Feita a análise descritiva dos topônimos coletados, passou-se à análise quantitativa dos dois corpora. Nessa fase da análise, apresentamos a quantificação dos dados em gráficos e tabelas.
Para os dados contemporâneos, foram apresentadas tanto informações gerais, como a quantificação total das ocorrências de cada categoria toponímica no estado e nas mesorregiões quanto informações específicas, como a identificação do número de ocorrências de cada tipo de acidente geográfico, isto é, a identificação de quantos rios, córregos, fazendas, povoados, dentre outros acidentes que receberam nomes de Santos, de Santas ou de invocações à Virgem
Maria. Os dados históricos, por sua vez, foram observados diacronicamente.
Quanto à quantificação da análise linguística, observou-se, além do gênero do topônimo, questões concernentes à sua estrutura e aos processos de formação morfológica. Observaram-se também aspectos sincrônicos e diacrônicos relacionados ao estudo da variação linguística.
Cumpre dizer que não tratamos, em nossa análise, da origem e da etimologia dos topônimos estudados, visto que, baseando na análise prévia que consta do Banco de Dados do Projeto ATEMIG, partimos da premissa de que todos os hagiotopônimos são de origem predominantemente portuguesa. Há, entretanto, alguns hagiônimos que apresentam determinantes de origem indígena ou africana, configurando, assim, topônimos híbridos, o que foi explorado apenas superficialmente em nossa análise devido à grande quantidade de dados. Ressaltamos, porém, que consideramos a ideia de, posteriormente, dar continuidade a este estudo analisando, dentre outras coisas, a origem e a etimologia dos constituintes desses nomes.
3.2.2.1 Quanto à forma e ao gênero
Em seu trabalho sobre a hierotoponímia nos municípios brasileiros, Dick (1990b, p.159-160) apresenta os resultados referentes aos hagiotopônimos, destacando o fato de que os nomes dos santos são mais recorrentes enquanto “o emprego toponímico do nome das santas não têm a mesma dinâmica.” A autora acrescenta ainda que “apesar da grande devoção
dedicada pelo povo brasileiro à Virgem Maria, são poucos topônimos consagrados aos cultos específicos de Nossa Senhora” (Op. cit., p.160). [Grifos da autora]
Outro trabalho em que também nos baseamos é o de Tort-Donada (2011, p.58)41, uma vez que, em estudo sincrônico sobre os hagiotopônimos na Catalunha, o autor constata que mais de dois terços dos hagiotopônimos são invocações de santos masculinos. Apesar de não explicar as razões dessa diferença por gênero, ele reconhece a influência de questões históricas e religiosas nesse quadro comparativo.
Desse modo, a fim de observar, no léxico toponímico mineiro, como se dá a distribuição dos topônimos estudados quanto ao gênero, dividimos os dados – contemporâneros e históricos – em dois grupos: hagiotopônimos masculinos – nomes de santos – e hagiotopônimos femininos – nomes de santas. Entre os nomes femininos, encontram-se também as invocações à Virgem Maria. Cumpre dizer que a observação do gênero dos topônimos – contemporâneos e históricos – levou em consideração a forma ou estrutura do sintagma toponímico, isto é, foram apresentados também os índices de hagiotopônimos simples e compostos.
3.2.2.2 Quanto à estrutura e aos processos de formação morfológica
Conforme se demonstrou na seção anterior, em que tratamos dos elementos que constituem as fichas lexicográficas, todos os topônimos sob enfoque foram classificados estruturalmente, o que permitiu analisá-los não só no que diz respeito à estrutura, mas também em relação aos processos de formação morfológica. Assim, nessa fase da análise, apresentamos detalhadamente os processos de formação morfológica dos hagiotopônimos dos dois corpora.
41 (TORT-DONADA, 2011, p.58) “It is certainly significant that more than two thirds of the hagiotoponyms in Catalonia (2,246 to be specific, or 71.96% of the total) are invocations of male saints. The remaining 875 (28.04%) correspond to female hagiotoponyms. First, I should point out that I do not intend to examine here the reasons for this imbalance in the hagiotoponyms by gender, although there must have been historical and religious reasons for this development. However, the approach adopted in this study, which seeks above all to understand the present-day reality, prevents me from considering questions with a marked chronological component.”
3.2.2.3 Quanto à variação e à mudança linguística
No que se refere à variação e à mudança linguística dos topônimos, baseamo-nos em Dauzat (1926), para quem os nomes próprios de lugares, assim como os nomes comuns, estão sujeitos à variação, sobretudo à ação da analogia, fato linguístico que afeta toda língua viva. Nas palavras do autor:
Acreditava-se, antigamente, que os nomes de lugares eram menos sujeitos aos acidentes do que os nomes comuns, por que pareciam menos expostos às influências ocasionadas pelo contato com outros elementos do vocabulário e, também, porque, em princípio, eles não se deslocavam. Mas, o estudo atento dessas palavras prova o contrário, ou seja, elas são mais acessíveis às alterações que os nomes comuns: não estão elas isoladas na língua, incompreendidas, privadas do sustento que oferece a seus membros toda família de palavras? Além disso, encontram-se menos profundamente ancoradas na consciência popular, experimentando alterações de ordem gráfica.(DAUZAT, 1926, p.58)42
Desse modo, adotamos, em nosso trabalho, a orientação e a terminologia do autor, visto que, quanto à variação, observaram-se, tanto sincrônica como diacronicamente, as transformações ocorridas no topônimo; e, em relação à mudança, observaram-se as substituições do topônimo, adotando-se as terminologias mudança espontânea – aquela que se dá na língua após invasões ou conquistas de um território – e mudança sistemática – é aquela, que independente de conquistas, evoca em geral o nome de um soberano ou autoridades de uma região e é imposta com o objetivo de homenagear alguém. (DAUZAT, 1926, p.45)
Ressaltamos que foram identificadas apenas as mudanças ocorridas em nome de municípios, o que foi possível, além da observação dos mapas históricos, graças à consulta feita à obra “As denominações urbanas de Minas Gerais: cidades e vilas mineiras com estudo
toponímico e da categoria administrativa” publicada, em 1997, em parceria pelo Instituto de Geociências Aplicadas e pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais.
Terminada essa etapa da análise, passou-se à análise geotoponímica, cujos procedimentos adotados são explicados na seção seguinte.
42 “On croyait jadis que les noms de lieux étaient moins sujets aux accidents que les noms communs, parce qu’ils paraissaient soustraits aux réactions réciproques provoquées par la solidarité des éléments de vocabulaire, et, pourrait-on ajouter, parce qu’en principe ils ne voyagent pas. L’étude attentive de ces mots prouve au contraire qu’ils sont plus accessibles aux altérations que les noms communs: ne sont-ils pas isolés dans la langue, vite incompris, privés du soutien qu’offre à ses membres toute famille de mots? En outre, moins profondément ancrés dans la conscience populaire, ils ont éprouvé davantage, à l’époque moderne, les contre- coupsd d’erreurs ou d’altérations d’origine graphique.”