A análise empregada nesta seção é a estática comparativa dos estados estacionários de econo- mias definidas pela modificação de apenas um parâmetro estrutural.
Seja o parâmetro β do modelo, o fator que desconta o tempo para as famílias e que afeta diretamente a substituição intertemporal do consumo, conforme a equação de Euler (2.6, p. 51). Em estado estacionário, a taxa de juros livre de risco é o inverso do fator de desconto. A impaciência com relação ao futuro define a taxa básica de juros da economia. O parâmetro β fundamenta, portanto, a taxa básica de juros, donde derivam outras conexões com a economia real e com o setor financeiro.
35A análise de correlações e relações estáticas era um exercício comum em artigos de outros tempos. Mo-
dernamente a análise essencial está na dinâmica dos modelos e na capacidade explicativa para a dinâmica que é observada nos dados econômicos e mensurada por modelos autorregressivos. A partir daí, com a inclusão de rigidezes, que alteram bastante as relações estáticas, a análise estática teria apenas um papel figurante, dispensado na maioria dos artigos atuais.
O exercício compara economias com fatores de desconto diferentes. No setor real, taxas básica de juros menores (β maiores) explicam taxas de investimento maiores. Consumo, investimento e produto são maiores e, como a oferta de trabalho é igual em todas as economias, o salário real é superior, o que lidera maior demanda por crédito das firmas.
Economias com taxas de juros mais baixas têm maior estoque de capital e maior riqueza líquida, dada a relação de estado estacionário. Mas o preço do capital é menor porque os juros afetam o fator de desconto dos produtores de capital. O valor do estoque de capital a ser financiado tem o gráfico na forma de U invertido: é superior para alguns βs, mas para taxas de juros ainda mais baixas, o efeito preço supera o aumento do estoque de capital. Isso explica porque a demanda de crédito acompanha a forma de U, apesar do colateral maior. O formato da curva de crédito ao empreendedor acaba desenhando a forma da curva de crédito total da economia.
O fator de desconto intertemporal do banco é ainda maior pela dinâmica de incorporação de lucros ao capital bancário. A capitalização e o capital bancário são maiores em estado estaci- onário. Os depósitos bancários são maiores por vários motivos: i) a taxa de juros mais baixa significa maior poupança das famílias; ii) o custo de oportunidade do colchão de liquidez é menor; iii) a tecnologia bancária admite volume maior de depósitos porque a demanda de cré- dito e o capital bancário são superiores, portanto há oportunidade de ganhos acima da taxa básica, mas o lucro marginal do crédito é cada vez menor porque capital e depósitos bancários, enquanto fatores de produção, têm rendimentos decrescentes; e iv) ganhos de escala no custo operacional. Demanda e oferta de crédito são maiores, mas a taxa de juros sobre depósitos bancários de equilíbrio é menor.
O custo marginal de produção de crédito Σ é menor porque i) o custo de oportunidade dos títulos públicos é menor; ii) o custo marginal do crédito é menor, embora aumente com βs muito altos; iii) os ganhos de escopo são maiores; e iv) o lucro marginal do crédito é menor. Entretanto as taxas de juros em cada mercado de crédito têm curvas diferentes. As taxas no crédito às famílias e empreendedores são menores, o que é esperado, entretanto os juros reais para o crédito às firmas são maiores. A explicação pode ser encontrada na condição de primeira
ordem para o fator trabalho ( eq. (2.19), p. 54), uma vez que a demanda de crédito é uma fração da folha de salários. O salário real é maior porque o consumo é maior e as horas de trabalho são as mesmas para as economias de estado estacionário, então o lazer fica mais caro, conforme a equação de oferta de trabalho. Do lado da firma, a produtividade do fator trabalho é ainda maior, porque o estoque de capital é maior e as horas trabalhadas são as mesmas. A renda da firma proporcionada por ganhos de produtividade maiores que o salário real por unidade de trabalho é extraída pelo setor bancário em competição monopolística. Em outras palavras, a elasticidade-juros da demanda das firmas é menor.
A figura (2.1) calcula os indicadores propostos para essa estática comparativa. Os gráficos estão organizados em três colunas: a primeira contém indicadores de eficiência microeconômica, a segunda mostra os indicadores de resiliência financeira e a terceira coluna contém gráficos relacionados à Macroeconomia.
Sob a perspectiva macroeconômica, βs maiores e taxas de juros menores são benéficos para a economia por liderarem aumento de todos os componentes da demanda agregada, o que é explicado por maior poupança e menor consumo em termos relativos ao produto. Há mais oferta de depósitos bancários, enquanto o volume de crédito é maior até certo ponto, quando a partir daí βs maiores definem menor crédito. Isso acontece porque o financiamento externo diminui em relação às economias de taxas de juros mais elevadas por dois motivos: i) o colateral é maior e ii) o preço do capital menor suplanta o efeito do aumento do estoque, reduzindo em termos absolutos o valor do projeto de investimento. A taxa de inflação mantida igual em estado estacionário acompanhada de taxas de juros menores explicam maior retenção de saldos monetários, porque o custo de oportunidade também é menor. Aumentos absolutos de consumo, moeda e depósitos bancários garantem que as economias mais pacientes têm maior bem-estar, sob o conceito de utilidade instantânea36.
36Faz sentido aqui analisar a utilidade corrente de estado estacionário ao invés da utilidade esperada de estado
estacionáriodescontada no tempo por conta de uma peculiaridade matemática. A função utilidade é medida em logaritmo e apresenta valores negativos para argumentos menores que 1. Em estado estacionário, β maior significa menor desconto de utilidades negativas e menor utilidade esperada. Por outro lado, ao comparar duas economias com βs diferentes, a economia de famílias pacientes (β maior) tem utilidades correntes comparativamente maiores do que a economia de famílias impacientes em todos os períodos de tempo.
0.9851 0.99 0.995 0.999 1.01 1.02 1.03 Spread Bancário R/Rd Σ/R Σ/Rd 0.9851 0.99 0.995 0.999 1.005 1.01 1.015 Markup Médio 0.985 0.99 0.995 0.999 0.4 0.5 0.6 0.7 0.8 Alavancagem Bancos 0.985 0.99 0.995 0.999 0.01 0.02 0.03
0.04 Nível Crítico de Solvência
0.985 0.99 0.995 0.999 0.8 0.85 0.9 0.95 1 Exposição Bancária (1) 0.9850 0.99 0.995 0.999 20 40 60 Exposição Bancária (2) 0.9850 0.99 0.995 0.999 0.1 0.2 0.3 0.4 Lastro, K ban/L 0.985 0.99 0.995 0.999 0.35 0.4 0.45 0.5 0.55 Liquidez 0.9850 0.99 0.995 0.999 0.5 1 1.5 Agregados Y C I 0.985 0.99 0.995 0.999 0.5 1 1.5 Agregados Bancários L D 0.9850 0.99 0.995 0.999 0.2 0.4 0.6 0.8 Crédito Bancário Lj Le Li 0.9850 0.99 0.995 0.999 1 2 3 Inflação 0.9850 0.99 0.995 0.999 2 4 6x 10 −3
Utilidade de Estado Estacionário
Sob a ótica da resiliência financeira, contudo, as economias com taxas de juros menores te- rão um setor bancário menos resiliente a eventos de instabilidade financeira. É possível assim afirmar pela congruência semântica apresentada pelos indicadores da estrutura do balanço pa- trimonial do banco. Do ponto de vista da qualidade do crédito, o financiamento externo menor explica porque empreendedores trabalham com nível de solvência inferior quando a taxa de juros é baixa e por isso a perda bancária é menor para custos de monitoramento iguais. O tamanho do sistema bancário é maior, pois depósitos e capital bancários são ambos superio- res, todavia a relação entre eles é diferente. Nas economias com taxas de juros menores, os depósitos bancários aumentam mais do que o capital bancário, até porque têm produtivida- des marginais diferentes. O aumento relativo do endividamento bancário afeta a resiliência financeira porque aumenta a exposição do banco às instabilidades do passivo, quando, afora as causas do estresse, os depositantes executam os seus recursos junto ao sistema.
Os índices de Exposição revelam que (1) a composição do endividamento (fração dos recursos bancários que tem maior exigibilidade do que o estoque de capital bancário) é superior com taxas de juros menores; e (2) a razão de recursos de terceiros sobre recursos próprios é menor, o que indica menos garantias bancárias ao depositante. Concordando com maior exposição, o lastro bancário para as operações de crédito é menor em economias com juros mais baixos. O capital bancário serve como garantia aos depositantes da qualidade da administração bancária na oferta de crédito. Quando os juros são baixos, o volume de crédito aumenta mais que o capital bancário. Por sua vez, taxas menores de juros indicam sistema financeiro trabalhando com maior liquidez. É razoável pensar que os bancos estão sob retornos marginais decrescentes nos depósitos, razão pela qual a captação de recursos é maior do que a demanda por crédito, liderando reservas voluntárias maiores de moeda e títulos públicos. Em suma, as medidas da se- gunda coluna direcionam à mesma conclusão. A síntese é que as economias com taxas menores se apresentam menos resilientes a instabilidades financeiras. Observe que isso não sugere que tais economias estejam mais suscetíveis à instabilidade, porque os índices não revelam causa, apenas indicam maiores dificuldades nos recursos do banco para tratar crises, dada a suposição de que estresses financeiros existem. Acrescente-se ainda que maior ou menor resiliência de
factodepende sobretudo das características da instabilidade financeira.
Agora pela perspectiva da eficiência microeconômica, menores taxas de juros livres de risco significam taxas de juros de depósitos e custo marginal bancário mais baixos. Os spreads de captação e de oferta diminuem, fazendo também menor o spread total. Nesse sentido, o banco opera com taxas mais próximas à taxa livre de risco e isso indica menos ineficiência do setor bancário na intermediação financeira. Isso à parte, sobre o custo marginal bancário incidem os mark-upsde cada setor, que existem porque há falhas de competição. Como já foi explicado, as taxas de juros finais para famílias e empreendedores são menores, mas firmas têm taxas maiores. O mark-up médio ponderado para economias com βs maiores é sempre menor, apesar de as taxas de juros do crédito às firmas serem maiores. O que acontece é que a demanda de crédito dos empreendedores é mais sensível à mudança e aumenta a participação setorial no agregado.
Por último, a alavancagem mede a oferta de crédito realizada com o volume de depósitos ban- cários. É um indicador de produtividade do fator depósitos, maior alavancagem significa menos depósitos necessários para ofertar crédito. Não obstante, a alavancagem também pode medir resiliência financeira, porque representa um indicador de liquidez do sistema bancário. Ceteris paribus, alavancagem maior significa que o banco mantém menos ativos líquidos, como moeda e títulos públicos. Da mesma forma, o lastro que é medida de resiliência também é indicador de produtividade do fator capital bancário. Maior lastro significa menos produtividade, toda- via mais estabilidade financeira. Portanto, é intrínseco a esses dois índices o trade-off entre resiliência financeira e eficiência microeconômica. A análise estática aponta que as taxas de juros menores explicam mais depósitos bancários, ao passo que a demanda de crédito também aumenta para taxas muito baixas. Em equilíbrio, a alavancagem do sistema é menor, trazendo duas interpretações: i) as economias de juros menores têm menor produtividade no uso de de- pósitos bancários para gerar crédito; ii) todavia possuem relativamente mais liquidez no sistema bancário. A síntese para os indicadores é aguda na hipótese de maior eficiência bancária para economias com taxas de juros menores.
A análise empregada acima é válida, embora seja importante apressar duas considerações. A primeira é reconhecer o caráter comparativo comportamental do exercício, que permite a ob- servação e explicação dos conceitos apresentados e mostra como há uma interação entre eles, contidos que estão em um mesmo ambiente econômico integrado. Todavia este exercício tem limitada capacidade de generalização das conclusões. Como antes sugerido, o objetivo é sim- plesmente observar as propriedades do estado estacionário.
A segunda observação refere-se ao parâmetro escolhido e sua natureza comportamental. Ainda que os canais de transmissão estejam expostos, a ligação direta entre o parâmetro e as taxas de juros, instrumento de política monetária, é uma prerrogativa do estado estacionário. A alteração de um parâmetro estrutural não é objeto de política econômica de curto prazo. As re- comendações de políticas sempre perseguidas na leitura de textos macroeconômicos não serão oferecidas pela análise estática.