• No results found

Godin (2006, p. 639) identifica o modelo linear de inovação como uma das primeiras estruturas teóricas utilizadas para a compreensão histórica da interação entre ciência, tecnologia e economia. O modelo abrange os estágios de pesquisa básica, pesquisa aplicada e desenvolvimento, que compõem a concepção estrita, bem como, em

25

estágios posteriores, a produção e a difusão, não diretamente associadas às atividades de P&D, na concepção ampla.

A evolução do modelo linear, segundo o autor (2006, p. 640), ocorreu em três instantes. No primeiro período (até 1945), caracterizado pelo ideal da ciência pura, buscava-se uma ligação causal entre as modalidades básica e aplicada de pesquisa. Durante o segundo período (até 1960), incorporou-se o desenvolvimento à discussão, resultando no modelo de inovação padronizado, de três estágios: pesquisa básica, pesquisa aplicada e desenvolvimento. A incorporação de atividades não relacionadas a P&D ao modelo, como produção e difusão, ocorreu posteriormente, no terceiro período.

Dessa forma, o documento mais largamente associado ao modelo – Science: the Endless Frontier, de Vannevar Bush – pertence ao primeiro período de desenvolvimento do modelo. Segundo Balconi e outros (2009, p. 2-3) o objetivo de Bush, mais interessado no papel da ciência em promover o progresso humano do propriamente desenvolver um modelo de inovação, era obter apoio financeiro e institucional para a criação da National Science Foundation, nos Estados Unidos da América.

Freeman (1996, p. 27-28), ilustra a dinâmica da concepção linear de inovação como um processo agregado, que se inicia com uma descoberta na pesquisa básica e se estende pelos estágios sucessivos, passando pela pesquisa aplicada, onde se explora aquela ideia fundamental em busca de uma aplicação prática. Quando a ideia é suficientemente compreendida, segue para o estágio inventivo, ou de desenvolvimento experimental, e daí para a produção, controle de qualidade, distribuição e comercialização. Posteriormente, pode-se explorar a inovação por meio da difusão e da imitação dos conhecimentos a ela relacionados.

Salerno e Kubota (2008, p. 29-30) destacam que até o advento das perspectivas concorrentes a pesquisa básica era desenvolvida independentemente do pensamento em benefícios práticos. Cassiolato e Lastres (2005, p. 35) apontam que a discussão sobre as fontes mais importantes de inovação dividia-se entre os que atribuíam maior importância ao avanço do desenvolvimento científico e os que destacavam a relevância das pressões da demanda por novas tecnologias, como se fossem alternativas excludentes.

De acordo com Dagnino e Dias (2007), o modelo linear corresponde à ideia de que mais ciência gera mais tecnologia e que isso, por sua vez, é condição suficiente para alavancar o desenvolvimento socioeconômico. Nesse mesmo sentido, Cavalcante (2009)

26

destaca o caráter instrumental das políticas associadas ao modelo linear de inovação, uma vez que, ao gestor público, bastaria alocar recursos nas atividades de pesquisa básica, sem maiores preocupações a respeito dos transbordamentos desses investimentos para o conjunto da sociedade. A visão ofertista-linear ainda hoje mantém sua força dentro da esfera da política científica e tecnológica (KLINE e ROSEMBERG, 1986).

Para ilustrar, quando Baumgarten (2004, p. 37) trata da avaliação de pares como parte do processo de alocação de recursos para pesquisas no setor de ciência e tecnologia, e também remete ao modelo linear de inovação. A autora argumenta que esse modo de avaliação apoia-se em um conceito subjetivo, sob controle dos próprios cientistas, fundamentado basicamente na ideia de que o investimento público em ciência de qualidade resultaria em benefícios para a sociedade. Como resultado, a comunidade científica tende a ser contemplada com bastante autonomia na distribuição de recursos.

Em sentido contrário, Balconi e outros (2009, p. 10), na defesa do modelo linear, procuram associar os argumentos em favor do financiamento público para pesquisa básica à tese de que a ciência traz em si motivações e preocupações que vão além das meramente econômicas, pode possuir as características de um bem público e ser direcionada para compensar falhas de mercado, justificando a intervenção pública em áreas como a educação, saúde e defesa nacional. Complementam, ainda, com a afirmativa de que o oposto também é verdadeiro: não necessariamente uma abordagem alternativa, como a visão sistêmica, é capaz de fornecer uma solução inequívoca às implicações políticas, referindo-se à discussão do Paradoxo Europeu.

O Paradoxo Europeu é um termo utilizado para denotar a existência, naquele continente, de sistemas nacionais cujos resultados científicos são tidos como excelentes em relação aos obtidos por seus principais competidores, em contraste com os resultados tecnológicos, industriais e comerciais, pretensamente inferiores ou em declínio. A preocupação por trás desse conceito consiste na proposição de estratégias que transformem o potencial científico e tecnológico em inovações rentáveis e em vantagens competitivas.

Apesar de a veracidade do Paradoxo Europeu não ter sido plenamente verificada por Dosi e outros (2006a, p. 1462-1462), o arcabouço ideológico a ele relacionado tem sido frequentemente utilizado em argumentos contrários e favoráveis ao modelo ofertista-linear, com a discussão de que resultados satisfatórios na pesquisa básica não são necessariamente acompanhados de bom desempenho nas atividades de inovação tecnológica e industrial.

27

No âmbito dos países em desenvolvimento, Viotti (2004) aponta o contraste entre os processos de desenvolvimento científico no Brasil e no México, de natureza predominantemente passiva, e os desenvolvidos pela Coréia do Sul e Taiwan, mais ativos – relacionando-os ao fracasso ou sucesso em suas respectivas trajetórias de industrialização e de participação na produção tecnológica mundial, em relação aos países países líderes. Considerando que os quatro países elevaram significativamente suas participações na produção científica mundial, questiona o pressuposto do modelo linear de que haveria uma relação mais ou menos direta entre o nível da produção de conhecimento científico de um país e sua produção de tecnologias ou inovações.

Quanto à importância inerente do conhecimento científico, Rossoni e outros (2009, p. 35) defendem que ele “é construído socialmente e influenciado pelos pares que compõem estruturalmente a rede de relações entre as instituições.” Nesse sentido, a proximidade geográfica ou um maior grau de interação entre instituições de ensino e pesquisa podem facilitar a troca de informações, assim como a geração do conhecimento na área, uma vez que apresentam uma estrutura de relações favorável à formação de capital social. Como exemplo do cenário brasileiro, demonstram que determinadas instituições têm papel destacado, como as Universidades de São Paulo e Federal do Rio Grande do Sul, além da Universidade Estadual de Campinas, as quais apresentam maior número de colaboradores e, como conseqüência, maior interação com a maioria das outras instituições (ROSSONI e outros, 2009, p. 46-47).

Confirmando a importância dessas instituições para a pesquisa em científica, Rossoni e outros (2009) concluem que elas também atuam como elo entre os diferentes grupos, o que contribui para a continuidade dessa estrutura de relacionamento. O mapeamento das relações entre esses agentes, sistematicamente evidenciado no referido artigo, reflete a influência das ações governamentais, por meio das instituições de ensino e pesquisa, no panorama de CT&I no Brasil.

Cabe ressaltar que o orçamento do MCT contempla um volume significativo de recursos em iniciativas associadas à concepção linear. A título de exemplo, as ações “Concessão de Bolsas de Formação e Qualificação de Pesquisadores e Profissionais para C,T&I”, “Concessão de Bolsas de Estímulo à Pesquisa”, “Concessão de Bolsas de Iniciação à Pesquisa Científica e Tecnológica” e “Fomento à Pesquisa Fundamental”, em conjunto, empenharam despesas no montante de R$ 832,6 milhões em 2010.5

28