A EABH, segundo relato dos alunos e pais, pode reunir em torno de15 alunos por sala nas turmas das séries iniciais do ensino fundamental, número que diminui progressivamente, quanto mais se avança em direção ao ensino médio. Nesse caso, as turmas podem chegar a ter dois estudantes. Essa característica particular está na origem de avaliações que a associam à idéia de ensino individualizado.
E outra [entre as razões da escolha], a quantidade de alunos, que é uma educação assim ... bem ... quase que particular, porque são poucos alunos. (Mãe de aluno do ensino fundamental).
Na época os meninos estudavam na escola brasileira, que era o [nome de escola privada laica] e o [nome da escola] que, na época, estava com 48 alunos numa sala. Eu não acredito que uma sala com 40 alunos tenha condição de aprendizado perfeito ou,. pelo menos, razoável, com uma única professora. Então ... também isso pesou, evidentemente, porque lá [na EABH] era, é ainda, é uma escola muito pequena. Tem doze ... no máximo quinze alunos ... dezessete é o máximo que tem por turma. E com dois professores dentro de sala [nas séries iniciais do ensino fundamental]. (Mãe de ex-alunos do ensino fundamental)
A opção por uma escola com número reduzido de alunos é claramente fundada na demanda de atenção individualizada, vista como necessária à resolução de problemas distintos. Por um lado, aqueles relacionados à disciplina: o sistema disciplinar da EABH é tido por alguns dos pais como rígido e, portanto, eficaz na solução de conflitos dessa natureza.
E também o tipo de relacionamento que tinha entre a escola, os pais, os alunos, os professores, sabe? Porque ... eles queriam uma coisa assim, que desse mais atenção para o filho. Inclusive muito aluno problemático de outra escola, sabe? A escola às vezes não queria aceitar o aluno, porque era indisciplinado, aí ele ia pra lá , aí, num minuto já entrava no eixo. [risos]. (Mãe de ex-alunos de ensino fundamental e médio)
Tem aluno que foi pra lá [para a EABH] porque o menino era indisciplinado demais. E lá a disciplina é muito forte, por incrível que pareça. (Pai de ex-alunos de ensino fundamental e médio)
Por outro lado, a EABH surge como alternativa apropriada para filhos com dificuldades de adaptação às escolas brasileiras consideradas, em geral, exigentes no ensino, pouco atentas aos problemas de aprendizagem de cada aluno, além de excessivamente rigorosas na disciplina. Razões desse tipo estão na origem da escolha dessa instituição por famílias diferentes.
Fui na escola americana, gostei e achei uma escola menor. Ele que estava com tendência a ficar dispersivo ... eram sete alunos na sala e eles sentam num sistema ‘meia lua’, semi-círculo. Eu achei que o professor ia ter um contato mais direto e ele ia ter menos chance de ficar dispersivo. (Mãe de aluno do ensino médio)
Eu estava acostumada com escola pequena, onde o pai tem acesso ... aonde você tem o feedback do coordenador e tudo. E quando eu cheguei no [escola confessional tradicional de Belo Horizonte] eu já não tinha isso mais. Às vezes eu queria ir lá conversar ... o [nome do filho] tinha muita dificuldade, e eu não conseguia chegar. Não conseguia chegar no coordenador, não conseguia chegar a lugar nenhum. (Mãe de ex-alunos de ensino fundamental e médio)
Três aspectos compõem o interesse por uma escola com poucos alunos e turmas reduzidas: a necessidade de atenção individualizada ao aluno, a demanda de acesso amplo dos pais à escola com possibilidade de interferência direta sobre as condutas ali adotadas, tudo isso associado a um histórico de dificuldade de adaptação do estudante ao modelo pedagógico das instituições de ensino nacionais, avaliadas como desmedidamente rigorosas.
Em um desses casos, a EABH surge como opção mais adequada para apenas um dos filhos, que não se adapta à escola brasileira, diferentemente de seus irmãos. O estilo “linha dura” da instituição, o ritmo puxado, a pressão por se sair bem e os resultados não satisfatórios nas provas passam a interferir de modo negativo na auto-estima do estudante, de acordo com a mãe, que atribui a ele distúrbios de ansiedade. A situação agrava-se com a perspectiva real de reprovação, sinalizada pela escola brasileira, momento em que a mãe decide transferi-lo para a EABH.
Elas [as professoras da escola brasileira], já no final do ano, começaram a notar isso: muito dispersivo, uma queda de auto-estima, um pouco de ansiedade. Mas aí ele passou na seleção [de uma segunda escola confessional e tradicional brasileira, reputada como rigorosa] e ficou super adaptado e tal. Só que aí eu comecei a notar isso: ele que já estava com essa história, com esta auto-estima caindo e ... comendo muito, engordando muito, ficando muito gordinho e muito ansioso, ele não estava conseguindo acompanhar. [...] E chegava lá na prova e afundava. Ele estava extremamente inseguro, porque a pressão era tanta! [...] Ela [a coordenadora da escola] me chamou e falou que ele estava correndo risco de tomar bomba. [...] E meu marido é extremamente, assim, rigoroso. Ele falou: ‘Filho meu não toma bomba não!” E o [nome do filho] é um menino inteligente. Então ele tá é ... tem algum desajuste aí, de adaptação, alguma coisa. Aí um dia, conversando com ele aqui, eu falei, “Quer saber de uma coisa ...” ... eu tinha duas opções ... três, né? Na verdade, ou eu deixava ele continuar lá e tomar bomba, ou eu colocava ele numa escola fraca, para passar, que eu não estava considerando muito essa hipótese, porque eu acho que aí ia ser ... andar para trás, né, um menino que ... que tem potencial ... ou então eu colocava ele numa educação diferente, aproveitando as coisas que eu acho que... desenvolvendo aquelas coisas que eu acho que ele tem de interessante. E aí eu pensei na escola americana, porque aí eu quis mudar o enfoque do currículo, o enfoque do tipo de educação ... que eles dão. Aí ... e como lá começa em agosto, eu falei: ‘gente, vai ser assim, ideal’! Porque era setembro, era como se ele tivesse começando o ano letivo, ele vai perder seis meses só. (Mãe de aluno do ensino médio)
A escola americana apresenta-se, assim, como alternativa a uma família que, por um lado, mantém os outros filhos na escola brasileira privada, confessional e considerada rígida optando, no caso do outro filho - que não alcança os resultados escolares satisfatórios - por um ensino mais individualizado e menos severo, por uma escola vista como especialmente voltada para o cuidado e atenção individualizados
E com menos alunos na sala ele ... ele não consegue voar. Como é que ele vai bater papo, só tem sete alunos na sala? (Mãe de aluno do ensino médio)
Um exemplo muito semelhante ao relatado é o de uma família em que, no entanto, todos os filhos migraram para a EABH. A insatisfação com a escola brasileira - instituição muito similar a que atende à família citada anteriormente - leva os pais a procurar um estabelecimento que cuidasse, de maneira mais personalizada, da escolarização dos filhos, em particular de um deles, com dificuldades de aprendizagem e resultados escolares
insuficientes. Assim, a busca por um ensino mais personalizado, numa escola com turmas reduzidas, com professores que se envolvem intensa e conjuntamente com as famílias e com os problemas dos estudantes, foi definidora da escolha.
O [nome do filho] tinha uma ... uma dificuldade de interpretação que ... ele lia ... ele lia, lia, lia e não entendia nada do que ele lia. Eu falei: “[Nome do marido], tá errado, esse menino está precisando de ajuda especializada” e tudo. Aí fui conversar na escola americana e fiquei, assim, muito encantada, porque eu já tinha tido essa experiência comigo mesma, no sistema americano, e assim, eu acho que eles respeitam muito. Cada um ... cada um é um mesmo. E eles tratam os alunos lá assim ... então, se você tem uma deficiência, o seu 100% vai ser aqui, o meu 100% aqui [representa com gestos a diferença de nível, um 100% mais alto e outro mais baixo]. Então eles localizam isso e trabalham, assim, muito em equipe. (Mãe de ex-alunos de ensino fundamental e médio)
Também nesse caso, a avaliação da mãe é de que a escola brasileira estava sendo, de certo modo, nociva à formação de seus filhos pois, ao valorizar tão somente os aspectos ligados a notas, médias e rendimentos, ela acabaria por produzir insegurança e um sentimento de baixa auto-estima:
Ele ficava o tempo todo com tique nervoso [...] e comendo compulsivamente, sabe? [...] Muito! [respondendo se associa a angústia do filho à escola]. Muito! Porque ele estava fracassando, era fracasso em cima de fracasso, porque ele se esforçava e ele dava o máximo que ele estava conseguindo. Estudava, ia fazer as aulas particulares e na hora da prova ele achava que ele tinha ido bem [...]. Então, quer dizer ... ele estava fazendo ... “Gente, eu faço, faço, faço ... estudo, estudo, estudo e eu não consigo sair do lugar! Então eu sou incompetente mesmo, né?” Eu devo ser ...”. E lá [na escola anterior, brasileira], eles chamavam de burro dentro da sala [...] E aí ele quis ir para a escola [americana] e foi por isso que eu levei, sabe? E ele virou um outro menino. Ele emagreceu ... Então realmente eu notei uma diferença brutal. Acabou, tirou a pressão, tirou aquele peso do ombro dele. (Mãe de aluno do ensino médio)
Para ambas as famílias, as alternativas que se apresentaram no momento da escolha foram: manter o filho na escola brasileira, optar por uma escola designada por “pagou- passou” ou, enfim, buscar uma escola “diferente”, a EABH.
Na escola onde os meninos estudavam, no [escola confessional tradicional] eu tinha que sair com o menino do [nome da escola] direto para aula particular. Então, eu já estava ficando quase doida nessa época! Eu falava: “Gente, eu vou por esse menino numa escola que pagou- passou?!” E deixar ele no [nome da escola]?! ... Porque. .. eu não conseguia conversar com o coordenador, não conseguia nada! E o menino só ... a auto-estima do menino só piorando, piorando. (Mãe de ex-alunos do ensino fundamental e médio)
Porque eu falei: ‘Não, ele é um menino assim, ele não tem o perfil para estudar na escola que ele está estudando. Ele é um menino de muito valor, então eu não vou pegar ele e colocar em um [escola confessional tradicional, reputada por acolher alunos com dificuldades escolares] da vida não, não é isso, para passar de ano, né? Eu vou colocar ele, então, numa educação diferente. (Mãe de aluno do ensino médio)
A recusa a escolas do tipo “pagou-passou” é fundada no pouco prestígio e na baixa reputação desses estabelecimentos que, no entender das mães, contaminariam a imagem de seus filhos. Essa relação de identificação e dependência entre a imagem do estabelecimento e aquela de seus estudantes é destacada no estudo de Jay (2002) sobre as escolas privadas suíças. Para o autor, é o capital simbólico da escola que define sua posição e atratividade no campo dos diversos estabelecimentos escolares, o que depende, muitas vezes, de seu prestígio, sua notoriedade e sua reputação entre o público. A estratégia de opção por uma escola “mais apropriada” a alunos com dificuldades escolares é detectada também em pesquisas estrangeiras que analisam o tema da escolha do estabelecimento. No caso da pesquisa francesa, essas instituições são conhecidas como “établissements refuge” ou “établissements rattrapage” e apresentam características semelhantes àquelas relacionadas nos discursos analisados. São escolas reconhecidas por sua implicação no enquadramento educativo ou até psicológico de alunos com dificuldade escolar (BALLION, 1980).
Esse mesmo entendimento de que a EABH funciona como alternativa à característica mais “escolar” dos estabelecimentos nacionais, vistos como excessivamente rigorosos, está presente também em outros relatos sobre as possíveis razões da escolha de outras famílias pelo sistema americano
Os pais que têm interesse que os filhos aprendam muita coisa não mandam pra lá não [para a escola americana] porque sabem que o foco não é esse. Lá é para atender essa comunidade que passa por aqui, altos
executivos que estão em trânsito por aqui, que ficam dois, três anos e vão embora, e os filhos não podem perde o ano, né? Então ... lá não tem assim uma vocação, igual você percebia no colégio [refere-se a uma escola pública de alto prestígio no passado]34, no [refere-se a escolas nacionais privadas de prestígio] assim de ... dar aquele ensino mais tradicional e mais profundo e ... induzir um ... uma mente intelectual. (Pai de ex-alunos do ensino fundamental e médio)
Em alguns casos, a opção pela EABH aparece, ainda, como oposição a uma lógica que as famílias percebem própria do ensino nacional, demasiadamente concentrado na preparação para o vestibular.
E eu achei ... todos os colégios aqui ... 90% dos colégios, aqui no Brasil ... aqui em Minas, em Belo Horizonte, os tradicionais ... voltados para o vestibular. Hoje você tem propaganda de [escola brasileira privada laica] tal e tal, e é uma coisa só para fazer o vestibular. Não educa a pessoa para a vida e para ser feliz ... essas coisas todas. Eu não tinha aula de música ... aula de psicologia, uma coisa assim [...]. Então um dos motivos era o sistema educacional mesmo, entendeu? Achei muito ... é muito rígido [o sistema brasileiro], entre aspas, entendeu? (Pai de alunos do ensino fundamental)
A questão de um ensino mais ... tranqüilo. Uma coisa não tão voltada pro vestibular, não tão ... preparar criança pra vestibular ... uma escola que force a criança a estudar muito tempo, em função de vestibular, que é a visão que a gente tinha das escolas atuais ... tradicionais. (Pai de ex- alunos do ensino fundamental)
A crítica ao sistema nacional de ensino e, em particular, à sua suposta ênfase no vestibular, aparece acoplada, nesses casos, à crítica ao modelo mais exigente e menos “tranqüilo” - do ponto de vista escolar - dos estabelecimentos brasileiros, face aos quais a escola americana aparece como uma proposta alternativa “para ser feliz”.
Outro atrativo da EABH é a garantia de acesso amplo dos pais à escola, que surge no discurso das famílias como uma vantagem proporcionada pela instituição, como será visto no capítulo seguinte, constando também entre as razões da escolha.
A gente estar dentro da escola ... a hora que você quiser você entra, você tem o acesso, então eu acho isso muito importante. (Mãe de alunos do ensino fundamental)
34 Trata-se de uma escola estadual localizada em área nobre da cidade de Belo Horizonte, prestigiosa e concorrida, no passado, e que atendia sobretudo alunos provenientes das camadas favorecidas.
Então é um pouco mais ... é mais assim, não é tão burocrata ... é bem aberto. Porque, por exemplo, no [escola brasileira privada laica] quando você vai conversar ... eles pedem ... a professora não responde nem sim, nem não. A professora simplesmente: “Vamos marcar, por favor, você poderia se dirigir à secretaria e marcar um horário”. Ali não, na escola americana você tem condições de dialogar diretamente com o professor o problema do seu filho. (Mãe de ex-alunos do ensino fundamental)
Mais uma vez a referência às falhas identificadas nas escolas brasileiras está na base das justificativas da opção por um estabelecimento internacional. Mas, além disso, também de forma recorrente, observa-se que as vantagens reconhecidas pelas famílias e que as levam a preterir o sistema nacional de ensino não são propriamente relacionadas ao internacional.
A presença constante das famílias na escola e o controle que exercem sobre a instituição são características encontradas igualmente em pesquisas estrangeiras sobre escolas internacionais e famílias que delas se utilizam (WAGNER, 2002), ou sobre as escolas que atendem as jovens gerações de famílias francesas da velha burguesia e da nobreza afortunada (PINÇON e PINÇON-CHARLOT, 2002). Todos esses trabalhos têm em comum a relação entre o privilégio econômico que caracteriza a condição desses grupos e sua forma particular de relação e atuação com o estabelecimento que escolhem para seus filhos.