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Para o arranque da reforma do teatro a colaboração de Émile Doux fora, para todos os efeitos, fundamental e Garrett reconheceu-lhe o mérito ao confiar-lhe a encenação do seu texto Um auto de Gil Vicente (15.08.1838, TRC), o drama histórico com que, nas palavras de Luís Francisco Rebello, “se inaugura em 1838 o romantismo na cena portuguesa” (Rebello, 1997b: 138). Em breve, porém, um volte-face político alterou o rumo das coisas. Em Abril de 1839 caiu o governo setembrista, a que sucederam governos de maior ou menor pendor cartista, até culminar no movimento de centro-direita de Costa Cabral que, em 10 de Fevereiro de 1842, repôs a Carta constitucional de 1826. Arrastado nesse processo, Garrett foi exonerado de todos os cargos públicos, incluindo o de Inspector-Geral dos Teatros (por decreto de 16 de Julho de 1841). Entretanto, em meados de 1839 o Teatro da Rua dos Condes passava para a empresa do Conde de Farrobo. Doux manteve-se à frente da direcção mas o repertório passou a incidir sobretudo sobre traduções francesas e a partir de 1841, lado a lado com as obras dramáticas, começaram a ser apresentadas óperas cómicas de Auber, um género que aos olhos dos setembristas deturpava completamente a função de Teatro Normal assumida pelo Condes.

Foi neste contexto que Joaquim Casimiro foi contratado pelos empresários João Cândido de Carvalho e José Vicente Soares, da Associação Gil Vicente, para o cargo de director de orquestra36 do Teatro do Salitre37. Os elementos desta Associação,

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O termo “Director de orquestra” surge explicitamente no anúncio de imprensa a duas peças: “[…] O

peão fidalgo, comedia em 3 actos, e Pecados velhos, farsa em 1 acto, em beneficio do Director de

orchestra, Casimiro. Os intervalos serão preenchidos por diversas sinfonias, arias e duettos cantados pelos irmãos Zaragoza, discipulos do beneficiado. A orchestra será augmentada com alguns Professores em obsequio do mesmo” (R, 2.06.1842).

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ensaiados pelo italiano Perini de Lucca, pretendiam que o Salitre desempenhasse o papel de teatro nacional que o Teatro da Rua dos Condes, cada vez mais virado para o repertório estrangeiro, já não cumpria.

Sob a presidência do Dr. P. Midosi se installou em Lisboa uma Sociedade Dramatica denominada – de Gil Vicente – o seu fim, segundo parece, é nacionalizar o Teatro: o do Salitre […]. (RUL, 7.04.1842)

O nome da companhia era todo ele um programa:

Desgostosos pelo estado em que viam o nosso theatro nacional, algumas pessoas se lembraram de criar uma Companhia, que pudesse dar impulso á Arte Dramática tão bella quanto infeliz na nossa pátria; não só respectivamente á parte litteraria, animando com as representações dos seus dramas o tirocinio de nossos poetas dramaticos, mas também pelo que toca a parte artistica formando uma escola para exercicio dos que a ella se dedicam. […] O pensamento eminentemente nacional dessa associação transluz logo na denominação que adoptou. O nome do nosso primeiro poeta dramático e juntamente primeiro actor, o pai de uma escolla que podia ser nacional […]. GIL VICENTE enfim, […] foi esse o nome convenientemente escolhido para servir de estandarte á restauração do theatro nacional. (R, 28.05.1842).

Esta empresa teatral em actividade desde Maio de 1841, retomava no nome, nalguns dos membros e sobretudo na sua proposta uma outra Associação Gil Vicente que funcionara no mesmo teatro de 1838 a 1839, sob a direcção de Frutuoso Dias e com o envolvimento de Midosi, Perini e Alexandre Herculano, que aí fizera representar o seu drama O fronteiro de África (Santos, 1985: 486).

O mistério Roberto do diabo (9.04.1842) constituiu a primeira produção da companhia a merecer da imprensa uma mensão ao compositor da casa, Joaquim Casimiro. O facto de o texto não ser original português mas uma adaptação de Perini

do libreto da ópera de Meyerbeer não mereceu reparo. Quanto ao resto, “Os Coros houveram-se menos mal, e quando se diminuirem as partes cantantes do coro infernal melhor effeito se produzirá. A musica é do sr. Casemiro, e seu nome basta para fazer o seu elogio.” (RS, 11.04.1842).

Paradoxalmente, a esta obra não se seguiu um texto “dos nossos poetas dramáticos” mas outra tradução, O peão fidalgo38 (4.05.1842), uma comédia adaptada

do original Le bourgeois gentilhomme de Molière, para a qual Casimiro compôs os coros e um bailado. No entanto, os jornais foram no seu todo elogiosos e se teceram alguns comentários simpáticos à música, era sobretudo à companhia que dirigiam a atenção. A Revolução de Setembro, referindo-se à “composição do senhor Casemiro” como “musica reputada e de bom gosto”, congratulou vivamente o ensaiador César Perini, a adaptação reduzida de Manuel de Sousa (1737-?) do texto, a prestação dos actores e a capacidade da empresa Gil Vicente em reabilitar o Salitre e trazer a ele o público “mais distinto” (RS, 7.05.1842). Nesse aspecto, o periódico Revista Universal

Lisbonense foi mais expansivo: “Já fallámos neste Theatro, e sempre delle com gosto

fallaremos, porque Portugueza é a sua empreza, Portuguezes seus actores, e Portuguezes seus fins”. Passando por cima do facto de não ser um produto nacional, “O peão fidalgo agradou-nos.” Tinha, além disso, “coros de gosto aprimorado e assaz bem executados” (RUL, 11.05.1842).

O autor da crítica era José Feliciano de Castilho, irmão do dramaturgo e poeta António Feliciano de Castilho, fundador e redactor da mesma revista onde colaboravam também Alexandre Herculano, Almeida Garrett, Luís Augusto Palmeirim, Visconde de Sá da Bandeira, Ramalho Ortigão, Andrade Corvo, Silva Leal, Mendes Leal Júnior, enfim, toda uma plêiade de escritores, intelectuais e dramaturgos ao serviço da causa liberal. Assim, se parece algo excessivo o elogio à iniciativa nacionalista quando, até essa data, as duas únicas produções da Associação Gil Vicente eram adaptações de obras estrangeiras, compreende-se que qualquer motivo era suficiente para enaltecer o “todo português” do Teatro do Salitre quando o outro palco da capital, o auto-

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SOUSA, Manuel de, O peão fidalgo, comedia (trad.), Lisboa, Off. de Joseph da Silva Nazareth, 1769; nenhum exemplar da música foi encontrado.

denominado Teatro Nacional e Normal da Rua dos Condes, apresentava desde há um ano sucessivas óperas cómicas francesas – numa clara traição à sua vocação de teatro de declamação – de tradução duvidosa, mal desempenhadas e dirigidas pelo estrangeiro Émile Doux. Praticamente toda a imprensa alertava para o mesmo:

A Empreza do Theatro-Normal, depois de nos haver triturado por algum tempo com o infernal Fra-Diavolo39, e com o ventriloquismo do Sr. Ibarra, deu-nos finalmente […] a linda comedia – A Calumnia – do engenhoso Scribe. […] São peças desta qualidade que se devem apresentar em um theatro subsidiado, e não Operas comicas. As quaes, alem de se não poderem ouvir por serem pessimamente desempenhadas, são em geral um apontado de rodilhas, que ninguem é capaz de entender. (EP, 27.10.1842).

Ha muitos mezes, que o nosso theatro não se alimenta senão de traducções exclusivamente francezas; e ainda não satizfeito com tão desassisada contravenção da conveniencia nacional, quiz-nos o seu director introduzir sob e subrepticiamente, o genero-monstro do theatro d’opera-comica! Se possivel fosse afrancezar em gosto, costumes e viver, a nação portugueza, certo ficâmos que o theatro da rua dos Condes levaria a palma nessa missão progressiva do socialismo cosmopolita! (...) Tudo isto é a consequencia de ser um estrangeiro quem preside ao theatro-nacional! (R, 30.11.1842).