitalismo.

A crença no princípio de que a "pátria brasileira sem

a

católica é um absurdo �istórico" permitiu a junção entre a

corrente nacionalista de Alvaro Bomilcar e o catolicismo ofi­

cial. A figura mais importante desta união foi, sem dúvida al­