A moradia e sua localização têm sido destacadas pelos estudos sociológicos como importante fator de distinção entre os grupos sociais (BOURDIEU, 1979a; TRIGO, 2001; PINÇON e PINÇON-CHARLOT, 2002). Pinçon e Pinçon-Charlot (2002), em estudo sobre a socialização dos herdeiros ricos na França, recomendam o estranhamento do olhar sociológico para um aspecto tomado, em geral, como natural, a saber: a posse, por parte das famílias afortunadas, de casas amplas, apartamentos ou residências secundárias e a experiência de amplitude espacial propiciada aos moradores por esses ambientes. Os resultados de investigações recentes discutem e sublinham as conseqüências desse modo material, mas também simbólico, de favorecimento, que se expressam tanto externamente aos sujeitos - por exemplo, no isolamento físico e geográfico de bairros ou condomínios que reúnem iguais, separando-os dos restantes – como internamente a eles, de maneira incorporada, na medida em que interiorizam e incorporam escalas espaciais mais alargadas.22
Um exame da relação dos bairros onde residem as famílias investigadas indica uma situação de privilégio em relação à totalidade da população da cidade de Belo Horizonte. A Prefeitura Municipal se referencia, desde 1996, em um índice denominado - IQVU - Índice de Qualidade de Vida Urbana, para “mensurar a oferta de serviços e recursos urbanos, bem como o acesso da população aos mesmos” (BELO HORIZONTE, 2000)23, nas diversas regiões da cidade. A composição desse índice, que considera como variáveis mais importantes as relacionadas aos setores de habitação e infra-estrutura, leva em conta e enfatiza aspectos vinculados ao ambiente construído, ao lugar e aos equipamentos aos quais os habitantes têm acesso.
Outros indicadores como o IDH - Índice de Desenvolvimento Humano e o ICV - Índice de Condições de Vida, além do IQVU, são utilizados para a caracterização socioeconômica das diferentes regiões da cidade. O IDH baseia-se em variáveis como: esperança de vida ao nascer, renda familiar per capita, alfabetização e número de anos de estudo. O ICV agrupa variáveis em quatro itens: longevidade/saúde; escolarização da
22
Também os meios de locomoção aos quais têm acesso (automóveis, avião, etc.) funcionam como tantas outras experiências de incorporação de disposições espaciais
23
Cf. Anuário estatístico de Belo Horizonte – Planejamento e Desenvolvimento Urbano, 2000
população com mais de 25 anos; percentual de crianças que freqüentam a escola/trabalham/defasagem escolar e dados relativos à renda familiar.
Tabela 2 : Distribuição das famílias quanto ao bairro de residência Bairro Nº. absoluto Belvedere 3 Bandeirantes 2 Funcionários 2 Anchieta 2 Sion 2
Retiro das Pedras 2
Ville de Montagne 1
Vila Del Rey 1
Vila Castela 1 Lourdes 1 Mangabeiras 1 Cruzeiro 1 Luxemburgo 1 Santa Maria 1 TOTAL 21
O exame dos bairros habitados permite localizá-los entre as mais altas categorias do IQVU (classes I e II) numa escala de seis níveis, ou seja, são bairros que apresentam alto índice de qualidade de vida. Uma exceção entre eles é o bairro Santa Maria, localizado na categoria IV desse indicador.
A Zona Sul da cidade é aquela que aglutina as mais altas taxas de IDH e ICV e é também a região que reúne a maioria dos bairros onde vivem as famílias que se utilizam das escolas internacionais. No caso da Fundação Torino, 18 dentre as 21 famílias entrevistadas estão nessa região. Das três restantes, duas residem no Bandeirantes, bairro situado em área nobre da região da Pampulha, estritamente residencial e composto por casas ou mansões, em lotes de 1.000 m2 ou mais. O outro bairro citado, o Santa Maria, encontra-se na região noroeste da cidade, que apresenta taxas mais baixas desses dois indicadores em relação à Zona Sul.
As anotações de campo, feitas logo após as entrevistas, confirmam e permitiram matizar os diferentes graus de favorecimento social - do ponto de vista das condições
materiais de existência - de grande parte dessas famílias em relação à média da população da cidade de Belo Horizonte, situação já sinalizada pelo exame dos bairros em que residem. Condições desiguais expressaram-se, por exemplo, nas residências que, mesmo localizadas em bairros privilegiados, distinguem-se quanto à localização no bairro, tamanho e apresentação. Assim, no conjunto estudado encontram-se desde famílias que vivem em casas ou apartamentos luxuosos - localizados em áreas nobres do bairro ou em condomínios fechados - passando por aquelas cujas residências são casas e apartamentos amplos, menos luxuosos porém, até as que habitam casas e apartamentos mais antigos e mais modestos, sem qualquer referência ao luxo anteriormente mencionado, localizados em áreas menos nobres do bairro.
Tabela 3: Distribuição das famílias segundo o nível de instrução do pai
Nível de instrução Nº. absoluto
Ensino médio completo 1
Ensino superior incompleto 3
Ensino superior completo 11
Pós graduação (stricto sensu) 6
TOTAL 21
Tabela 4 : Distribuição das famílias segundo o nível de instrução da mãe
Em relação à média da população brasileira, o nível de instrução dos pais dos estudantes da Fundação Torino pode ser considerado muito elevado24 pois, sobre um total
24 Ao final da década de 90, a taxa média de escolaridade dos brasileiros com idade acima de 15 anos era de 6,01 anos, segundo dados do IBGE (HASENBALG e VALLE SILVA, 2003)
Nível de instrução Nº. absoluto
Ensino médio completo 2
Ensino superior incompleto 2
Ensino superior completo 13
Pós-graduação (stricto sensu) 4
de 21 famílias, 17 genitores possuem grau superior de instrução. É de se ressaltar a extrema homogeneidade do volume de capital escolar de pais e mães.
Tabela 5 : Distribuição das famílias segundo o nível de instrução dos avós paternos
Nível de instrução Avô
Nº. absoluto
Avó Nº. absoluto
Ensino fundamental incompleto 3 4
Ensino fundamental completo 1 3
Ensino médio incompleto - 1
Ensino médio completo 4 5
Ensino superior incompleto 1 -
Ensino superior completo 10 3
Não declarou 2 5
TOTAL 21 21
Tabela 6 : Distribuição das famílias segundo o nível de instrução dos avós maternos
Nível de instrução Avô
Nº. absoluto
Avó Nº. absoluto
Ensino fundamental incompleto 1 1
Ensino fundamental completo - 2
Ensino médio incompleto 1 -
Ensino médio completo 3 13
Ensino superior completo 12 2
Pós graduação (stricto sensu) 2 -
Não declarou 2 3
TOTAL 21 21
Quanto aos avôs paternos, mais da metade atingiu o nível superior de instrução. Suas esposas, como era esperado para essa geração, apresentam grau mais baixo de formação escolar, concentrando-se nos níveis fundamental e médio do sistema de ensino.
O grau de instrução dos avôs maternos é um pouco mais alto que o dos paternos. Das 21 famílias, 14 são compostas por avôs maternos com grau superior de instrução. Entre suas esposas há uma concentração daquelas que concluíram o nível médio (provavelmente graças ao diploma de normalista). Também o grau de instrução das avós maternas apresenta uma vantagem em relação às paternas. Há entre elas maior
concentração de casos com nível médio de formação escolar e um menor número com grau de instrução elementar.
Tomados em conjunto, esses dados desenham famílias, no caso da Fundação Torino, compostas por pais e mães com alto e homogêneo nível de instrução, que foram chefiadas, na geração dos avós, por pais com nível de formação escolar também alto para o momento histórico em que foram escolarizados. A relativa vantagem no grau de instrução dos avôs e avós maternos pode estar associada ao alto capital escolar das mães, que acompanha o de seus cônjuges.
Bourdieu (1979a) assinala que a análise do nível cultural da família - do qual o grau de instrução escolar é o mais cômodo indicador – deve levar em conta não só o nível de formação escolar dos pais, mas também o dos avós, pois a antiguidade no acesso à cultura legitimada por grupos familiares distintos pode estar na origem de diferenças sutis na relação com o saber e com a escola entre indivíduos aparentemente semelhantes. Essa antiguidade, no caso das famílias da escola italiana, é marcante, haja vista a presença do nível universitário de formação escolar desde a geração dos avós.
Tabela 7 : Distribuição das famílias de acordo com a ocupação do pai
Ocupação Nº. absoluto
Profissional liberal * 7
Empresário** 6
Quadro superior do setor público 2
Quadro superior do setor privado 2
Professor universitário 1
Fazendeiro 1
Comerciante 1
Técnico nível médio 1
TOTAL 21
* Médico, advogado, engenheiro, contador, corretor
** Setores de: alimentação, construção civil, saúde, veículos, informática e fotografia
Tabela 8 : Distribuição das famílias de acordo com a ocupação da mãe Ocupação Nº. absoluto Profissional liberal * 6
Quadro superior do setor público 5
Dona de casa 5
Empresária 2
Professora da educação infantil 1
Secretária 1
Fotógrafa 1
TOTAL 21
* Médica, psicóloga, corretora, curadora de arte, professora particular de línguas
Quanto à ocupação do pai, os genitores se dividem em empresários, profissionais liberais e quadros do setor público ou privado, enquanto as profissionais liberais e quadros superiores do setor público são mais presentes entre as mães. Registram-se ainda as donas de casa, em menor número: cinco famílias em 21 investigadas.
Tabela 9: Distribuição das famílias de acordo com a ocupação dos avós paternos
Ocupação do avô Nº. abs.
Ocupação da avó Nº. abs.
Profissional Liberal * 7 Dona de casa 9
Comerciante 5 Comerciante 2
Empresário 3 Esteticista 2
Quadro superior do setor privado 1 Professora primária 2
Veterinário 1 Profissional liberal* 1
Militar (nível médio) 1 Assistente social 1
Ferroviário 1 Auxiliar de enfermagem 1
Farmacêutico 1 Costureira 1
Lanterneiro 1 Cabeleireira 1
Não declarou 1 Não declarou 1
TOTAL 21 TOTAL 21
* Advogado, médico * Psicóloga
Quanto à atuação profissional dos avôs paternos eles são, em maior número, profissionais liberais, comerciantes e empresários. As donas de casa, por outro lado, predominam entre as avós. No casos dos avôs maternos, eles são, em maior parte, profissionais liberais, e suas esposas, donas de casa.
Tabela 10: Distribuição das famílias de acordo com a ocupação dos avós maternos
Ocupação do avô Nº. abs.
Ocupação da avó Nº. abs
Profissional Liberal * 8 Dona de casa 10
Empresário 2 Professora primária 3
Quadro superior do setor público 2 Socióloga 1
Professor ens. Fundamental e médio 2 Pedagoga 1
Quadro superior do setor privado 1 Política 1
Engenheiro/ Professor universitário 1 Professora de inglês 1
Comerciante 1 Artista Plástica 1
Fazendeiro 1 Comerciante 1
Costureira 1
Não declarou 3 Não declarou 1
TOTAL 21 TOTAL 21
* Médico, dentista, engenheiro, advogado, contador
Tomados em conjunto, os dados acusam famílias em que pais e mães se distribuem entre profissionais liberais, quadros superiores e empresários e que, na geração dos avós, foram chefiadas sobretudo por profissionais liberais, mas também comerciantes e empresários.
Tabela 11: Distribuição das famílias segundo o número de filhos
Número de filhos Nº. absoluto
1 2
2 16
3 2
4 1
TOTAL 21
No que diz respeito ao número de filhos percebe-se, entre as famílias da escola italiana, uma inequívoca atitude malthusiana em que a prole fica limitada a, no máximo, dois filhos (18 casos em 21). As estatísticas nacionais apontam um contínuo decréscimo das taxas de fecundidade na população brasileira, ao longo das últimas décadas. Passamos de uma taxa média de 6,2 filhos por mulher, na metade do século 20, para uma taxa de 2,5
na década de 90 (BERQUÓ, 1998). Essa “transição demográfica” reflete-se nos casos investigados. O forte predomínio de famílias com até dois filhos constitui uma homogeneidade quanto ao controle e tamanho da prole o que, na literatura sociológica, surge associado a grupos familiares com trajetória ascendente no espaço social, para os quais tal estratégia joga um papel fundamental, sobretudo porque relaciona-se à necessidade de conter gastos para investir o máximo possível em cada filho (BOURDIEU, 1998b).
Tabela 12: Distribuição das famílias quanto à idade dos pais
Pai e mãe Entre 40 e 50 anos 14
Pai e mãe Entre 50 e 60 anos 6
Pai e mãe Entre 40 e 60 anos 1
Finalmente, no conjunto de famílias da Fundação Torino são 14 os casais com idade entre 40 e 50 anos, sendo que em três, as mães têm menos de 40 anos. Em menor número são aqueles um pouco mais velhos, de pais com idade entre 50 e 60 anos. Em um casal apenas a mãe tem menos de 40 anos e o pai tem idade entre 50 e 60 anos.