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Apesar de alguns autores, como Araújo (2006), apontarem anecessidade de produção de materiais didáticos específicos para os diferentes níveis e graus de ensino, em decorrência da publicação da Lei nº 10.639/03, é possível perceber, graças ao pequeno número de trabalhos encontrados que se voltam a esta temática, que esta produção não ocorreu, ainda, de forma suficiente. Oliveira (2010) tem a mesma percepção, pois, afirma em sua dissertação que, apesar da grande quantidade de informações existentes na cibercultura, existem “graves lacunas informacionais em relação à disseminação e democratização da informação sobre a história e cultura dos sujeitos afrodescendentes” (p. 23), opinião esta, aliás, partilhada, também por Barros (2013).

Esta carência de informações se deve, em grande parte a, já citada, “invisibilidade” das questões étnico-raciais e do negro, especificamente. Nas palavras de Oliveira (2010), a ausência de memória sobre os afrodescendentes se deve a “política tecnológica e científica de esquecimento do que eles produzem” (p. 69), disseminando apenas informações relacionadas ao escravismo. Para Aquino et al. (2010), ainda hoje, se reproduz o modelo vigente no final do século XIX em que é negado o direito à voz dos negros e de outros grupos discriminados, empurrando-os “para a periferia da Sociedade da Informação” (p. 122). Outra possibilidade

para esta baixa produção, no caso específico da EAD, pode ser o preconceito existente sobre a possível inadequação desta modalidade de ensino para o tratamento da temática que, segundo esta visão, mais do que ensinada deveria ser vivenciada nas práticas sociais. Barros (2012; 2013), ao apontar esta situação, acredita que caso se utilize um modelo colaborativo de EAD, o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira pode, sim, ocorrer.

Deve-se, entretanto, entender esta carência, como um grande desafio para que se produzam pesquisas e produtos que preencham esta lacuna, ou seja, que se disseminem informações étnico-raciais, pois, estas podem “mudar o estado de conhecimento atual de sujeitos negros/as e não negros/as para um novo estado de conhecimento ajudando a exercer um melhor comportamento dos sujeitos para uma interação inter-étnica mais igualitária” (AQUINO et al., 2010, p. 122). Mesmo porque, como destaca Barros (2012), o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira a distância, por exemplo, pode, graças à utilização do ciberespaço apresentar novas possibilidades e formas de reconhecimento de sua importância. Estas produções têm aumentado, também, muito em virtude de grupos de estudos e pesquisas que se dedicam a esta temática, bem como, aos diversos órgãos do governo federal e a alguns militantes do Movimento Negro brasileiro, mas, que ainda não são, na opinião de Oliveira (2010), devidamente visibilizadas. Aquino et al. (2010), ao analisarem a produção científica das universidades públicas brasileiras sobre a temática étnico-racial, classificam esta evolução como tímida e insuficiente.

Desta forma, quando se busca, então, estudos que relacionem o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira às tecnologias educacionais digitais, conforme verificado anteriormente, pouco se encontra. Apesar disso, destacamos novamente o pensamento de Oliveira (2010) para o qual há a necessidade de produção de informações étnico-raciais com recorte afrodescendente como uma possibilidade da efetiva aplicação das Leis nº 10.639/03 e nº 11.645/08. Uma característica básica deste tipo de informação é que ela visa “a reparação de um passado histórico da população africana, repetível no presente contra os afrodescendentes” e tem um “conteúdo capaz de identificar a discriminação racial, propor soluções e ajudar a resolver os problemas sociais do mundo com a disseminação da informação” (AQUINO, 2010, p. 33).

Podem ser citados como trabalhos que tratam desta temática os produzidos por Oliveira (2010), que analisa tecnologias educacionais voltadas ao assunto, além dos de Barros (2012; 2013) sobre cursos de EAD voltados para o ensino da História e Cultura Afro- Brasileira. Passaremos, agora, dada a proximidade destes estudos com o escopo desta pesquisa, a descrever as principais contribuições destes estudos para a elaboração desta tese.

O trabalho de Oliveira (2010) se volta à análise do projeto educativo “A cor da cultura”, que pode ser considerada uma grande exceção à pequena utilização das tecnologias no tratamento das questões étnico-raciais. Este projeto, segundo BRASIL (2009), tem como finalidade oferecer, aos professores, “ferramentas educativas que apoiem os processos de ensino-aprendizagem sobre a história africana e afro-brasileira” (p. 152). As ferramentas utilizadas por este projeto são, basicamente, recursos audiovisuais que são disponibilizados tanto pela internet, por meio do site www.acordacultura.org.br, quanto por um kit educativo disponibilizado e enviado, gratuitamente, às escolas que o incluam em seus projetos pedagógicos.Este projeto tem como um de seusprodutores o canal Futura e foi indicado pelo Guia de Tecnologias Educacionais 2009 do MEC, como tecnologia educacional inovadora na categoria Diversidade e Educação de Jovens e Adultos (BRASIL, 2009). Segundo Santos (2007), a Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre aproveitou-se da parceria e participação neste projeto na formação das escolas e dos professores sobre a temática étnico- racial.

Oliveira (2010), ao analisar o impacto do Projeto “A cor da cultura” percebeu que os professores e alunos, após “o acesso e uso da informação etnicorracial” (p. 125) contida no projeto, apresentaram-se “mais sensíveis à necessidade de eliminação de práticas de discriminação, preconceito e racismo” (p. 125). De qualquer forma, é necessário que se tome cuidado, pois se, por um lado, as tecnologias podem ter este uso, por outro, como alerta Aquino (2013) “podem ser acessadas e utilizadas para o exercício de atividades ilícitas e antigas discriminações e racismos que ferem o sentido da moralidade e da ética” (p.63). Por isso, é extremamente necessário que se verifique as possibilidades abertas pelas TIC no desenvolvimento de metodologias que consigam resolver problemas tão antigos quanto o preconceito e a discriminação.

Os estudos de Barros (2012; 2013) investigaram, a exemplo da presente tese, as implicações de um curso a distância para a formação para o ensino de História e Cultura Afro- Brasileira. Entretanto, o caso estudado pela autora diferencia-se bastante do aqui proposto por se voltar à análise de um projeto de formação continuada, bastante abrangente, de professores das redes públicas do Estado da Bahia, ao passo que este se volta a um número limitado de estudantes e licenciados, exclusivamente em Educação Física. Apesar destas diferenças, os estudos de Barros (2012; 2013) trazem grandes contribuições ao desenvolvimento desta tese por apresentar, a partir do curso por ela analisado, os limites e as possibilidades do ensino da História e Cultura Afro-Brasileiras a distância.

Finalizada esta revisão de literatura, passa-se, agora à apresentação e discussão dos resultados obtidos no desenvolvimento da pesquisa.

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

Inicia-se, agora, a descrição e análise dos principais resultados encontrados a partir do desenvolvimento do curso de extensão a distância: “Introdução ao ensino da História e Cultura Afro-Brasileira: possibilidades de ensino por meio do atletismo”. Com a intenção de aperfeiçoar a compreensão dos dados obtidos, optou-se por realizar a discussão de cada um dos resultados, logo na sequência de sua apresentação.