Recife, Pernambuco, o escritor Ariano Suassuna, reconhecido nacional e internacionalmente pela sua obra teatral, reúne em torno de si um número significativo de artistas plásticos, músicos e escritores que, como ele, acredita no resgate de uma arte nacional, ou na recriação de uma arte erudita nascida das raízes populares. Embora a caminhada nessa direção já se tivesse iniciado muitos anos antes na prática de vários desses artistas, serão os conturbados anos da década de setenta que balizarão o nascimento e o desenvolvimento desse projeto transformado em movimento cultural.
Essa antiga busca por uma arte autenticamente nacional converteu- se em meta de alguns artistas contemporâneos de Ariano Suassuna. Desde a década de quarenta, jovens universitários da Faculdade de Direito, reunidos sob a influência de Hermilo Borba Filho, buscavam essa nova expressão para sua arte. Criaram, então, o TEP - Teatro do Estudante de Pernambuco, cujo principal compromisso era com a cultura popular nordestina. Havia ainda a SAMR - Sociedade de Arte Moderna de Recife - e o Atelier Coletivo com Abelardo da Hora, Francisco Brennand e Gilvan Samico. O TEP, assim como mais tarde o TPN - Teatro Popular do Nordeste - propunha-se a pensar e trabalhar na criação de um teatro que estivesse em sintonia com o povo brasileiro, com seus problemas, sonhos, expectativas e interesses. Segundo Santos, a interação entre esses grupos transformou Recife, em ―um centro de pesquisa e criação original, fora das capitais brasileiras que detinham, até então, a exclusividade do espírito de vanguarda e inovação criadora‖. (SANTOS, 1999, p. 27).
Embora focados principalmente na criação e na encenação teatrais, os componentes do TEP passaram a interessar-se por outras manifestações artísticas, tais como a música, a escultura e outros gêneros literários além do teatro. Essa abertura foi decisiva para a disseminação de novos ideais artístico- culturais, muitos dos quais o Movimento Armorial mais tarde abraçaria. O TEP e demais grupos de intelectuais tinham o interesse dirigido para a ―descoberta e sensibilização dos artistas e do público do Nordeste em relação à cultura
popular e à elaboração, a partir da arte popular, de uma arte brasileira original e autêntica‖. (SANTOS, 1999, p. 27).
Como parte de sua proposta de aproximar o público da arte popular, em 1946, Suassuna e Irapuan de Albuquerque organizam um encontro de cantadores, realizado no Teatro Santa Isabel, local que, por sua importância histórica e imponência arquitetônica, abrigava usualmente eventos artísticos ligados à cultura erudita. A esse evento segue-se um texto de Suassuna ―sobre a importância da poética do romanceiro e da viola nordestina, [...] completado e reeditado em 1962‖. (SUASSUNA23, 1962 apud SANTOS, 1999, p. 27). O autor
do texto demonstrava assim que, em paralelo à prática do resgate da arte popular, era possível passar-se a uma reflexão, não com pretensões normativas, mas, informativas. O TEP leva efetivamente o teatro ao povo: são apresentadas peças como os autos e farsas, além de espetáculos de mamulengos, fora do circuito elitista das artes. Antes, porém, desses fatos datados que envolveram muitos dos integrantes da primeira geração do Movimento Armorial, iniciativas semelhantes foram tomadas na área de cultura ali mesmo em Recife. No entanto, como já mencionado, os artistas armoriais descartam a ideia de serem vistos como precursores.
O Movimento de Cultura Popular - MCP, encabeçado por Paulo Freire, por exemplo, tinha uma proposta cultural e política de promover os artistas e intelectuais de Pernambuco, além de manter um projeto de alfabetização que contemplasse a arte e a cultura populares. Com isso, criava condições para o processo de desenvolvimento do movimento popular. O MCP vinculava-se estreitamente com a política, notadamente com as ideias de Miguel Arraes, a quem apoiou nas eleições à Prefeitura do Recife e, mais tarde, ao Governo do Estado. O Movimento reuniu personalidades do cenário intelectual e artístico de Recife. Suassuna, no entanto, fiel ao seu entendimento da arte recusava o engajamento político que a intelectualidade de esquerda exigia do artista e insistia em separar a atuação e a responsabilidade criadora da participação cidadã. O escritor mantinha, contudo, relações de aproximação e cordialidade com Paulo Freire, mentor do MCP e com outros integrantes do
23 SUASSUNA, Ariano. Nota sobre a poesia popular nordestina, DECA, Revista do
Movimento, bem como com o homem público Miguel Arraes. O MCP contava com a adesão de um grande contingente de estudantes universitários.
Com o golpe militar de 1964 e a extradição de Miguel Arraes e a de outros líderes políticos, o Movimento Cultural Popular se desfez. A reunião posterior de seus integrantes foi fundamental para a criação do Movimento Armorial. Embora exaltando postulações liberais, distintamente do MCP, o Movimento Armorial não abraçava propostas políticas, mas, essencialmente artísticas, o que nunca impediu que os seus integrantes fizessem fortes alusões à situação política do país, muitas vezes cifradas no corpo de sua obra.
Durante a ditadura militar, em meio ao ufanismo do ―milagre nacional‖, os artistas empenhados no rigor do bem dizer e bem fazer literário, representavam uma anomalia no cenário nacional, divergindo sensivelmente da imagem que o regime militar pretendia mostrar do país e para o país. A censura não poupava as manifestações que porventura pudessem constituir uma ameaça à ordem e à segurança nacional. Apoiava, por outro lado, as atividades culturais que expusessem os rasgos considerados ―legítimos‖ da cultura nacional, pelo regime militar. Assim, cultura popular era um termo malquisto e suspeito e, portanto, qualquer artista que quisesse tratar de assuntos não caros à ditadura de Médici e Figueiredo e à dos militares que os antecederam, tinham que driblar a censura. Em depoimento à jornalista Eleuda de Carvalho, Suassuna fala sobre sua experiência literária com um desses temas proibidos. Conta-lhe de certo episódio marcante da violência militar, quando o sacerdote de uma pastoral popular de Recife (homenageado em um folheto do poeta Patativa do Assaré) foi assassinado. Ele, então, abordou o fato ficcionalmente em seu Romance d‟A Pedra do Reino com o velamento
necessário para driblar a censura imposta à imprensa. Diz Ariano:
Publiquei aquele livro [Romance d‟A Pedra do Reino] em 71. Se não
me engano, estávamos no Governo Médici. Bem, a primeira coisa que fiz, não sou doido não, transferi para um tempo pra trás. Mas peguei um tempo de repressão também, pra eu poder dizer o que
tava com vontade. Se não, o romance nem sair saia.24 (SUASSUNA apud CARVALHO, 1998, p. 143).
Assim, em perfeita consonância com seu projeto, compartilhado com tantos outros artistas, Ariano Suassuna cria, em pleno regime militar, o Movimento Armorial e insiste na premissa de que a arte popular, mais próxima de nossas raízes culturais, representa um modelo a partir do qual podem emergir todas as mais vivas formas da arte nacional em suas diversas expressões. O Movimento Armorial, que tem em suas bases constitutivas a arte popular, é definido pelo autor nos seguintes termos:
A Arte Armorial Brasileira é aquela que tem como traço comum principal a ligação com o espírito mágico dos ―folhetos‖‘ do Romanceiro Popular do Nordeste (Literatura de Cordel), com a Música de viola, rabeca ou pífano que acompanha seus ―cantares‖, e com a Xilogravura que ilustra suas capas, assim como o espírito e a forma das Artes e espetáculos populares com esse mesmo Romanceiro relacionados. (SUASSUNA25, 1974 apud SANTOS, 1999, p. 13).
O Movimento Armorial nasce, portanto, sob o signo da pluralidade, da multidisciplinaridade artística, apoiado nas manifestações populares, da mestiçagem, do amálgama do diferente, dos contrários. Apoiava-se, principalmente, na ideia de uma fusão, na fusão do erudito com o popular que, em linhas gerais, representaria a arte autenticamente nacional, a arte do povo. Uma arte de e para um povo que, a princípio, o próprio Ariano Suassuna, chamou de ―castanho‖, denominação sobre a qual se retrataria depois. A terminologia era inspirada no termo ―pardo‖ euclidiano, usado para definir o povo brasileiro. Um povo em cuja formação se fez presente tanto a razão quanto o sonho, toda a gama telúrica da mestiçagem naturalista e a singular composição caleidoscópica do espírito sócio-antropológico dos que aqui vivem e produzem trabalho e artes.
24 A autora, que inclui, em sua dissertação de mestrado, o depoimento em questão, não
menciona data nem local onde foi colhido.
25SUASSUNA, Ariano. O Movimento Armorial (ilustrações). Recife: Universitária UFPE, 1974;
2ª ed. rev. e amp., sem ilust., separata da Revista Pernambucana de Desenvolvimento. 4 (1): 39-64. Recife: Condepe, jan.-jun.
O desejo do Movimento Armorial de incorporar, através de uma produção dita erudita, as manifestações da arte popular brasileira vê-se legitimado na constatação dos artistas do Movimento sobre a vitalidade desta arte, sobre seu vigor e sobre sua autenticidade. A criação literária popular, em particular, tem nos folhetos de cordel, ―o maior e mais variado Romanceiro vivo do mundo‖. (SUASSUNA, 2008, p. 152). Segundo Suassuna, a discriminação que a arte popular ainda sofre no Brasil pós-ditadura, embora por motivos diversos, advém do preconceito baseado em certos equívocos antigos. Um dos erros mais sérios seria o de assumir que a criação depende mais do conhecimento e menos da imaginação criadora, o que relega os artistas populares, em sua maioria sem formação acadêmica, a um plano menor na produção artístico-literária do país.
A preocupação de Ariano Suassuna a respeito da arte no Brasil, já resolvida em sua prática ficcional, motivou-o a escrever sobre o tema, desta vez em um ensaio acadêmico, intitulado A Onça Castanha e a Ilha Brasil: uma
reflexão sobre a Cultura Brasileira. O texto foi apresentado como Tese de
Livre-Docência ao Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Pernambuco, em 1976, e publicado posteriormente em 2003. Nele, Suassuna tenta esboçar as linhas gerais do que chama essa ―visão-do-mundo brasileiro‖ para ―mostrá-la nascendo na obra e no pensamento de alguns dos nossos maiores espíritos dos séculos antecessores‖, visão à qual contraporá à de ―[...] outros grandes espíritos brasileiros do século XX‖. (SUASSUNA, 2003, p. 9).
Essa inquietude do escritor, no âmbito criativo e intelectual transformou-se, portanto, em busca obstinada de encontrar caminhos possíveis para uma arte autêntica em um país que sofre, segundo ele, de uma espécie de dilaceramento cultural, advindo de seu perfil de miscigenação. Uma nação configurada por meio da herança das culturas ibérico-mediterrâneas, na confluência entre a Idade Média e o Renascimento (dos colonizadores quinhentistas); africana, de seus escravos e indígena, dos habitantes primitivos.
Suassuna sabe que o artista sofre esse dilaceramento de forma mais profunda e que, devido à homogeneização dessa mistura, ele se converte em intérprete legítimo de sua gente. Daí sua proposição de que uma nova arte
que pretenda expressar o âmago de seu povo deve mirar-se no exemplo da literatura popular, do Romanceiro Nordestino, o qual, segundo ele, possui ―um estilo e um modo próprios. Um estilo por meio do qual se incorporam se assimilam e se reduzem à unidade, histórias, mitos, tipos das mais diversas procedências‖. (SUASSUNA, 2007, p. 251). A ação do artista deveria enquadrar-se dentro dessa perspectiva amalgamatícia e transformadora do Romanceiro Nordestino (e, mais abrangentemente, da literatura popular), de modo a que sua arte assumisse uma dimensão mais ampla, que partindo do elemento local fosse capaz de universalizar-se. Essa criação surgiria naturalmente, ligada ao povo pelos seus anseios, despida de teorias pré- concebidas, ideologias e programas. Segundo o escritor, a literatura popular que ―constitui uma espécie de ‗tradição viva‘, peculiar, fecunda‖ (SUASSUNA, 2007, p. 251), expressa a identidade do povo brasileiro. Este sujeito, segundo análise do ―ponto de vista de seu comportamento social, de sua Psicologia, de sua História, de sua Arte, de sua Literatura [...]‖, revela uma ―tendência assimiladora e unificadora de contrários‖. (SUASSUNA, 2003, p. 10).
Esse vínculo estreito e direto com a arte popular mostra-se assimilado perfeitamente pelos artistas do Movimento Armorial, como já se observou, não apenas em seus postulados, mas especialmente no que tange à feitura de suas obras. Ariano Suassuna, seu criador, já vira seu projeto e suas ideias perfeitamente adaptados na literatura espanhola com a qual estava bem familiarizado. Conhecia os romances viejos, assim como a épica castelhana (Cantar de Mio Cid) e a literatura culta dos séculos XV e XVI. Percebera como as manifestações populares e eruditas se harmonizavam em Cervantes, nos dramaturgos do Século de Ouro, em García Lorca, e em muitos outros escritores da Espanha, em cujas criações eruditas o extrato popular está presente. Nas palavras de Idelette Muzart Fonseca dos Santos, esses autores representavam para os armorialistas uma referência popular ―de segundo grau‖. (SANTOS, 1999, p. 288).
A literatura espanhola fora descoberta desde cedo pelo Teatro do Estudante de Pernambuco – TEP, que adaptava obras de sua dramaturgia. A farsa O Amor de Dom Perlimplim e de Belisa em seu Jardim, de García Lorca, havia sido encenada na década de quarenta pelo departamento de bonecos do TEP. Outra influência lorquiana certamente foi a decisão de fazer teatro
ambulante dentro do TEP. As atividades do grupo La Barraca – nome escolhido para a trupe de atores ambulantes – levaram o teatro ao povo espanhol, assim como a barraca armada pelos integrantes do TEP levou-o aos recifenses e ao povo das localidades do interior da região.
Com o amadurecimento das ideias, as experimentações que o movimento tenta empreender e, levando em conta os pronunciamentos de seus artistas - especialmente os de Ariano Suassuna -, seria pertinente assumir como uma de suas expectativas, fazer com que o nosso romanceiro popular tivesse reconhecimento no quadro ―oficial‖ da literatura brasileira. Para isso, o Movimento Armorial espelha-se no romanceiro Ibérico ou no romanceiro espanhol, em particular, que, como se disse anteriormente, incorporou-se ao painel da literatura e dos estudos literários do país. As tradições populares da Espanha transcendem ainda os limites nacionais, e o quadro da literatura mundial, em segunda mão, através das obras de Cervantes, Góngora, Calderón de la Barca, Quevedo, García Lorca, entre outros. Nesse aspecto, a Espanha é um exemplo raro no contexto europeu, muito embora Julio Caro Baroja denuncie em Ensayos sobre La Literatura de Cordel uma lacuna sobre certos romances populares nos estudos literários do seu país:
[...] De todas suertes la eliminación de los romances vulgares, ―Blind Beggar Ballads‖, es algo que llevan a cabo ―in limine‖ casi todos los historiadores de la literatura a estudiar materias tan importantes como el romancero español y de otros géneros de cordel ni siquiera hablan. (CARO BAROJA, 1990, p. 28).
Em outros países, como a Inglaterra e a Escócia, as poéticas populares permanecem à margem da literatura culta (exceção feita aos temas folclóricos literalmente ―colados‖ em composições eruditas). No contexto ibérico, em seu ensaio ―Literatura popular: em torno de um conceito‖ (1983), Manuel Veiga Guerreiro, lamentando o desprestígio da literatura popular em todo o mundo e em especial em seu país, ressalta essa exceção que constitui o romanceiro espanhol:
[...] E não estamos nós, portugueses, atrasados em relação ao resto do mundo. Por toda a parte a mesma rejeição. Das histórias da literatura está, em geral, ausente a arte verbal do povo. E se podemos apontar, na Península, a excepção das histórias da literatura espanhola isso só se observou em relação a um único género, o do romanceiro peninsular. A seu estudo se aplicou, com devoção e pela vida inteira, um homem de prestígio e de génio, mestre incomparável da História do seu povo, D. Ramón Menéndez Pidal. E foi quanto bastou para que o romance chegasse às referidas histórias. Não assim em Portugal, onde na recolha e estudo de romances populares fomos até precursores - não se esqueçam Garrett e seus continuadores - mas todo o seu labor, entusiasmo e saber não puderam vencer o exclusivismo de um velho e persistente aristocratismo literário. (VEIGA GUERREIRO, 1983, p. 10).
O esforço no sentido de preservar a arte popular, como fonte à qual se deverá recorrer para a criação de uma arte erudita, realmente brasileira, incorporando-a aos seus respectivos fazeres artísticos, é, portanto, característica medular do Movimento Armorial. O ideal sobrevive com força na prática artística e intelectual de muitos artistas vinculados ao movimento até a atualidade, e em particular na obra de Ariano Suassuna, e, sem concessões e sem incoerências, atinge seus mais altos patamares. A nomenclatura dada por ele, ao povo brasileiro, em seu ensaio foi, no entanto, repensada (como, aliás, é característico de seu fazer e de sua reflexão dinâmica). Essa mudança se anuncia logo após sua longa ausência do cenário literário do país, quando o escritor chega à seguinte conclusão:
[...] minha idéia de castanho – como todas as ideias semelhantes formuladas pelos discípulos de Sylvio Romero – era uma forma inconsciente de racismo. O meu sonho de castanho, que era uma figuração do pardo de Euclydes da Cunha, baseava-se inconscientemente num impulso de apagar a ‗mancha negra‘ que se diluiria nesse ‗pardo‘ da ‗raça brasileira futura‘, como se profetizava em Os sertões. (SUASSUNA26, 19-- apud SANTOS, 1999, p. 300).
26
O texto de Suassuna encontra-se originalmente em MORAES NETO, G. O Brasil, seu povo e seu destino, segundo Suassuna. Diário de Pernambuco, Recife, 23 abril 1989, p. A24. Entrevista. Citado por SANTOS, Idelette Muzart Fonseca dos. Em demanda da poética
popular: Ariano Suassuna e o Movimento Armorial. Monografia – UNICAMP, São Paulo: Ed. Unicamp, 1999.
Em conformidade com o que já se anotou em momentos precedentes, apesar desse redirecionamento de ordem filosófico-política, Suassuna continua fiel a sua opção artística. Por outro lado, consoante comenta Idelette Muzart Fonseca dos Santos (1999, p. 301), essa nova forma de pensar e a sua revisão de conceitos anteriores trarão como consequência imediata o engajamento do cidadão Ariano Suassuna num partido político – O Partido Socialista Brasileiro –, expresso no posicionamento político de apoio a seus candidatos (tanto no âmbito municipal como estadual), além de pronunciamentos esclarecedores a respeito de sua controvertida adesão ao regime monarquista. Sobre esta posição, que reconhece dolorosamente equivocada, Ariano explica: ―Talvez os sonhos de escritor tenham perturbado a visão política do cidadão‖. (SANTOS, 1999, p. 302).
O interesse em criar uma literatura nacional com feições brasileiras é uma demanda muito antiga, anterior ao Movimento Armorial e merece estudo à parte, tamanha é sua importância e amplitude, porém, vale ressaltar que os artistas que integram o movimento têm realizado muitas ações neste sentido. Tanto no que respeita à produção de material crítico, como artístico (literário, de artes plásticas, musical e de dança), essa produtividade continua, embora não se possa falar em crescimento significativo de integrantes, para o que se podem encontrar explicações em vários fatores. Os artistas armoriais, embora de origem diversa, dentro da região Nordeste, vivem, com poucas exceções, em Recife. Essa proximidade que lhes permite reunir-se, discutirem ideias, proporem soluções artísticas em suas áreas de atuação funciona como forte elemento de coesão, por outro lado, a atuação de Ariano Suassuna, mentor do Movimento, em cargos políticos ligados à cultura do Estado de Pernambuco tem lhe permitido promover e criar ações de incentivo às manifestações populares e à pesquisa sobre elas.
Todos os artistas armoriais mantêm, por nascimento ou afinidade, estreitos laços com a cultura popular de sua região e têm como referências autores comuns, de cujas obras também buscam as fontes no seio de suas culturas populares. Há fartos exemplos de diálogos entre as obras de artistas armoriais, de sorte que sua poesia pode surgir da inspiração de um romance de um quadro, a coreografia de um balé é criada a partir de uma peça de literatura e uma suíte surge inspirada de um entremez. Personagens podem
transitar livremente em várias obras de um mesmo autor ou na obra de um para a de outro. A crítica é exercida entre eles, não apenas em nível pessoal, mas em obras ou textos. O catálogo de arte de um pintor recebe o texto de outro artista armorial, enquanto obras literárias são ilustradas por pintores, xilógrafos e gravadores. Ressalte-se ademais que muitos integrantes do Movimento Armorial são multi-artistas, desdobrando suas produções em mais de uma área artística. Suassuna pode ser a figura paradigmática dessa particularidade, a qual, no entanto, é partilhada por diversos outros artistas, inclusive de sua atual geração27.
Consideram-se armorialistas da primeira geração, entre outros artistas, Ariano Suassuna, Francisco Brennand, Zélia Suassuna, Aluizio Braga, Miguel dos Santos, Gilvan Samico, Maximiano Campos, Ângelo Monteiro, Marcus Accioly, Raimundo Carrero e Antonio José Madureira, entre outros. De