4.3.1.1 No Português Europeu
A realização prosódica da leitura Garden-Path e da leitura de reanálise das frases na versão EC, no PE, diferem entre si, principalmente, no que diz
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As frases-estímulo foram codificadas com números e com as letras “a” e “b” que se referem a primeira e segunda leituras (por isso temos um par), respectivamente.
respeito ao local da marcação da fronteira de sintagma entoacional intermediário (I), e no número de acentos tonais de sintagmas fonológicos () atribuídos.
Na ilustração abaixo temos um exemplo do padrão entoacional mais encontrado na primeira leitura das frases na versão EC. O acento tonal nuclear de I está na sílaba tônica do SN em posição ambígua e é de natureza H+L*, seguido por um tom fronteira H%. A execução prosódica da frase é iniciada por um “H inicial” (como foi previsto por Vigário, 1998) e encontramos apenas um acento de . 50 50 110 170 230 290 350 F 0 (H z) 0 0.5 1 1.5 2 2.5 3
Enquanto Gil caçou os coelhos correram pelo bosque com medo
H* (H)L* H+L* H% H H+L*L%
Ilustração 1: Sentença 41 PE, versão EC, 1ª leitura. Exemplo do acento tonal H+L* na tônica do SN, seguido de H%, sem pausa entre os Is.
Na leitura Garden-Path, os informantes fecham o primeiro sintagma entoacional após o SN ambíguo, tal marcação prosódica é feita pelo acento tonal H+L* em cerca de 95% dos casos, recaindo sobre a tônica do nome nuclear do SN e por um tom fronteira alto (H%) em cerca de 72,7% dos casos. A leitura do segmento seguinte ao SN, o SV da segunda oração, possui algumas marcas prosódicas de hesitação como; repetição de segmentos e/ou sílabas e pequenas pausas silenciosas entre segmentos. Na primeira leitura encontramos a realização de 31 acentos de sintagmas fonológicos (), número este que pode ser considerado elevado, uma vez que o PE faz pouco uso do acento de como marcador entoacional (Frota, 2000; Vigário, 1998).
Na leitura de reanálise (ou segunda leitura), o primeiro sintagma verbal das sentenças-teste é fechado antecipadamente - a fronteira de I é marcada após o primeiro verbo. Mais uma vez, o acento tonal do I intermediário
predominante é de natureza H+L* (72,7% de ocorrência) e recai sobre a sílaba tônica do verbo, o tom fronteira que se segue também é predominantemente do tipo H% (72,7% das ocorrências). A ocorrência de acentos de sintagmas fonológicos () cai para 19. Tal fator pode ser explicado pela maior segurança que os leitores imprimem na segunda leitura, uma vez que já conhecem o “conteúdo” da frase e já refizeram a análise inicial e agora sabem como empregar a prosódia de forma a exprimir a correta interpretação sintática da frase. Vejamos, abaixo, um exemplo do deslocamento da fronteira de I na reanálise: 50 50 110 170 230 290 350 F0 ( H z) 0 0.5 1 1.5 2 2.5 3 3.5
Enquanto Gil caçou os coelhos correram pelo bosque com medo
H* H+L* H% H H+L* L%
Ilustração 2: Sentença 41 PE, versão EC, 2ª leitura. Exemplo da mudança da posição de fronteira, deslocada para o 1º verbo, com acento tonal H+L*, seguido de H%, sem pausa.
Outro fator interessante de ser observado é a ocorrência de um acento tonal “especial”, do tipo L*+H, seguido de um tom fronteira do tipo up-step (^H%). Vigário (1998) demonstra que a ocorrência de um H pós-tônico no acento tonal provoca uma elevação do tom fronteira que se segue, podendo esse chegar a ser o maior valor de F0, em termos absolutos, de toda a sentença. Parece-nos que essa atribuição tonal dada pelos leitores na leitura de reanálise possui uma espécie de ênfase para marcar a mudança da posição da fronteira que, na primeira leitura havia sido marcada após o SN e que na segunda leitura é antecipada para antes deste mesmo SN. Temos ainda como fator diferenciador entre as duas leituras a ocorrência de pausas após a fronteira intermediária de I. Na segunda leitura, a ocorrência de pausa é de 63,6% enquanto que na primeira leitura a porcentagem é de 45,4%. O
aumento no número de ocorrências de pausa na leitura de reanálise pode ser explicado pela necessidade do leitor de marcar enfaticamente a sua mudança de interpretação, demonstrando para o ouvinte que o SV deve ser fechado antecipadamente, sem objeto direto. Esse incremento na ocorrência de pausas parece-nos mais uma marca da reanálise feita pelo leitor na segunda leitura.
4.3.1.2 No Português Brasileiro
A diferença fundamental entre a leitura Garden-Path e de reanálise das frases na versão EC entre as variantes linguísticas PE e PB não está na posição das fronteiras de I demarcadas, mas na natureza da marcação tonal dessas fronteiras.
No PB, o acento tonal predominante do primeiro sintagma entoacional é L+H* que ocorreu em 66,6% dos casos na primeira leitura e em 58,3% dos casos na segunda leitura. O tom fronteira alto (H% ou ^H%) também é predominante, tendo ocorrido em 75% dos casos na 1ª leitura e em 91,6% dos casos na 2ª leitura. 50 50 120 190 260 330 400 F0 ( H z) 0 0.5 1 1.5 2 2.5 3 3.5 4
Maria beijou João e Ricardo arregalou os olhos de espanto
LH* HL* LH* L+H* H% LH* L*H H+L* L%
Ilustração 3: Sentença 51 PB, versão EC, 1ª Leitura. Exemplo do acento tonal predominante no PB, L+H*, seguido de H% e pequena pausa entre os Is.
Diferentemente do PE, encontramos para o PB uma maior diversidade de acentos tonais na posição de núcleo do primeiro sintagma entoacional. Além do acento L+H*, encontramos também H+L* (22%) e L*+H (13%). Como vimos no capítulo 3, Moraes (2007; 2008) faz uma extensa descrição de contornos
melódicos nos mais variados contextos situacionais e afirma que não há acentos tonais “com cauda” no PB. No entanto, justificamos a classificação do acento L*+H com base no trabalho de Vigário (1998), também descrito no capítulo 3. Como dito anteriormente, Vigário (1998 pp. 176-178) afirma que a ocorrência de um H pós-tônico provoca a elevação da fronteira H% que se segue ao acento. Assim como no PE, encontramos um tom fronteira do tipo up-step (^H%), isto é, um tom fronteira com o maior valor absoluto de F0 em toda a execução da frase, para os 13% de ocorrências do acento tonal L*+H executados em PB. 50 50 120 190 260 330 400 F 0 (H z) 0 0.5 1 1.5 2 2.5 3 3.5 4 4.5
Maria beijou João p. e Ricardo arregalou os olhos de espanto
HL* L*+HH% HL* HL* H+L* L%
Ilustração 4: Sentença 51 PB, Versão EC, 2ª Leitura. Exemplo do acento tonal com cauda L*+H, seguido de ^H% e pausa.
Além da diferença da natureza do acento tonal de I intermediário no PE e no PB, há também uma grande diferença em número de ocorrências de acentos de sintagmas fonológicos. Contabilizamos 73 ocorrências de acentos de sintagma fonológico na primeira leitura das sentenças-teste no PB e 62 ocorrências na segunda leitura. A ocorrência de acentos de sintagmas fonológicos no PB, como foi descrito por Tenani & Fernandes-Svartman (2008), é um recurso utilizado pelos falantes para marcar mudanças de foco, por exemplo. Diferentemente do PE, o número de ocorrências de pausa entre os sintagmas cai da primeira para a segunda leitura no PB. Na leitura Garden- Path, temos 75% de ocorrências de pausas, já na leitura de reanálise essa porcentagem cai para cerca de 66%. Tivemos, ainda, a ocorrência de uma
leitura sem divisão de sintagmas entoacionais no quadro da 1ª leitura, quando a frase foi realizada em um único I.
50 50 120 190 260 330 400 F 0 (H z) 0 0.5 1 1.5 2 2.5 3 3.5 4 4.5
Ladrões atacaram Maria e Letícia atirou um sapato neles
LH* HL* L*H HL* HL* HL* H+L* L%
Ilustração 5: Sentença 81 PB, versão EC, 1ª leitura. Exemplo de sentença lida em um único I.
Essa execução prosódica atípica será encontrada em maior número nas sentenças da versão SW. Parece-nos que esse padrão entoacional, que fere as regras de boa formação de Is, é gerado por uma percepção antecipada da ambiguidade, como foi previsto por Frazier (1979) com o Princípio da Semântica Fraca descrito no capítulo 1.
Com relação ao I final, não há diferenças entre as duas variantes, pois o acento tonal final é sempre H+L* e o tom fronteira é sempre baixo (L%), marcação tonal já descrita por Frota (2000) para as declarativas não focalizadas do PE e por Moraes (2007; 2008) para as declarativas neutras do PB.
4.3.2 Divisão em constituintes e marcação tonal das sentenças na