Em Gutiérrez Bottaro (2002), procuramos saber o porquê da variabilidade
presente no português uruguaio e concluímos que esta se deve a fatores
externos (situação político-social do PU na região) e a fatores internos (a base
portuguesa também apresenta variabilidade, há mecanismos cognitivos que
subjazem ao seu desenvolvimento, como transferência e permeabilidade).
Quanto aos fatores externos, o modelo da sociolinguística serviu para
entender melhor os fenômenos de bilinguismo, diglossia, mescla linguística e
mudança de código, presentes na região e quanto a presença desses fenômenos
afeta ambos os sistemas e, por conseguinte, a variabilidade no PU.
No que se refere aos fatores internos, baseados nos estudos de
aquisição/aprendizagem de segundas línguas, observamos, tal como já
antecipamos, que o PU
19, apresenta alguns mecanismos cognitivos semelhantes
aos das interlínguas de aprendizes de língua estrangeira, como a transferência e
permeabilidade.
19 Cabe ressaltar novamente que na nossa pesquisa de Mestrado adotamos o termo DPU, e que atualmente, a partir de
Carvalho (2003) e de nossas reflexões, apontadas no capítulo anterior, passamos a denominar a variedade falada na região fronteiriça de português uruguaio (PU).
A constatação desses mecanismos semelhantes nos levou a questionar-
nos como os falantes bilíngues marcam os parâmetros quando adquirem duas
línguas, sobretudo tendo uma delas as características que tem o PU. A resposta a
essa questão nos levou a procurar uma teoria de natureza biológica e mentalista,
uma vez que o nosso objetivo maior é entender como se desenvolve a aquisição
desses dois sistemas linguísticos na mente-cérebro dos bilíngues e, mais
particularmente, desses bilíngues, que possuem um tipo de bilinguismo muito
particular, dado que uma das línguas é uma língua resultante do contato de duas
línguas, sendo uma delas muito estigmatizada.
Nesse sentido, acreditamos que o Modelo da Gramática Gerativa e o
quadro teórico dos Princípios e Parâmetros possam nos ajudar a responder as
perguntas que nos formulamos neste estudo.
Segundo Kato (1997:03), o programa gerativista tem como objeto de
estudo “o conhecimento inconsciente da língua”. O homem usa a língua de forma
inconsciente porque ele se vale do “conhecimento automático do sistema
computacional da língua” e não da “internalização inconsciente de hábitos”, como
acreditavam os estruturalistas.
A gramática gerativa, de natureza mentalista, tem como objeto de estudo o
sistema de regras e princípios radicados na mente humana. A preocupação com o
problema da aquisição da linguagem e o seu aspecto psicológico aparece desde
os primeiros estudos de Chomsky (1959), no conhecido trabalho crítico e
revolucionário que realiza sobre Skinner (1957). O programa de investigação da
Gramática Gerativa, segundo Chomsky, (1988a, apud R
APOSO, 1992:27) pode ser
definido por meio de quatro grandes questões:
1. Qual é o conteúdo do sistema de conhecimentos do falante de uma
língua particular? O que existe na mente desse falante que lhe permite
falar/compreender expressões nessa língua particular e ter intuições de
natureza sintática e semântica sobre a sua língua?
2. Como esse sistema de conhecimento se desenvolve na mente do
falante? E que tipo de conhecimentos a criança traz para o processo de
aquisição?
3. Como o falante usa em situações discursivas concretas o sistema de
conhecimentos adquirido?
4. Quais são os sistemas físicos no cérebro do falante que servem de
base ao sistema de conhecimentos lingüísticos?
Segundo Raposo (op.cit.: 28:30), a respeito da questão (1) – o que existe
na mente do falante que lhe permite falar, compreender e ter intuições de
natureza sintática e semântica sobre a sua língua? –, as pesquisas gerativistas,
nos últimos vinte anos, têm apontado que a gramática interiorizada possui um
dicionário mental das formas da língua e um sistema de princípios e regras
que atuam de uma forma computacional sobre essas formas. O sistema de
princípios e regras vai construindo representações mentais constituídas por
combinações categóricas das formas linguísticas. Essa gramática é considerada
como um sistema autônomo, uma vez que os seus princípios e representações
lhe são próprios. Também é independente de outros sistemas conceituais da
mente humana, como por exemplo, princípios de conversação, de formação de
conceitos, etc. Denomina-se esta forma de organização da mente humana de
modular, pois esta formada por módulos autônomos com características e
representações específicos. Os módulos comunicam-se e interagem entre eles.
Desse modo, a mente humana possuiria diversos módulos: o módulo linguístico, o
matemático, o musical, o de formação de conceitos, etc.
Para Fodor (1983, apud, L
ICERAS, 1996), a gramática gerativa representa a
linguagem como um módulo autônomo da mente. Para ele, os módulos são
sistemas cognitivos especificados a nível inato, com uma informação não
intercambiável com outros sistemas. Essa estrutura neuronal está associada com
a percepção e com a linguagem, mas não com o pensamento. O pensamento
está ligado aos sistemas do cérebro, nos quais os neurônios conectam-se
livremente, sem que exista uma associação entre a forma e a função. Karmiloff-
Smith (1992, 1994, apud L
ICERAS, op.cit), ao contrário de Fodor, propõe que a
modularidade é uma consequência do desenvolvimento cognitivo e não um a
priori, isto é, sistemas especificados em nível inato.
A resposta à questão três, conforme Raposo (op. cit.), está relacionada
com a distinção que Chomsky (1965) realiza entre competência e performance.
Por competência, entende-se a gramática internalizada, ou seja, o conhecimento
mental puro que o sujeito possui de uma língua particular; por performance (ou
desempenho), entende-se o uso concreto da linguagem em situações de fala
determinadas. O que o programa procura responder com a questão 3 é descrever
como os falantes usam a competência em situações de performance por meio da
interação com fenômenos de natureza social, psicológica e discursiva. Raposo
(op.cit.:31) exemplifica essa interação dizendo que: “...a atenção e a memória
podem provocar erros de competência....” Assim como também “...as mudanças
de plano discursivo, as hesitações, o gaguejar, etc., são outros fatores que afetam
o resultado gramatical das expressões enquanto reflexo da competência.”
No que se refere à questão 4, o programa tem se preocupado em
investigar sobre a relação existente entre língua e cérebro, isto é, a relação entre
os mecanismos neuronais e o conhecimento gramatical. O estudo das afasias faz
parte desta área de investigação. Conforme Raposo (op. cit.), os estudos da
mente e do cérebro sem dúvida se complementam, porém estão em planos
diferentes e nenhum pode se reduzir ao outro. Nesse sentido nos diz (op. cit: 34):
A mente, nesta perspectiva, é o conjunto de propriedades abstractas dos sistemas físicos do cérebro, e a compreensão destas propriedades passa necessariamente pelo uso de conceitos (em particular o conceito de representação) independente dos mecanismos materiais postulados ao nível do cérebro.
A questão 2, conforme Raposo, é fundamental para o programa de
investigação gerativista, tanto do ponto vista filosófico/epistemológico como do da
teoria gramatical.
Na história do pensamento linguístico, os estudiosos da língua têm se
preocupado em responder uma grande questão: em que consiste a aquisição da
linguagem e qual é o papel específico da mente e do meio nesse processo? Por
um lado, temos a tradição empirista e o behaviorismo norte-americano que
entendem que a aquisição é determinada por causas externas, isto é, pelas
experiências e interações que as crianças têm com os adultos no seu meio
ambiente. O defensor máximo dessa corrente de pensamento é o psicólogo
americano Skinner (apud, R
APOSO, 1992:35), para quem a aquisição de uma
língua consiste na “aprendizagem de hábitos de comportamento verbal através
de processos de observação, memorização, generalização indutiva, associação,
etc.” Para essa corrente, a linguagem é um processo de aprendizagem, adquirida
pela mente, por meio de práticas externas. O ensino explícito e a prática são
essenciais para a fixação dos conhecimentos adquiridos. A mente humana teria
um papel secundário no processo de aquisição e possui somente princípios de
inteligência gerais que sustentam a capacidade de fazer generalizações e
associações; não se acredita que na mente existam estruturas especificamente
dirigidas para a aprendizagem das línguas.(R
APOSO, 1992:35).
A corrente racionalista é a que defende o papel central da mente no
processo de aquisição da linguagem, cujo representante máximo é N. Chomsky.
Segundo Raposo (1992: 35-36), esta perspectiva acredita que:
As propriedades centrais da linguagem são determinadas por princípios e estruturas mentais de conteúdo especificamente lingüístico, as quais funcionam como uma espécie de ‘planta arquitetônica’ no processo de aquisição, dirigindo o desenvolvimento lingüístico num sentido predeterminado. Estas estruturas mentais pertencem exclusivamente à espécie humana e são geneticamente determinadas, ou seja radicam na organização biológica da espécie.