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Genesis of al-Qaeda

In document The female jihadists of Europe (sider 44-0)

Chapter 5: Analysis of Case Study

5.1 Genesis of al-Qaeda

Quando os primeiros laivos do Humanismo começam a medrar na Europa, em detrimento da mentalidade vigente - período que alguns historiadores modernos, entre os quais Joaquin Rubio Tovar (1990, p. 28) e Carlos Garcia Gual (1983, p. 69), chamam, respectivamente, de Renascimento Medieval e Renascimento do século XII, desenvolve-se entre a nobreza das regiões francesas da Normandia e Aquitânia e da Inglaterra sob domínio normando o gosto por uma literatura escrita em língua vulgar, em contraposição ao uso exclusivo e duradouro do latim na redação de textos científicos e historiográficos. Em seu livro Literatura europea y Edad Media latina, Ernst Robert Curtius se refere às mudanças nas estruturas feudais do período, que perdem sua dimensão econômica e se transformam em um sistema de estratificação social, sendo, portanto, motivadoras de consequentes mudanças no comportamento social (CURTIUS, 1998, p. 549-550). Havia um grande número de intelectuais formados nas escolas catedralícias e uma classe de

cavaleiros nobiliários que, quando não estavam envolvidos em guerras, buscavam um envolvimento com atividades espirituais. Essa realidade social resultaria no cultivo das atividades literárias na França e na Inglaterra.

A dificuldade que representava o latim para muitos e o crescente interesse pela Antiguidade clássica foram fatores que beneficiaram a proliferação dessas composições literárias em língua vulgar. Se ainda não podiam ser lidas por uma massa iletrada de forma individual, elas podiam ser lidas em voz alta e assim compartilhadas coletivamente. A leitura e o acesso às histórias já não era, portanto, um privilégio restrito apenas aos homens da Igreja: ampliava-se agora à nobreza, até então, despossuída de uma cultura erudita.

Essa conjunção de fatores sociais, culturais e políticos explicariam, segundo Rubio Tovar (1990, p. 28), o fato de que, por volta da segunda metade do século XII, surgisse o roman. O termo (proveniente do advérbio latino

romanice) deriva de uma prática que se tornara corrente, de traduzir para as

línguas românicas as obras escritas em latim, tarefa que quase sempre era desempenhada por clérigos, capazes de ler os textos originais latinos e traduzi- los. O termo, porém, abarcaria, aos poucos, um significado mais amplo. Roman antes empregado apenas para a língua falada não latina e para as traduções do latim ou outros escritos em língua vulgar (romance), passava, já com Chrétien de Troyes (séc. XII), a significar um tipo de narrativa (à época, em verso) que mantinha certa autonomia com relação à História (da qual descendia), e que diferia da épica e de outros gêneros. Ramón Menéndez Pidal, quando introduz o tema da epopeia e da ―novela caballeresca‖ em seu livro De Cervantes y de

Lope de Vega, afirma que:

Desde el siglo XII, Francia, fundándose por lo común en leyendas bretonas, había dado el modelo de una novela caballeresca, escrita en verso, cuyo gusto se difundió por toda Europa, gracias al encanto de obras como el Tristán, el Lancelot, el Perceval, el Merlín, de Crhétien de Troies o de Robert de Boron y al de toda una literatura posterior, en prosa, aparecida en la primera mitad del siglo XIII. (MENÉNDEZ PIDAL, 1943, p. 10).

Essa nova acepção que o termo cobra na França, a partir do surgimento de uma nova modalidade narrativa que vem a designar, é devedora inicialmente das obras de natureza histórica ou da poética anterior (épica e lírica): ―El roman cortesano revela la influencia del renacimiento latino del siglo XII en la poesía francesa.‖ (CURTIUS, 1998, p. 549). Sobre essa realidade do nascimento do gênero sob influências variadas, Rita de Cássia Mendes Pereira certifica:

[...] o roman aparece, assim, dentro dos limites impostos pela tradução. Aos seus autores coube, entretanto, a tarefa fundamental de acrescentar às fontes e aos modelos literários resgatados pela historiografia as contribuições da canção de gesta e da poesia lírica, que haviam se aclimatado nas cortes francófonas da Europa desde meados do século XII, como veículos privilegiados de manifestações da literatura em língua vernácula. Delas, o roman extraiu temas, os modelos literários da aventura de cavalaria, a ideia de combate pela Cristandade e as fórmulas de expressão do amor cortês. (PEREIRA, 2008, p. 95).

Porém, a autora adverte que essa literatura guarda também especificidades em relação aos modelos literários citados. Nela, já não se usa a construção estrófica e os efeitos repetitivos, próprios das formas literárias destinadas ao canto, tais como o cantar de gesta e a poesia lírica. Seu texto é destinado à leitura e adota o estilo da poesia narrativa, mas, a exemplo da poesia lírica, introduz o amor como um novo tema, alheio à austeridade da poesia narrativa heroica. Esse tema amoroso se localiza em um mundo elegante e cortês, muito diferente do universo da epopeia feudal. É inegável, no entanto, possivelmente dada à proximidade temporal com os poemas épicos, a herança no roman de corte cavaleiresco de alguns traços da poesia épica. A caracterização dos personagens ainda responde a um ideal de perfeição cavaleiresca compartilhado com os longos poemas épicos. As técnicas de combate e fórmulas narrativas se assemelham muito. Por outro lado, a obediência do guerreiro feudal ao seu senhor, que o obrigava a entregar nas mãos deste (rei ou senhor) o direito de atribuir um castigo, não permaneceu como traço no roman cavaleiresco. Neste, diante de ofensas pessoais, o cavaleiro não espera para fazer justiça, fazendo-a ele mesmo. O vínculo servil de fidelidade absoluta faz parte agora do passado épico.

No que respeita ao aspecto guerreiro ou belicoso, a grande diferença das novas narrativas advém do fato de que as grandes batalhas entre bandos ou exércitos inimigos são travadas agora individualmente. Os novos cavaleiros não empreendem lutas em nome de um ideal político-nacional. Vagam solitários e tomam para si a decisão de combater, em nome de algum grande agravo sofrido ou, em ocasiões, por motivos menores, como a recusa do oponente a identificar-se diante dele. A floresta é quase sempre o local das lutas, mas haverá alguma testemunha que narre a proeza do vencedor na corte. Esse aspecto em particular é destacado por Mario González ao referir-se aos livros de cavalaria:

[...] é necessário que as façanhas do cavaleiro sejam registradas, já que a fama é indispensável para sua realização. Assim sendo, é necessário que haja testemunhas que possam levar até o espaço da corte o registro das aventuras do herói, já que estas, normalmente, acontecem longe dela. (GONZÁLEZ, 2010, p. 222).

Menéndez Pidal também adverte para a repercussão desse modelo literário, afirmando que as emoções que enriqueciam esses poemas de aventuras tomaram caminhos e realces diversos: ―Francia, mediante las obras de Beroul, de Chrétien, de Thomas, sintió principalmente la poesía del amor fatal y tormentoso, que hiere con dardo envenenado el pecho de Tristán.‖ (MENÉNDEZ PIDAL, 1943, p. 10-11). O autor se refere, também, à recepção na Alemanha citando o poema de Wolfram de Eschenbach que dá relevo às ―batallas de purificación interior reñidas en el alma de Parsival, que le ganan el reino de la mística ciudad del Graal santo‖74. Ao referir-se à recepção que essa

poesia sedutora tem na Espanha, o historiador e crítico literário espanhol aponta o anônimo Amadís de Gaula como ―feliz adaptación al espíritu español de una corriente francesa‖75, e sobre o íntimo ―españolismo‖ obtido na obra, diz

Menéndez Pidal:

74

Ibidem.

España depuró la inspiración bretona en el anónimo Amadís, ideando el fresco primer amor del Doncel del Mar y de la niña Oriana, perdurable desde la infancia hasta la muerte, a pesar de las seducciones y los dolores que tenazmente conspiran contra los amantes, ―en tal guisa, que una hora nunca de amar se dejaron‖. (MENÉNDEZ PIDAL, 1943, p. 11).

Jean Bodel76 (apud GARCÍA GUAL, 1988, p. 67), em seu poema

épico La chanson des Saxons (sec. XIII), fez a seguinte distinção a respeito das matérias sobre as quais se debruçava a literatura à sua época:

Ne sont que trois metieres a nul home antandant: De France et de Bretaigne et de Rome la Grant ; Et de ces trois metieres ní a nule semblant. Li conte de Bretaigne son si vain et plaisant; Cil de Rome sont sage et de san aprenant. Cil de France sont voir chascun jor apparant.

As matérias referidas configuravam três ciclos, conforme seu assunto central: o ciclo francês ou carolíngio, o ciclo clássico ou da Antiguidade e o ciclo bretão ou arturiano, referidas, respectivamente, às matérias de França, de Roma e de Bretanha. A primeira matéria está no âmbito da gesta francesa: a ela pertence o ciclo carolíngio. A terceira está no âmbito dos

romans de cavalaria ou seja, dos romans do ciclo arturiano. Quanto à matéria

de Roma, a ela se dedicaram os romans sobre a Antiguidade greco-latina. Segundo Bodel, na concorrência pela popularidade e a preferência do público o

roman do ciclo artúrico, incorporando lições da épica tradicional e das lendas

clássicas, se imporia com seus misteriosos protótipos.

Para entender as influências dessas matérias, em especial a do chamado ciclo arturiano sobre os livros de cavalaria espanhóis e a importância que os autores espanhóis do século XVI lhe concederam, é importante reportar- se às regiões da Normandia e da Inglaterra sob domínio normando, nos séculos

76 BODEL, Jean. Chanson des Saxons. Paris: J. Techener Libraire Place du Louvre, 1200. vs.

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