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Introduction

Inicialmente o nosso projeto era trabalhar com duas categorias de análise: os trabalhadores do tráfico de drogas e da prostituição. No entanto, a partir do Exame Geral de Conhecimento, prestado em agosto de 2008, foi acordado com os professores participantes da avaliação que me deteria apenas ao estudo dos trabalhadores do tráfico de drogas.

Estando isso delimitado, tivemos como objetivo trabalhar, a partir de entrevistas, com pessoas, acima de dezoito anos e contemplando os dois sexos, representantes de um espaço de inserção reconhecidamente marginal: o tráfico de drogas.

Logo de início, deparamo-nos com uma dificuldade basilar: como acessar esses trabalhadores e, além disso, como conseguir a aceitação em participar de uma pesquisa em que é necessário falar de suas atividades reconhecidamente ilegais? É de conhecimento comum que o tráfico de drogas é um fenômeno bastante complexo que envolve o fato de ser exercido na clandestinidade, além de apresentar um forte

caráter de violência.

Diante disso, procuramos entrar em contato com possíveis instituições que mantivessem algum tipo de contato com esses sujeitos, a fim de facilitar nosso acesso a tal realidade. Com o objetivo de adquirir segurança em falar sobre suas ocupações, afastando deles a possibilidade de seus discursos resultarem em denúncias de nossa parte, foi necessária a intermediação de uma terceira pessoa, com quem mantinham uma relação de confiança.

Na realidade, essa intermediação teve duas finalidades: garantir certa segurança à integridade da pesquisadora e garantir a veracidade dos discursos, a partir da certeza de que as identidades e os dados coletados seriam mantidos em sigilo.

Seguindo essa perspectiva, tentamos contatar primeiramente duas instituições, mas sem lograr êxito. Em seguida, entramos em contato com o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua Ceará - M.N.M.M.R., o qual é um movimento popular que atua na defesa dos direitos das crianças, adolescentes e jovens, com especial atenção aos meninos e meninas em situação de rua9, através do

estímulo ao protagonismo e da construção de alternativas que viabilizem a garantia plena de seus direitos.

Desse modo, tal instituição abrange sujeitos que se encontram à margem da estrutura societária, os quais normalmente exercem atividades marginalizadas nas ruas da cidade. Vale ressaltar que o M.N.M.M.R inclui crianças e jovens até 29 anos, tendo em vista que, apesar de algumas divergências teóricas, para essa instituição o conceito de juventude compreende pessoas até tal idade.

A escolha por essa instituição se deu pelo acesso já anteriormente estabelecido com pessoas que participam da coordenação da mesma. É importante salientar que o trabalho do M.N.M.M.R. não se resume a jovens em situação de rua, fazendo uma atuação que abrange toda a comunidade em locais específicos.

A vinculação ao M.N.M.M.R. foi decisiva para além do caráter tradicionalmente institucional, uma vez que foi através da inserção comunitária dos contatos que se deu a aproximação com o campo.

É importante salientar que o projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFC, possibilitando, assim, a realização da análise de campo. A concordância para realização da pesquisa, por parte do comitê de ética foi respaldada

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9 No presente estudo, consideraremos em situação de rua os jovens que realmente vivem ou

já viveram de fato na rua (que romperam os vínculos familiares), como também aqueles que simplesmente utilizam a rua para procurar sustento ou diversão (NEIVA-SILVA e KOLLER, 2002).

pelo vínculo institucional, sem o qual a aprovação do projeto estaria seriamente comprometida.

Dentre os membros dessa coordenação, duas pessoas concordaram prontamente em intermediar nosso acesso aos trabalhadores do tráfico de dois bairros de Fortaleza: Lagamar e Barroso. A escolha pelos respectivos locais ocorreu devido ao fato de que ambas nasceram e residem até hoje nestes bairros, exercendo um papel de liderança entre os moradores. Logo, os sujeitos que participaram desta pesquisa possuíam uma relação de amizade, de longa data, com os dois intermediadores, o que facilitou bastante a realização das entrevistas.

Nesse ponto, convém ressaltar, que a necessidade de uma terceira pessoa, a fim de intermediar o nosso contato com os entrevistados, apresentou-se como outra dificuldade, visto que tivemos que contar com a disponibilidade de tempo da mesma, o que nem sempre foi possível. Alguns encontros pré-estabelecidos tiveram que ser desmarcados em função de motivos pessoais dessas pessoas.

Primeiramente, foram realizadas visitas aos bairros (três no Lagamar e duas no Barroso), na companhia dos intermediadores, antes do contato com os sujeitos pesquisados, a fim de que estes adquirissem certa confiança com a pessoa da pesquisadora.

A realidade observada nos dois bairros é muito semelhante. Foi possível verificar, em ambos os locais, uma situação de precariedade marcante. A grande maioria das residências encontrava-se deteriorada, sem estrutura física e em péssima condição de higiene. Normalmente as famílias possuíam grande número de integrantes, mas morando em espaços extremamente reduzidos, sendo verificado famílias inteiras residindo em um só cômodo.

A observação se deu em função de caminhadas pelas ruas e conversas com os moradores do local. Nessas conversas foi percebido que grande parte dos moradores do bairro sobrevive do tráfico de drogas, principalmente os mais jovens. O tráfico, na realidade, aparece como uma das principais alternativas de sustento existente às pessoas.

As visitas foram realizadas durante o dia e cedo da noite, no entanto, as entrevistas aconteceram todas durante o dia. A movimentação de venda de drogas ocorre também nos dois turnos, mas durante a noite as ruas parecem ser mais tomadas pelo comércio ilegal. Durante o dia é possível observar uma maior circulação de famílias, crianças e idosos, o que de alguma forma mascara a condição do tráfico.

No entanto, observamos pessoas vendendo drogas à luz do dia. A venda acontecia individualmente, com a permanência de vendedores nas esquinas, ou em pequenos grupos que permaneciam em diversos locais observando toda a

movimentação de pessoas e carros nas proximidades. É interessante colocar que em muitos casos, pensavam que a pesquisadora estava em busca de comprar drogas. De acordo com alguns relatos, uma parte dos consumidores são pessoas da própria comunidade, mas existe um grande número de consumidores de outros bairros, com melhores condições financeiras, que utilizam o local para comprar as drogas.

Outro dado interessante verificado na observação foi a presença de pequenos comércios, que servem de fachada para esconder o real objetivo do lugar: o tráfico de drogas. Dentre esses, carrinhos de batata frita, pequenos comércios de variedades em residências, lanchonetes, etc.

Nesse ponto, convém salientar que, apesar de termos observado que a maioria dos trabalhadores do tráfico do local serem jovens, foi constatado que homens e também mulheres, mães de família, realizam tal atividade, muitas vezes, por intermédio desses comércios de fachada.

Em relação aos fornecedores, não foram disponibilizadas muitas informações. Percebemos que eles não querem comentar sobre esse assunto, devido ao medo de repreendas por parte deste. No entanto, conforme veremos a seguir, foi mencionado, nas entrevistas, a existência de um fornecedor residindo fora da comunidade.

Existe, inclusive, uma separação entre determinados bairros em função da atividade ilícita realizada. Relataram-nos um exemplo: no Barroso e Lagamar a maioria dos jovens sobrevive do tráfico de drogas, já na Aerolândia (bairro vizinho ao Lagamar), os jovens buscam mais seu sustento por meio de assaltos.

Nesse aspecto, percebeu-se a existência de um código velado de que o tráfico de drogas é menos danoso, para os membros da comunidade, de que o assalto. É mais aceitável o tráfico como meio de sobrevivência de que o assalto.

Convém ressaltar que, em nenhum momento, foi visto pessoas portando armas de fogo ou demonstrando qualquer atitude ameaçadora à integridade da pesquisadora. O clima percebido nas ruas e residências foi bastante acolhedor.

Durante esses momentos iniciais de observação, ocorreram sondagens com alguns dos possíveis sujeitos a participarem da pesquisa. Dentre estes, entrevistamos cinco, que trabalhavam ou já haviam trabalhado com tráfico de drogas (três residiam no Lagamar e dois no Barroso).

No entanto, tivemos que contar com a imprevisibilidade característica dos trabalhadores do tráfico de drogas, o que, inclusive, foi advertido anteriormente pelos intermediadores. Em um dia está confirmado, no outro muda tudo. Deparamo-nos com as seguintes situações em que o encontro foi desmarcado: no dia marcado a pessoa passou a noite vendendo, ou saiu para se divertir, e não se encontrava acordada;

havia jogo de futebol; choveu forte; aconteceu assalto no local e havia grande concentração de policiais nas proximidades; a pessoa estava vendendo, dentre outras. Vale ressaltar que, como é um estudo qualitativo, o número de entrevistados é obtido a partir das necessidades que surgirem no curso da pesquisa, já que nesse método de estudo, mais importante do que a quantidade é a qualidade de expressão dos sujeitos pesquisados.

As entrevistas foram realizadas nos locais determinados por eles, de modo que quatro aconteceram em suas próprias casas e uma no espaço de uma escola da comunidade. Em todas as entrevistas, contamos com a presença das duas pessoas que intermediaram o contato.

A fim de manter a fidelidade dos discursos e das condições sociais dos entrevistados, conservamos suas falas sem a intervenção da norma culta.