O trabalho de Frota (2000) traz um amplo estudo sobre as relações existentes entre a estrutura prosódica, a estrutura entoacional e o foco no Português Europeu. A autora analisa desde questões de sândi e colisões acentuais no nível da sílaba e da palavra prosódica até questões de focalização ligadas aos constituintes superiores da hierarquia prosódica, e ainda propõe, a partir de Nespor e Vogel (1986), algoritmos de boa formação dos constituintes prosódicos sintagma fonológico () e sintagma entoacional (I), no PE:
(45) Sintagma Fonológico () no PE:
a) é formado por um núcleo lexical (XLex = N, V, A, Adv) e todos os elementos do seu lado não-recursivo, dentro da projeção máxima da XLex.
b) Condições de ramificação (ou peso) nos s: um deve conter, preferencialmente, mais material do que uma única palavra prosódica (ω).
c) se houver a associação de um acento tonal ao , o acento recairá sobre o núcleo de , que é o elemento mais à direita.
(46) Sintagma Entoacional (I) no PE:
a) é formado por todos os s da cadeia que estão ligados a uma estrutura sintática arbórea;
b) engloba também os s adjacentes ligados a uma mesma frase-raiz; c) os constituintes incluídos em um I devem possuir uma relação núcleo/ complemento.
d) Condições de peso nos Is: sintagmas fonológicos longos tendem a ser divididos em s balanceados ou, o mais longo na sequência tende a assumir a posição mais a direita de I, preferencialmente (posição proeminente neutra).
Além das regras de boa formação dos constituintes superiores e I, Frota investigou também as diferenças acústicas, sobretudo duracionais, que os caracterizam. Dentro deste quadro, interessa-nos, particularmente, o capítulo 4 de Frota (2000), onde a autora examina a intensidade das fronteiras de e I no PE, principalmente o alongamento final dos constituintes.
Frota afirma que a intensidade (no sentido de marcação reforçada) e o tamanho (no sentido de pertencente a níveis hierárquicos diferentes) de uma fronteira podem ser marcados por dados temporais (duracionais), como: (i) o alongamento pré-fronteira de segmentos finais, (ii) pausas, definidas como a interrupção momentânea do sinal da fala e (iii) alongamentos pré-pausas que tratam do alongamento dos elementos finais induzido pela presença de uma pausa; e por dados melódicos (tonais), como: (i) o movimento de pitch, geralmente definido em termos de uma escala local de variação, (ii) picos e/ou vales de F0 nas adjacências de fronteiras e (iii) a restauração de F0 imediatamente após a fronteira.
No capítulo 4 On Boundary Strength, acima referido, Frota (2000) conduziu um experimento que visou investigar: se o alongamento final é uma propriedade das fronteiras de sintagmas fonológicos e/ou entoacionais no PE,
e se o alongamento final e eventualmente outra pista temporal ou melódica refletem o status hierárquico das fronteiras prosódicas. O material experimental usado por Frota consistiu em um conjunto de sentenças em que a palavra-teste ocorria imediatamente antes: de uma fronteira de ω, de uma fronteira de e de uma fronteira de I. As palavras-teste eram nomes (N) (“subida” e “nível”) e adjetivos (A) (“progressiva” e “actual”) que podiam aparecer na ordem NA ou AN sem que houvesse mudança de significado; e palavras que podiam se comportar ora como nomes, ora como adjetivos (“cubano” e “cego”). Vejamos, abaixo, um esquema com exemplos das frases experimentais nas condições testadas:
(47) a)...(Nω)...] / ...N] /
[[Espera-se uma descida] [(do nívelω) actual] [da inflação]]I [[Espera-se uma descida] [do actual nível] [da inflação]]I (47) b)...(Aω)...] / ...A] /
[[Espera-se uma descida] [(do actualω) nível] [da inflação]]I [[Espera-se uma descida] [(do nívelω) actual] [da inflação]]I
As palavras na posição de fronteira de I foram testadas em mais três condições: em fronteiras de I seguida de I-curto, seguida de I-médio e seguida de I-longo, como nos exemplos abaixo:
(47) c)...N]I I-curto /...N]I I-médio / ...N]I I-longo
[O actual nível]I [segundo dizem]I-curto [corresponde à inflação na Europa]I
[O actual nível]I [segundo dizem os jornais]I-médio [corresponde à inflação na
Europa]I
[O actual nível]I [segundo dizem os analistas económicos]I-longo [corresponde à
inflação na Europa]I
(47) d)...A]I I-curto /...A]I I-médio / ...A]I I-longo
[O nível actual]I [segundo dizem]I-curto [corresponde à inflação na Europa]I
[O nível actual]I [segundo dizem os jornais]I-médio [corresponde à inflação na
Europa]I
[O nível actual]I [segundo dizem os analistas económicos]I-longo [corresponde à
inflação na Europa]I
O material analisado somou 28 sentenças experimentais que foram lidas, em 3 repetições, por 3 falantes do PE Standard26. Com relação à análise
duracional das palavras-teste, em suas determinadas posições experimentais, a pesquisadora mediu a duração da vogal acentuada; a duração da sílaba acentuada; a duração da vogal pré-fronteira; a duração da sílaba pré-fronteira e a duração total da palavra. A duração dos elementos (sílabas e vogais) foi considerada proporcionalmente à duração total da palavra. Para determinar se houve alongamento do elemento na posição de fronteira de e de I, a duração proporcional deste elemento foi comparada com a duração proporcional do mesmo quando a palavra-teste estava na posição de fronteira de ω. Vejamos, em um exemplo a metodologia de análise aplicada:
(48) [uma subidaω progressiva] x [uma progressivaω subida]
No exemplo 48 acima, as durações das sílabas tônica e pós-tônicas (pré- fronteira) do adjetivo “progressiva” foram medidas nas duas posições: fronteira de ω e fronteira de e comparadas proporcionalmente à duração total da palavra. Este mesmo procedimento foi adotado para medir e comparar as durações dos elementos nas posições de fronteiras de e de I.
A pesquisadora encontrou como resultado, sem detalharmos os dados obtidos e as análises, uma variabilidade muito grande, no que diz respeito às marcações tonais e duracionais produzidas nas fronteiras de ω e , tanto nas análises inter-sujeitos como nas análises intra-sujeitos. Não houve diferenças duracionais significativas dos elementos em posição de fronteiras de ω ou de , mostrando que, diferentemente de outras línguas, o alongamento final não é uma propriedade que define os sintagmas fonológicos do PE. Este resultado está em desacordo com a ideia central da hierarquia dos constituintes prosódicos que prevê o fortalecimento das fronteiras dos constituintes à medida que se eleva o nível hierárquico. No entanto, no que diz respeito aos sintagmas entoacionais, Frota encontrou um alongamento consistente e significativo da sílaba tônica da palavra em posição de fronteira de I, independentemente da posição da tônica na palavra (nas palavras-teste a tônica podia estar em posição inicial da palavra, como em “nível”; na posição medial das palavras, como em: “subida” ou na posição final, como em:
26Variante do Português Europeu falado na região de Lisboa
“actual”). A sílaba pós-tônica em posição pré-fronteira, por sua vez, só sofreu alongamento quando a fronteira de I em questão era seguida por pausa silenciosa. A pesquisadora encontrou, também, um aumento do alongamento quando o elemento estava na fronteira de I que precedia um I-não curto. O aumento sobre o alongamento, no entanto, não é gradual; é binário, pois a diferença se dá na relação entre I-curtos e I-não curtos (I-médios e I-longos).
Para concluir, Frota (2000, p. 209) afirma que o alongamento pré-fronteira é uma propriedade caracterizadora dos sintagmas entoacionais no PE. Este constituinte prosódico é caracterizado, também, pela presença de um acento tonal nuclear e um tom-fronteira e suas margens constituem o local potencial para a inserção de pausas. Além disso, pistas melódicas e duracionais servem para distinguir entre dois tipos de fronteiras de Is: uma fronteira de I fraca, que pode ser alavancada pela presença de um I-curto; uma fronteira de I forte, que frequentemente ocorre seguida de um I-não curto. A distinção entre os dois tipos de fronteiras se dá, não só pela porção de alongamento pré- fronteira, mas também pelas diferenças entre os picos de F0 e o range de F0 encontrados. Há, dessa maneira, um grupo de propriedades prosódicas, melódicas e duracionais, que identificam os sintagmas entoacionais e corroboram a sua importância como elemento distintivo no PE.